sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O Passado dos Personagens - Ralph (Parte 2)


Ralph gostava de sentar-se na primeira carteira porque tinha dificuldade em concentrar-se. Raramente conseguia prestar atenção nas aulas, as conversas e sons vindos lá de fora o faziam pensar em todas as oportunidades de aventurar-se que estava perdendo. Ali pelo menos teria uma visão melhor da lousa, ouvindo com perfeição a voz de sua professora sem se distrair com o que não era importante no momento.
Após três semanas de aula, a Profª Clover chegou à conclusão de que Ralph sofria de algum tipo de dislexia, pois sua velocidade de aprendizado era mais lenta que a dos demais alunos. Ele tinha fraco desenvolvimento da atenção, além de certo atraso na escrita e coordenação motora. Provavelmente teria de inscrever o garoto em algumas aulas de reforço à tarde, mas até que essa medida fosse tomada, daria toda ajuda necessária.
Ralph não precisava mais aprontar-se com três horas de antecedência e pegar o trem para chegar até Campos Verdes, bastava sair do dormitório e descer as escadas para dar de cara no pátio da escola. Seus colegas de quarto reclamavam o tempo todo de cansaço, fariam de tudo por mais cinco minutos de sono. Carregava esse costume dos geckos de acordar cedo para caçar, trabalhar ou simplesmente armazenar calor durante o período da manhã, mas agora não tinha mais essas preocupações. Duas senhoras já serviam o café da manhã no refeitório, Ralph comeu leite com cereais e frutos o mais depressa possível para esperar os demais da turma.
Suas aulas começavam às sete e meia, mas às seis da manhã ainda não havia ninguém na classe.
Ele ficou sozinho na sala vazia por quase quinze minutos até que uma garota entrou. Ela era a mesma que elogiara sua armadura no primeiro dia, dificilmente ele iria esquecê-la, desde então não tivera a chance de sequer saber o seu nome. Ela tinha os cabelos longos que misturavam um tom castanho com fios loiros, ela os prendia numa longa trança improvisada com um laço vermelho gracioso em cima. Tinha olhos verdes absolutamente lindos e estava com um vestido de renda que cobria até seus pés, como se fosse uma camisola bem larga, o que a fazia andar meio desengonçada e até tropeçar de vez em quando. Seus ombros ficavam escondidos por uma longa capa branca que arrastava no chão, mas conseguia manter-se sempre limpa e bem passada.
Ralph, que não era nem um pouco discreto, quase subiu em cima da mesa para conversar:
— Olá! Ainda não sei o seu nome.
A garota mal tinha tirado seu material escolar. Ela se encolheu toda com a atenção exagerada que recebia, mal conseguia fazer contato visual e tentava se esconder atrás de seus óculos, embora não quisesse parecer rude.
— É Rebecca — ela falou com a voz tão para dentro de si que foi impossível entender.
— Herebeca?
— N-não... Só Rebecca.
— Ah, tá. Meu nome é Ralph, da Espada de Madeira! No meu primeiro dia de aula você disse que gostou da minha armadura, fui eu mesmo que fiz.
— Que bom... Você é habilidoso — disse Rebecca com seu jeito encabulado, lutando desesperadamente contra seu lado introvertido para manter a conversa fluindo.
— Meu sonho é ser um poderoso guerreiro, o herói mais forte de Sellure! E o seu? Quer ser uma heroína também?
— Eu não gosto muito de guerras...
— Do que você gosta, então?
— Desenhar — ela respondeu de forma tímida. Vendo que não havia mais ninguém na sala para julgá-la, levou sua mão com receio até sua pasta, sem ter muita certeza de que deveria mostrar seu trabalho. — Quer ver?
Ralph acenou com a cabeça diversas vezes demonstrando muito entusiasmo. A menina tirou uma pasta da mochila que continha seu trabalho, diversos papéis e cadernos com os mais diferentes desenhos. Ela era muito boa para alguém da sua idade, além de usar um tema completamente inesperado de uma garota. Rebecca gostava de desenhar criaturas pertencentes à raça dos Monstros, desde os mais fofinhos até os mais grotescos. Raramente mostrava seu trabalho para as amigas porque elas os achavam feios, tinham medo de monstros que eram conhecidos nas histórias por devorar criancinhas travessas. Ralph via neles uma das raças mais incríveis de Sellure.
— Uau, isso é demais! Você tem muito talento, olha só para esse dragão! Por um acaso já se deparou com um desses monstros de verdade?
A garota fez que não com a cabeça, sem tirar os olhos do chão.
— Eu acho legal que existam pessoas que os considerem bonitos...
Os dois conversavam baixinho e compartilhavam seus projetos pessoais quando um terceiro integrante entrou na classe. Claus ainda parecia sonolento, estava cansado de ficar até de madrugada conversando com seus amigos. Trajava vestes parecidas com as de sempre, camisa de manga longa, luvas e bandana. Sua expressão de mau humor nunca mudava.
