sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O Passado dos Personagens - Ralph (Parte 3)


Ralph começou a frequentar aulas de reforço no período da tarde porque seu avanço em algumas matérias era mais lento que o de seus colegas. Na área de leitura e interpretação de texto, seu desempenho continuava fraco, mas nem de perto se comparava a matemática. Ralph nunca tinha feito cálculos ou contas antes, geckos não eram muito bons com números (ele teria uma agradável surpresa quando descobrisse a física e química).
Sentia-se um estranho por ser o único a ficar na sala após o meio dia. Todos tiravam um tempo para o almoço e depois saíam para brincar, alguns voltavam com suas famílias para casa, mas Ralph permanecia na sala de aula debaixo de sol ou de chuva, preso junto a Srta. Clover por três horas até que ambos enjoassem da cara um do outro.
Era um dia muito quente de verão em meados de Junho. Clover passara uma tarefa sobre História contando um pouco sobre a origem de Sellure e os antigos heróis de guerra, um assunto que Ralph adorava, mas por algum motivo ele estava ainda mais desatento naquele dia.
Impaciente, Clover fechou o livro e chamou sua atenção.
— O que há de tão interessante lá fora? — perguntou a professora. — Duvido que a grama seja mais interessante do que eu, ou talvez o som da brisa seja mais acolhedor do que minha voz. Você está me ouvindo?
Ralph costumava rir daquele tipo de ocasião, mas permaneceu em silêncio soltando um longo suspiro na sequência.
— Professora, me desculpe por fazer você passar por isso...
Clover olhou para o relógio sobre a lousa e percebeu que já havia passado das três e meia. Eles nem haviam chegado a discutir a Guerra dos Heróis e Ralph não fizera avanço nenhum.
— Por que está dizendo isso, querido?
— Eu sei que eu dou trabalho. Sei mesmo. Você poderia estar descansando na sua casa, mas tem que ficar até tarde tomando conta de mim. Me desculpe por isso.
Clover foi tomada por uma onda compaixão e pena da criança. Ele vinha se esforçando muito, mas simplesmente não conseguia acompanhar os demais. A mulher puxou uma cadeira e sentou-se ao seu lado enquanto abanava o rosto com um caderno fino.
— Querido, eu escolhi essa profissão porque ensinar é a minha maior paixão. Não pense que estou aqui por obrigação, porque nem sou remunerada para isso, mas ensinar é a minha vida! Já não tenho mais idade para sair e me aventurar pelo mundo, mas faço questão de passar adiante o aprendizado que adquiri para que vocês tenham essa oportunidade.
— Mas e se eu crescer e me tornar um adulto ruim?
De pequenos filhotes, as criaturas com asas se tornam pássaros. É o destino, então não tenha medo de crescer. Você precisa crescer bem para ser um adulto bom, uma pessoa que sabe qual é sua verdadeira identidade, superando medos e ultrapassando obstáculos em cada etapa de sua vida.
Clover fechou o grosso livro de história e trouxe então um livro menor, mais casual, onde era escrita a mesma história dos primeiros heróis do mundo e suas façanhas de uma maneira fantasiosa que inspirava gerações mesmo 100 anos depois. Ela começou a ler em voz alta, cativando a atenção do menino que enxergou aquela tarde não apenas como um atraso seu, mas como a oportunidade de estar com quem gosta, feliz, e aprender sempre mais.

Durante as férias de julho, a New Times era vazia e sem cor. Dos professores e funcionários que moravam na escola, apenas dois ou três permaneciam nos arredores, em partes para cuidar dos alunos restantes e em outros casos porque simplesmente não tinham aonde ir. Aquelas seriam as primeiras férias de verão que Ralph passaria com seus amigos, mas Claus e Rebecca voltaram para sua casa sob ordem de sua mãe. Bomba foi viajar na praia com os pais e Dello também passou seus dias vagos ao lado da família em Constantia. Nunca sabia quando seria a última vez que o veria.
Os planos do menino foram se desfazendo, de forma que as férias de verão em uma cidade perigosa e desconhecida já não lhe parecessem tão interessante.