— Bom dia — falou Rebecca, tratando-o com mais intimidade do que outras crianças.
— Ei — Claus emitiu um grunhido antes de esparramar-se na carteira ao lado. — O que pensa que está fazendo aí cantando a minha irmã?
Os dois realmente eram parecidos à sua própria maneira. Provavelmente não eram gêmeos, mas aquilo comprovava o fato de Claus ter repetido um ano. Talvez por isso as outras crianças tivessem tanto medo de cair no time oposto ao dele na queimada.
— A Rebecca faz uns desenhos muito legais.
— Eu sei. Ela te mostrou? — Claus só quis confirmar. — Considere-se sortudo.
Pouco a pouco, Ralph já não se sentia mais um peixe fora d’água em meio aos humanos. De fato era muito mais fácil ganhar a confiança deles à dos geckos, ele já contava com companhia na hora das refeições, Claus não deixava que Nefele e as outras veteranas perturbassem ninguém, mas diversas vezes tiveram de fugir da janta para comerem escondidos no quarto.
O único problema era na hora de formar duplas para os trabalhos. Bomba e Dello praticamente andavam de carteiras coladas e Claus só ficava com sua irmã porque ela fazia todas as tarefas sozinha.
— Muito bem, crianças. Dessa vez, vou juntá-los em ordem alfabética para que experimentem novos times, afinal, é importante saber trabalhar em equipe — anunciou a Profª Clover naquele dia. Ralph e Rebecca compartilhavam a letra R como inicial, por isso ficaram juntos.
 O trabalho era bem simples e dinâmico, só precisariam recortar algumas palavras de revistas.
— O que raios é um advérbio? — era possível ouvir Claus reclamar lá na carteira do fundo após fazer dupla com uma garota chamada Bianca. Sua irmã Rebecca já havia encontrado três quando virou-se para Ralph e perguntou:
— Está conseguindo?
Ralph estava muito entretido desenhando por cima da imagem de Lydia Mercer, uma loira belíssima que estampava a capa da revista mais famosa do reino, e agora tinha um bigode na cara.
Quando o assunto era chamada oral, Ralph até conseguia se sair bem. Ele gostava muito de se comunicar e não tinha vergonha alguma em estar na frente da classe. Nesse sentido ele compensava Rebecca que mal respondia “presente!” para marcar presença. Quando alguém esquecia uma fala, Bomba e Dello seguravam folhas de caderno lá no fundo com pequenos trechos da apresentação. A Srta. Clover fingia simplesmente não notar.
Uma das lições favoritas de Ralph foi plantar um pé de feijão em um copo com algodão e vê-lo crescer. Clover ensinava aquilo para todas as turmas porque adorava plantas, eram sua especialidade. Como tinha experiência no campo, o feijãozinho de Ralph cresceu mais do que os outros.
Numa segunda-feira de abril, os alunos foram pegos por uma tarefa surpresa que tinha o objetivo de listar o nome de quinze espécies de plantas diferentes. Ninguém sabia mais do que cinco. Clover que adorava botânica, nas horas vagas cultivava pequenas ervas medicinais, por isso teve a ideia de levar as crianças para fora dos portões da escola num dos parque de Campos Verdes.
A capital era conhecida por manter um forte contato com a natureza, o que caracterizava a região era a ausência de montanhas que a tornava uma vasta planície onde ventava muito e fazia sol o ano inteiro, por isso a sombra das árvores se revelava essencial. O parque ficava a menos de cinco minutos andando de New Times, havia uma pequena banca de jornais e uma estação de trem. O espaço era amplo e havia e as crianças tinham muito o que explorar.
Rebecca analisava uma flor roxa sem arrancá-la quando a Srta. Clover agachou para observar também.
— Veja só que linda — disse Clover. — É uma hortênsia.
— Agora só faltam duas para mim — falou Rebecca, abraçando seu caderno. — Professora, posso fazer uma pergunta?
— À vontade, minha querida.
— É verdade que você pode se transformar em uma flor?
— De onde você tirou essa ideia? — Clover perguntou com um sorriso. — Bem, eu sou uma tótines, apesar da aparência humana. Diferente de outras raças, humanos e tótines conseguem se misturar muito bem, mas digamos que nós tenhamos alguns pequenos privilégios. Vou lhes mostrar, chame seus amigos.
Clover convocou sua classe perto da lagoa e pediu que todos se sentassem em um círculo. Ela ergueu seu cajado e várias folhas caídas das árvores se juntaram e começaram a formar desenhos no ar. Estava na hora de uma aula sobre os tótines, uma das raças mais primorosas e complexas do reino.
A professora listou as três características que definiam toda a base da magia:
— Ela se dá através da mana, uma energia emanada por todos os seres vivos. Apenas os tótines são capazes de manipulá-las, nossos descendentes foram os primeiros a canalizarem essa energia e a prenderem em pequenos objetos para que ela fosse compartilhada com outras raças. Dessa forma, humanos, monstros e geckos também tiveram acesso a elementos como o fogo para criar pequenas fogueiras, água para banhar-se e eletricidade para produzir energia. No começo, a mana era presa em pérolas, mas elas pesavam muito e eram difíceis de carrega-las na bolsa. Hoje utilizamos apenas selos.
— A senhora é confeccionadora de selos, não é? — perguntou Bomba lá no fundo.
— Por favor, senhora é a minha avó — brincou Clover. — E sim, tenho uma licença do próprio governo para fabricar, utilizar e distribuir meus selos. Eles podem ser usados em grandes quantidades para regar plantações, para fazer uma planta crescer mais forte e até mesmo armazená-la.
Clover aproximou-se da lagoa, onde tocou a água com a ponta de seu cajado. Uma bolha surgiu e ela flutuou até as mãos da professora que a levitou e estourou-a no ar, dando um banho nas crianças que riram sem parar.
— O processo de fabricação é um pouco mais demorado, mas precisa-se do instrumento original antes que se possa transformá-lo em um selo. Há confeccionadores que se especializam em objetos, outros preferem equipamentos de batalha e até barcos inteiros — contou-lhes Clover.
— Minha mãe sempre me dá um selo de guarda-chuva para que eu não seja pego de surpresa numa tempestade — disse Bomba.
As pequenas folhas voltaram a levitar no ar, assumindo o formato de três símbolos distintos.
— A magia dos tótines pode ser classificada em três áreas: Transformação, Manipulação e Elementar. Alguém sabe me dizer a diferença?
— Transformação serve para... se transformar? — perguntou Ralph, o que fez seus amigos rirem. Por mais óbvio que parecesse, ele estava certo.
— Exatamente. Alguns tótines nascem com a capacidade de se transformarem em animais, outros em objetos ou até pessoas. Eu, por exemplo, me transformo em uma flor.
Seus alunos se encheram de euforia, imploravam que a Profª Clover mostrasse um vislumbre de sua incrível habilidade. Seria uma flor meiga e esbelta?
— A magia de transformação deve ser lidada com cuidado, ainda mais quando o usuário conhece a magnitude de sua força, então não poderei deixa-los dar nem uma espiada sequer — explicou-lhe Clover. — Pois bem, continua a explicação, a segunda área é a Manipulação que confere o poder de manipular algo, desde pequenos equipamentos até elementos da natureza. Eu sou capaz de manipular matéria prima básica, como giz, madeira e pequenas pedras. Se eu me concentrar muito, talvez eu consiga até levitar um de vocês.
— Até o Bomba? — brincou Claus, fazendo seus amigos darem risada. — É brincadeira, cara. Só é engraçado porque você é gordo.
Um dos galhos da árvore ao lado moveu-se e deu um leve tapa no rosto de Claus. Aquele era o mais perfeito exemplo de manipulação.
— E por fim temos o Elementar, a área mais poderosa onde o tótines é capaz de gerar e controlar os elementos existentes em nosso reino. Alguns dizem que esta é a magia mais rara, mas a verdade é que todo poder é importante. Os tótines mais poderosos da história são aqueles capazes de manipular todas as três áreas, alguns descobrem essa capacidade logo cedo, enquanto outros levam uma vida inteira. Há quem acredite que certos tótines nascem sem determinadas habilidades, mas, eu sinceramente acredito que a magia exista dentro de cada um. Cabe a nós encontra-la e aperfeiçoá-la.
Assim que Clover terminou a explicação, seu quadro de folhas se desfez, sendo varrido pelo vento. Uma brisa leve soprou vinda do lago ali perto e seus alunos se encheram de conhecimento.
— Agora que vocês já me enrolaram bastante, como anda a pesquisa dos nomes de plantas? Já posso recolhê-las? — Clover viu no olhar de cada um que eles ainda estavam longe disso. — Vocês têm quinze minutos.
Os alunos se dispersaram no mesmo instante, desesperados para concluírem suas tarefas. A maioria precisava de apenas mais uma planta, mas não encontravam de jeito nenhum. Foi quando Dello apareceu gritando desengonçado com algo preso nos seus dedos da mão. Era uma pequena plantinha carnívora que mais parecia uma fruta magricela com olhos de jabuticaba e uma boca repleta de espinhos afiados. Quando Rebecca reconheceu aquele monstro de seus desenhos, não pôde deixar de comentar:
— Isso é um Dellonium!
— Um Dellonium que mordeu a mão do Dello — respondeu Claus num sinal de surpresa, Ralph e Bomba precisaram sentar no chão de tanto rir. — Esse dia vai entrar para a história!