Bem, pelo menos ainda posso explorar os lugares secretos da cidade, como uma aventura, Ralph pensou, já de malas prontas para aventurar-se além das paredes de New Times.
O garoto estava de passagem pelo portão quando sentiu seus pés mais pesados. Ao olhar para o chão, viu que as raízes das árvores o impediam de continuar. A própria grama balançava frenética, os caules das plantas se amarravam em torno de seus tornozelos. Quando pensou em livrar-se dele, ouviu alguém chama-lo lá de cima:
— Aonde pensa que está indo, mocinho?
Era a Srta. Clover. Seus cotovelos estavam apoiados sobre o encosto da janela aberta que deveria ser de seu quarto. Ela estava com os longos cabelos soltos e sem os óculos, o que fez com que o garoto quase não a reconhecesse.
— Vou andar por aí — falou Ralph.
— Com que permissão? Os alunos que ficam na escola são totalmente de nossa responsabilidade. E, levando em conta que não há mais ninguém aqui, eu me torno a responsável por você mais do que nunca — ela falou tomando um gole de sua xícara de chá.
— É que todos meus amigos foram embora, Srta. Clover...
Por um breve instante ele sentiu-se sozinho e abandonado. Lembranças de um tempo que desejava esquecer. O verão em Helvetica era muito quente, mas ocasionalmente tinha pancadas de chuvas vindas de Myriad, Clover entendia bem o tempo e preferia que o garoto ficasse dentro da escola, em segurança. O difícil seria mantê-lo ali.
— Venha. Suba aqui. Não se preocupe, não vou passar nenhuma prova surpresa — disse Clover antes de fechar a janela. — A menos que você não se comporte direitinho.
Ralph sentiu as plantas e raízes soltarem seus membros. Ele voltou para a escola e seguiu pela escadaria que dava no corredor dos professores onde só passara uma ou duas vezes, Claus é quem vivia por ali de tantas advertências que recebia.
Ele não sabia direito onde Clover morava, mas pôde vê-la de longe vestindo calças jeans e uma camisa informal. Clover sorriu ao vê-lo e indicou com a cabeça para ele entrar.
Ralph aproximou-se encabulado, atento à mobília de sua casa. Era um lugar pequeno, porém agradável e aconchegante. Haviam três quartos, sendo um deles uma suíte; o outro era utilizado como escritório, já a terceira porta estava fechada. A cozinha era marcada por um enorme caldeirão no centro, Ralph lembrou-se do mesmo instante das histórias que ouvira dos outros alunos sobre sua professora ser uma espécie de bruxa.
— Se quiser saber, eu não cozinho crianças ali dentro — Clover riu, sentando-se em uma poltrona de espreguiçar muito aconchegante. — Eu preciso do caldeirão para confeccionar selos, mas admito que a presença dele já espantou muitos caras que tentei conhecer.
Claus e os demais iriam adorar ouvir aquela história. Clover parecia ser uma mulher muito solitária. Um radinho de canto estava ligado em uma rádio que tocava músicas antigas, as paredes eram repletas de estantes suspensas com livros de todos os tipos e matéria, principalmente acadêmicos. Em dias frios ela ligava a fogueira sem grandes dificuldades utilizando um selo de fogo, era o local perfeito para acomodar-se no sofá, ler um bom livro e simplesmente esquecer-se de todos os problemas do mundo.
— Você já almoçou hoje? — perguntou Clover.
Ralph fez que não com a cabeça. Só comera uma maçã antes de sair, mas estava sem fome.
Quando sua professora levantou-se e começou a cozinhar, ele descobriu que ela tinha mais habilidades extraordinárias além das mostradas na aula. Clover era uma mestra na cozinha, e não era fruto de magia. O cheiro estava delicioso e já lhe dava água na boca, não fazia ideia do que era. Ralph precisou amargurar por uma longa hora e meia até que Clover saísse de lá trazendo uma forma com lasanha à bolonhesa recheada de queijo.