i

Ralph estava sentado ao lado de Rebecca, vendo-a desenhar um Aukalaka numa manhã pacata de quinta-feira. Era um dia perfeitamente normal, mas a Profª Clover já estava atrasada quinze minutos, o que não era de seu feitio.
— O que acha desse, Claus? — Rebecca perguntou, mas ele era o menos interessado em comentar o avanço de sua irmã nos desenhos.
— A cabeça está muito grande.
— Você nem sabe como é um Aukalaka de verdade.
— Não deve ser pior do que você.
— Acho que ninguém sabe como é um Aukalaka — comentou Ralph. — O último foi visto há quanto tempo, uns cem anos? Enfim, pra mim ficou bem legal.
Rebecca fez cara feia e mostrou a língua para seu irmão.
— Viu só? O Ralph gostou.
— O Ralph gosta de tudo
— Gosto mesmo, sua irmã é muito boa, estou aprendendo a desenhar com ela — ele mostrou seu caderno de desenhos que já evoluíra de bonecos de palito para lagartixas com asas. Era uma melhora razoável.
Mais tarde, todos se assustaram quando Dello chegou na sala. Ele sempre era o último a chegar, e ainda não havia sinal da Profª Clover.
A classe inteira entrou num frenesi. Teriam um dia inteiro para fazerem o que quisessem! Clover era tão pontual que, se até agora não aparecera, provavelmente ela não viria mais. O próprio relógio parecia andar mais devagar a seu favor. A sala encontrava-se num estado de baderna tão descomunal que as crianças já saíam para o pátio e brincavam lá fora sem medo de receber uma punição. Ralph estava apreensivo, mas continuou sentado em sua carteira aguardando pacientemente.
— Vocês acham que aconteceu alguma coisa com a bruxa? — perguntou Claus. — De repente ela tomou um balde de água fria e se desfez.
— Não a chame assim. Talvez ela esteja doente — respondeu Rebecca.
— Deveríamos ir visita-la — sugeriu Ralph. — A Srta. Clover mora aqui na escola mesmo, não deve ser difícil encontrarmos o quarto dela. Podemos levar flores, ela as adora!
Seus amigos concordaram. Claus e Rebecca o acompanhariam pelos corredores da New Times, mas era melhor que evitassem o olhar atento de outros professores que não hesitariam em passar-lhes tarefas extras caso visse alunos vagando pela escola.
Eles alcançaram o andar do dormitório quando ouviram dois adultos discutirem:
— Então o líder deles se chama Goldo — concluiu o professor de matemática. — Eles estão hospedados naquela pousada que está caindo aos pedaços perto do museu, mas segundo a polícia não há como incriminá-los porque eles acabaram de sair da prisão e cumprir sua pena.
— Lamentável. É melhor redobrarmos a atenção nos arredores e não deixarmos mais que os professores levem os alunos para excursões pela cidade. Principalmente a Clover que adora dar aulas ao ar livre. Não seria interessante topar de frente com uma gangue de bandidos e piratas.
— Você tem razão... — respondeu o segundo. — E, por sinal, viu o rosto dela depois do acidente? Parece péssima.
— Nem me fale. O diretor quis dar uma folga para ela de uma semana, mas ela insistiu em continuar suas aulas para não atrasar o aprendizado seus alunos. Essa mulher é muito competente.
Ralph, Claus e Rebecca ouviram o suficiente para que sua curiosidade fosse atiçada. Eles voltaram no instante em que Bomba assobio lá do pátio, aquele era o aviso de que a Srta. Clover estava a caminho e que todos deveriam se comportar. Os alunos correram de volta para a sala e se posicionaram como se nada tivesse acontecido.
Clover entrou de costas empurrando a porta com sua parte traseira, carregando uma pilha de livros pesados entre osbraços.
— Desculpem-me o atraso, meus queridos... Aconteceram alguns imprevistos.
— Por que demorou, professora? — Ralph perguntou, incapaz de conter sua ansiedade.
— Eu... Bem, tive problemas no caminho. Coisa de adultos.
Ralph percebeu que os livros dela estavam abarrotados, seu vestido parecia amassado e o longo chapéu pontudo tampava seu rosto. Ela vinha evitando contato visual. Estava sem sua capa e inclusive sem o cajado, era como se tivesse saído de casas às pressas e esquecido completamente de que daria aula naquela semana.
Clover começou a escrever na lousa usando a própria a mão, sem magia e nem giz mágicos. As outras crianças fofocavam baixinho. Algo ainda não estava certo.
Sem erguer a mão, Ralph perguntou, alterado:
— Professora, aconteceu alguma coisa?
Clover parou de escrever na lousa, mas continuou de costas.
Ela demorou em virar-se, mas quando reuniu forças, revelou a todos que seu rosto estava muito machucado e inchado, quase como se ela tivesse sido agredida. Um de seus olhos estava avermelhado e a bochecha esquerda era coberta por esparadrapo. Ela parecia ter chorado no banheiro durante horas, mas mostrava-se uma mulher forte quando retornara para a sala disposta a seguir com a aula para seus adorados alunos.
Após um longo suspiro, Clover sorriu e acenou com a cabeça:
— Está tudo bem, querido. Vamos continuar a aula.
Ralph sentiu seu sangue ferver e as veias pulsarem. Como uma pessoa tão maravilhosa quanto sua adorada professora poderia sofrer daquela maneira? Ele era incapaz de perdoar injustiças. Tinha certeza que o ocorrido tinha algo a ver os ladrões hospedados ali perto, e cometera um grave erro por não tê-la protegido quando ela precisou.
Quis levantar-se e sair correndo, mas não queria que Clover se assustasse. Assim que o sinal tocou anunciando o horário do intervalo, Ralph saiu correndo e dessa vez não foi para tomar sol no pátio.
Rebecca foi a única que percebeu que algo não parecia certo, por isso o chamou para conversar na saída.
— Ralph, você não está pensando em ir procurar aqueles piratas, né?
— Não, claro que não — Ralph mentiu. Era péssimo em mentir, estava tão na cara. — É que eu estou com uma tremenda dor de barriga, nem posso parar pra conversar.
— Nossa, me desculpe, dor de barriga é terrível mesmo... eu... não consigo fazer na escola, prefiro voltar pra casa, sabe? Me sinto meio estranha naqueles toaletes que dá pra ver os pés das pessoas por baixo...
Ralph era um péssimo mentiroso, mas para sorte Rebecca era a garota mais ingênua da escola. Ela acreditava em tudo que lhe contassem.
— Por favor, não conte para ninguém — Ralph pediu mais uma vez. Caso ela tivesse descoberto seu plano, preferia que ficasse em segredo.
— Não contarei. — Até porque sair espalhando a notícia da dor de barriga alheia seria uma tremenda maldade. — Anda, vai logo!
Ralph contornou os portões da escola e seguiu as instruções que ouvira da conversa dos professores. Nenhum segurança estranhou uma criança que corria apressada pela rua, afinal, ele poderia estar apenas ansioso para chegar em casa. Ralph encontrou a pousada que mais parecia uma taverna velha e mal cheirosa. Entrou lá causando o maior alvoroço que conseguiu, mas nem isso foi o suficiente para superar a música alta e a gritaria vinda lá de dentro.
Havia um homem enorme sentado de costas, sua cadeira parecia poder quebrar a qualquer instante e despedaçar-se. Seguindo as descrições, só poderia ser ele, o tal de Goldo. Ralph puxou suas calças e certificou-se de estar trajado com sua armadura de papelão.
O homem estava ainda meio embriagado. Quando olhou para baixo, viu apenas uma criança com sua espada de madeira nas costas.
— Por acaso você é o Goldo? — perguntou Ralph.
Os demais membros que estavam sentados na mesa começaram a rir histericamente.
— Ih, chefe, encontrou mais um filho perdido no mundo? — o de nariz arrebitado caçoou. Goldo ajeitou o cinto da calça sobre a barriga virou-se para o garoto ao seu lado, soltando uma baforada de cerveja na sua cara:
— Dá o fora daqui, moleque.
— Antes que eu atribua a sua devida punição, me diga, foi você quem atacou a minha querida professora hoje antes de ir para a escola? — Ralph o intimidou de maneira séria. Precisava ter um julgamento para saber se Goldo era realmente bom ou mau.
O pirata virou-se para ele, erguendo as mãos para o alto e insinuando que era inocente.
— Tá vendo alguma arma aqui? Essa vida de bandido não é para mim. Eu não sou culpado de nada, não vê que estou apenas bebendo tranquilamente com meus amigos?
Ralph o analisou bem. Apesar da aparência estranha, o ex-bandido (o que o deixava confuso, porque para ele um ladrão sempre roubaria de novo se tivesse a oportunidade) parecia realmente não saber do que ele estava falando.
— Então o senhor jura que não atacou a Srta. Clover antes dela vir para a aula de hoje?
Goldo o encarou e riu, mostrando alguns dentes que faltavam.
— Toma — ele lançou uma moeda de ouro nas mãos de Ralph. — Compra uma bala e volta para a escola. Lá você rende mais.
Ralph concordou e foi embora marchando. Goldo e seus comparsas riam sem parar. Quando o menino estava perto da porta, ouviu Quando o jovem estava para deixar a taverna, ouviu o velho pirata chama-lo uma última vez:
— Ei, garoto, espera aí — Goldo virou-se na cadeira e o encarou, arqueando uma das sobrancelhas. — E se eu dissesse que fui eu que bati nela? O que você faria?
Ralph pegou impulso e avançou contra Goldo no mesmo instante, pulando em sua cara e acertando um soco tão forte no rosto que o machucou um bocado. Seus capangas se levantaram da mesa e a cadeira de Goldo partiu ao meio com o peso. Ele levantou-se mais irritado do que nunca.
— Moleque, agora você vai pagar.
Ralph sacou sua espada de madeira para defender-se, mas o criminoso acertou-lhe um chute tão forte que o arremessou para longe. A festança na taverna parou e os clientes saíram às pressas. Não havia como uma criança lidar contra quatro adultos perigosos, ainda mais sozinho.
Mas nem por isso Ralph desistiu. Agora que sabia quem era o seu inimigo, não iria permitir que ele saísse impune.
Algumas pessoas não estão dispostas a brincar com crianças. Não havia honra entre os foras da lei, e Goldo tinha um histórico de violência como encrenqueiro, arruaceiro e ladrão em cada uma das quatro províncias do reino. Ele não obedecia a ninguém. Ralph era apenas um garoto de dez anos com uma simples espada de madeira, mas isso não impediu Goldo de tirar um facão afiado escondido em sua bota
— Ei, chefe, vai com calma... Ele é só uma criança — disse um de seus capangas.
— Não importa a idade. Se tem uma dívida comigo, eu o farei pagar.
Ralph sentiu-se atordoado e com medo, mas de repente sua espada de madeira emitiu um estranho brilho branco. Goldo partiu furioso em sua direção, a tempo do garoto segurar Lignum com força e a erguer. Tudo aconteceu muito rápido, Ralph teve certeza de que viu uma garota levantar-se e defende-lo, avançando com a coragem de mil homens. Ela tinha os cabelos em tons claros e lindos olhos cor de mel. A garota acertou o estômago do pirata com tanta força que ele caiu ajoelhado no chão, vomitando toda a cerveja que consumira havia pouco.
Ralph piscou várias vezes para saber se estava sonhando. Pensou tratar-se de Rebecca, mas a menina aparentava ter por volta de quatorze anos. Também passava longe de Nefele, alguém como ela jamais o protegeria com tanta vontade e determinação. Ainda de costas para ele, a imagem da menina começou a se desfazer no ar e, quando ela finalmente virou-se, estava sorrindo.
Tente não meter-se em apuros, está bem?, ele ouviu uma voz feminina. Mas, se acontecer, eu sempre estarei aqui para protegê-lo. Vamos lutar juntos.
Quando Ralph esfregou os olhos, tinha apenas sua espada de madeira em mãos.
Goldo e seus comparsas ainda não tinham desistido. Eles sacaram suas armas escondidas entre as vestes desgastadas, mas assim que o fizeram os equipamentos misteriosamente levitaram no ar para longe deles. Na entrada da taverna estava a Profª Clover junto de Rebecca, Claus, Bomba, Dello e todos os demais alunos de sua classe.
— Que feio. Armas não são permitidas nos arredores da escola — disse Clover, vestindo seu chapéu pontudo e utilizando sua magia para afugentar seus inimigos.
Goldo e seus comparsas foram devidamente imobilizados até que as autoridades chegassem. Antes dos soldados os levarem para o julgamento, o pirata cuspiu no chão e prometeu um dia dar uma lição naquele garoto da espada de madeira, somente então quitaria as dívidas deixadas entre os dois.
Clover ajoelhou-se em frente a Ralph e o abraçou com tanta força que parecia nunca mais poder larga-lo. Estava agradecida pela intenção, mas também o repreendeu diversas vezes e usou-o como exemplo para que as outras crianças nunca mais se intrometessem no assunto dos adultos, ou pior ainda, que tentassem fazer justiça com as próprias mãos. Ralph teve de ouvir o longo discurso na frente da classe que ria baixinho dele. Seus amigos o parabenizavam pela coragem, gostavam de uma boa baderna e estavam aliviados de vê-lo bem.
— Cara, por que não nos chamou também? Nós quatro daríamos uma surra neles! — falou Claus.
— É, se o Bomba sentasse em cima deles ninguém aguentaria — respondeu Dello.
— Ralph, nunca mais faça isso, você é precioso demais para que possamos perdê-lo. Para quem eu mostraria meus desenhos?— disse Rebecca com imensa preocupação. — E a sua dor de barriga, passou?
No final, Clover o abraçou só para ter certeza de que ele ainda estava ali, inteiro em sua frente.
— Nunca mais faça isso comigo, mocinho — sussurrou a Srta. Clover, aliviada. — Por favor, não me faça passar por isso de novo.