— Coma à vontade. Me deleita ver que você tem tanto apetite. Gosto de cozinhar algo diferente quando recebo visitas, porque às vezes até eu me enjoo da minha comida — disse a professora.
— Isso está delicioso! É a melhor coisa que eu já me comi, isso que nem sei o que é — respondeu Ralph.
Clover preparou um terceiro prato, mesmo aparentemente não havendo ninguém mais na casa.
— Quer conhecer uma bruxa de verdade? — a mulher fez um mistério proposital.
Ralph a acompanhou e Clover o levou até a terceira porta que estava sempre fechada. Ao abri-la, ali estava uma velha senhora sentada numa cadeira de balanço numa sala de madeira com cama, mesa e um lindo carpete vermelho. Aquela era a mulher humana mais velha que ele já vira, agora entendia porque Clover ficava tão brava quando a chamavam de senhora. Devia imaginar-se no lugar de sua avó com mais de cem anos.
— Oi, vovó. Eu trouxe visita — disse Clover, agachando para conversar com ela enquanto segurava a sua mão.
— Oh, Trevor, você voltou — disse a velhinha, o que causou certo desconforto em Clover.
— O nome dele não é Trevor, vovó... Ele é o Ralph.
— Que menino bonito você é, Trevor. Muito bonito.
Clover respirou fundo, mas não a contrariou mais. Ela deixou o pedaço de lasanha na sala e depois saiu.
— Desculpe perguntar, mas quem é Trevor? — perguntou Ralph.
— É um amigo antigo de quando eu era criança — Clover respondeu de forma breve e logo emendou o assunto. — Querido, você já tomou milk-shake? Vou fazer um de morango delicioso para nós dois!
Ralph passou a tarde inteira na casa de Clover. Em momento algum eles conversaram sobre matérias escolares, sua professora também evitou dar os puxões de orelha costumeiros. Sua avó não estava muito sã, para ela qualquer pessoa que entrasse naquela casa era Trevor, fosse homem ou mulher. Clover lhe contou que no passado sua avó realmente fora uma feiticeira muito poderosa, daquelas que lançam e retiram feitiços. Ela havia completado 96 anos e participara de muitas guerras, sobrevivendo para compartilhar sua experiência. A mãe de Clover falecera muito jovem, deixando que sua filha cuidasse e cozinhasse para sua avó com muita dedicação.
Obrigada por hoje, Ralph. Quero que saiba como estou feliz de ter alguém aqui. Há tantas histórias que eu gostaria de compartilhar! — disse Clover, por um instante agindo como uma garotinha que recebe uma visita apaixonada em sua casa.
Ela passava as férias de verão inteira sozinhas naquela casa. Às vezes saía com os professores — na realidade já saíra com todos eles, até com as mulheres — mas nunca encontrou seu par perfeito. Ralph não entendia por que uma mulher amável e inteligente como ela ainda estava solteira, achava aquilo uma tremenda injustiça. Se fosse trinta anos mais velhos, ele a pediria em casamento sem a menor das dúvidas.
— Desde quando você quis ser professora?
— Eu sempre quis, na verdade. Deixei para trás muitas oportunidades, mas escolhi um caminho pelo qual valesse a pena percorrer. Quando eu era mais nova, tive a impressão de que não me esforcei o bastante para ser alguém importante, de que eu me arrependeria amargamente dessa decisão quando ficasse mais velha — disse Clover. — Mas para ser sincera estou muito satisfeita com minha atual situação. Não tenho que me preocupar em cozinhar para um marido velho, barrigudo e preguiçoso que não troca as lâmpadas queimadas. Também não tenho filhos, então tenho mais tempo para cuidar de mim mesma.
— Você queria ter?
— Filhos? Que Sayra me livre, já ganhei uma porção deles! Cuidar de trinta crianças só no período da manhã não é para qualquer um.
— Você já gostou de alguém, professora? Gostar de verdade.
Clover ficou em silêncio, remexendo seu copo vazio enquanto era levada em uma viagem no tempo. Ela parecia abalada sempre que tocavam naquele assunto, por isso o evitava.