ii

— O QUÊÊÊÊÊÊÊ?! Então quer dizer que na verdade a senhorita derrubou os armários da biblioteca em cima de você, sua magia falhou, os livros bateram na sua cara, você ficou presa ali em baixo e acabou entalada até alguém vir resgatá-la?!
— E com vergonha de admitir para os alunos, sim — Clover confirmou a história. — Até mesmo os tótines mais poderosos estão sujeitos a falhas. Eu não fazia ideia que algum de vocês pensaria que fui agredida, querido. Sou uma mulher forte, eu saberia defender-me caso eu fosse atacada na rua e daria uma lição em qualquer impostor. Sou professora de alunos muito talentosos, preciso servir de exemplo! Mas enquanto estiverem sob meus cuidados, sou eu quem irá protegê-los.
Clover falava de maneira mansa e carinhosa na maioria das vezes, mas quando estava irritada fazia jus ao medo que seus alunos sentiam dela, e com fundamento. A cabeça de Ralph quase afundou na mesa de tão forte que ela o pressionava.
— E quem mandou o senhor sair na rua sozinho aprontando com gente que você nem conhece, hein? Foi isso que te ensinei? É para isso que lhe dou aulas de reforço? Ou prefere que eu insira também a matéria de boas maneiras à grade curricular?
— D-desculpa, senhora!
— Não me chame de senhora, eu envelheço um ano cada vez que um de vocês me chama assim! Pela graça de Sayra, esse emprego ainda vai me deixar com cabelos brancos...


   

  10 comentários:

  1. Rebecca, uma menina extremamente reservada... Acabei por me identificar na personagem, literalmente.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu adoro o nome Rebecca :3 Ela é muito fofa, vocês combinam kk Apesar de ainda não ter planejado sua aparência, tem uma parte muito importante no enredo reservado para ela no segundo livro. O pior é que nessas horas fico ainda mais ansioso para conseguir publicar logo, comecei a escrever o segundo sem nem saber o que me aguarda kkkk

      Fico feliz em vê-la por aqui, Shii! \õ

      Excluir
  2. E o Oscar de '' Primeira mulher mais nova/da mesma idade que se aproxima do Ralph vai para '' Rebecca eu não sei o sobrenome ! (Aplausos )

    Coitado do Goldo ,acham que tudo é culpa dele e ainda tomou uma surra por causa do Orgulho de uma professora ,Ralph é cruel demais

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Se é da mesma idade, então pro Ralph só serve como amiga :v kkkkkkkk Ainda não citei o sobrenome da Rebecca e do Claus porque isso terá certa relevância para o próximo livro (e também porque não pensei em nenhum. Céus, sou terrível com sobrenomes!). A princípio eu nem pretendia colocá-los agora no blog, mas me pareceu uma bela oportunidade! Quando o Ralph voltar para sua terra natal, ele vai acabar se esbarrando com a Clover e alguns desses amigos dos tempos de escola. Aí sim a parada vai ficar louca kkkk

      O Goldo é um dos principais antagonistas do livro! Mais uma vez dei um jeitinho de interligar as tramas, ele aparece logo no comecinho do primeiro e quando vê o Ralph fica pensando: Mas eu já vi esse moleque em algum lugar... kkkkkkk Por hora ele pode até parecer um pirata bobão, mas com o tempo o cara vai ficando insuportável, então o soco foi bem merecido. É daqueles vilões chatos que estarão para sempre importunando a vida dos protagonistas, mas algo grande o aguarda em seu futuro. Pelo menos ele espera kk Valeu pela presença aí, Donnel! \õ

      Excluir
  3. Desculpa o comentário tardio, mas notei uma bobeira no capítulo, então pergunta: Lydia Mercer (capa de revista), é mãe da Auria?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Comentários tardios são sempre bem vindos, cara kkkkkk Você está bom de olho, foi um pequeno easter egg que coloquei do livro para o futuro. Lydia Mercer é na verdade a imrã mais velha da Auria, acho que não chegarei a falar sobre os pais dela, mas ela é mencionada constantemente no primeiro. Fora isso, as duas irmãs da Auria aparecem no capítulo do Passado dos Personagens.

      A Lydia é uma personagem importante porque ela meio que representa a mídia, tanto que está sempre estampando as capas da revista, digamos que seja a Wiki de Sellure kkkkkk Preciso caprichar na imagem dela!

      Excluir
    2. KKK, capricha 'ein'! Se não caprichar, você andará na prancha e será dado de comida aos tubarões!

      Aqui, achei bem bacana o capítulo 3 ser tipo um prólogo pro início do livro. Foi bem interessante.

      Agora dando um giro de 180º, aqui, uma dica: notei que nesta parte 2, você usou o nome 'sucrilhos' num dos primeiros parágrafos do texto. Só queria dizer que não pega muito bem nome de marcas ou empresas na história, então é melhor deixar como cereal ao invés de sucrilhos, e em outro exemplo achocolatado ao invés de nescau.

      Excluir
    3. Essa personagem é como se fosse a mãe da Wiki cara, a primeira bitch das minhas histórias, a primeira Rainha dos Boobs, a primeira tudo! Eu PRECISO caprichar kkkkkkkk

      Cara, outro dia eu peguei o livro justamente para tirar essas coisinhas, toda vez eu escrevo toddyinho ou faço referências diversas à cultura pop, mas sucrilhos foi acidente kk Culpa dessas marcas que se tornam tão fortes que praticamente viram o produto, que nem cotonete e gillete! A princípio, isso só acontece aqui no blog justamente porque é algo que não vai ser publicado nem nada, então posso fazer brincadeiras mais informais e até tocar em assuntos que não seriam adequados para todos os públicos. Mas o livro estará bem mais polido, vou me certificar de não mencionar nada por lá kk Obrigado pelo toque!

      Excluir
    4. Kkkkk, cara, coitada da Wiki e da Lydia, não chama elas de bitch, elas só são liberais, fazem uns servicinhos aqui, outros ali... Nada demais saca? Mas The Queens of the Boobs elas são, de certo.

      "I don't can make it anymore!" say the tired man.

      "You are so excited 22 times ago, you need to continue! Get up man, it's simple 33 times more!" Wiki says, like it are a normal thing.

      (Desculpa meu inglês meio bosta tá? É que eu queria fazer uma piada e decidi que se deixasse em português ia ficar meio... Acho que tu entendeu.)

      Mas pois bem, por nada pelo toque! Eu tinha ficado meio receoso de falar, mas pelo visto não tinha de ter receio.

      Excluir
    5. Ah, essas duas num mesmo quarto não iria prestar ( ͡° ͜ʖ ͡°) Em português fica muito erótico, mas assim deu para sacar kkkkkkkk

      Eu que agradeço pelo toque, a melhor parte do blog é justamente poder receber esse feedback dos leitores e poder arrumar qualquer coisa a hora que eu quiser. Essa dúvida de citar nomes de marcas já é bem antiga, faço parte de alguns grupos no facebook que dizem que não há problema, mas eu prefiro evitar até porque Sellure é um universo de fantasia e quem garante que eles também terão toddynho kkkk

      No livro eu separei alguns trechos especiais, são 17 easter eggs do Aventuras em Sinnoh. É coisa pequena, mas acho que você assim como meia dúzia de antigos leitores vão se divertir procurando cada um :v

      Excluir

Menu Principal






Menu Secundário






Companheiros de Aventura

Estatísticas


POSTAGENS
COMENTÁRIOS

Guardiões da Ordem (Parceiros do Mês ♫)

PARCEIROS

Toda Clássica Animes Aki

Tecnologia do Blogger.

Comentários Recentes