— Todos nós amamos em algum ponto de nossa vida, querido — disse Clover com a voz carregada de lembranças.  Agora, vou precisar da sua opinião. Estou pensando em cortar o cabelo bem curto, acha que vai ficar bonito?
          — Acho que você é bonita de qualquer forma!
Por ser uma professora da ala infantil, Clover se cansava com facilidade e dormia cedo para recuperar o sono de longas horas acordada corrigindo provas e preparando o material da próxima semana. Sua casa era sempre cheia de papéis, às vezes ela voltava da aula com tinta e glitter por todo o corpo, mas se orgulhava de cada dia concluído com sucesso.
— Vou tomar um banho, querido, mas fique à vontade para andar pela casa — disse Clover, dando-lhe uma piscadela. — Tem mais milk-shake na geladeira. Pode tomar tudo.
Ralph foi direto para a geladeira encher o seu copo e Clover se retirou para seu aposento. O garoto ficou na sala observando os títulos dos livros nas estantes, mas sem pegar nenhum. Achava-os lindos enfileirados um ao lado do outro, mas preferia que alguém lesse para ele. Seu campo de visão foi disperso no instante em que ele avistou um porta retrato encostado a um abajur no armário. A imagem era de duas crianças, um menino e uma menina. A garota deveria ser Clover, porque era ruiva e tinha os cabelos bem curtinhos. Ela parecia muito travessa porque estava sorrindo e lhe faltava um dente, ao seu lado estava um garoto todo engomadinho e com cabelo penteado, mas ele não soube dizer quem era.
Clover saiu do banho e uma cortina de fumaça se dissipou no banheiro. Ela vestia uma camisola laranja e estava com os cabelos molhados; não vestia sutiã e também não usava maquiagem alguma. Ela parecia real ali, quase humana, como qualquer outra mulher. Cheia de seus segredos e mistérios.
— Ah... Eu deveria ter tirado esse quadro daí faz muito tempo — disse Clover ao perceber que Ralph fitava sua fotografia. — Acho que não vou mais conseguir esconder essa história de você.
— Esta é você quando criança? Mudou bastante.
— Espero que tenha sido para melhor. Veja, eu tinha dentões, nariz torto e era reta feita uma tábua. Ainda não sei como alguém conseguiu se apaixonar de mim. Pelo menos a idade retribui algumas mulheres, só espero que a gravidade demore para tomar efeito — disse Clover com uma risada graciosa, aproximando-se do quadro para segurá-lo. Ela o fazia como se fosse algo perigoso, que tentasse evitar, mas nunca conseguia. — Este é Trevor que a vovó tanto fala. Ele foi meu primeiro namoradinho.
Ralph não soube bem como respondê-la, mas Clover poupou-lhe daquele constrangimento.
— Nunca mais encontrei alguém que me completasse. Talvez eu esteja mesmo fadada a ser uma velha senhora.
— Mas seria uma injustiça você não ter ninguém para provar sua comida!
Ralph aproximou-se dela e a abraçou com carinho. Clover ruborizou tanto que esqueceu-se completamente do que estava para dizer.
— Eu te adoro, professora. Obrigado por tomar conta de mim e meus amigos.
A mulher riu e acariciou a cabeça do garoto de maneira amável. Ralph não se lembrava de sua mãe humana, mas achava que Clover era o mais próximo de como uma deveria ser. Humanos e geckos agiam de maneiras diferentes e demonstravam afeto de formas completamente apostas, mas ele amava os dois lados com a mesma intensidade.
— Fico aliviada por ter alunos tão especiais que nunca me deixam para baixo. Eu não trocaria essa vida por nada.


i

As férias de verão passaram como num sopro. Logo New Times estava cheia de novo, Ralph passara tanto tempo longe de seu dormitório que já começara a sentir saudade dele. Durante o dia, deliciava-se com os pratos apetitosos da Srta. Clover que nunca antes havia provado igual, aprendeu também a fabricar selos em segredo e voltou para casa com um selo de torta de morango para comer quando quisesse.
O fim do ano se aproximava e logo a temperatura diminuía. O frio constante de Perpetua se alastrava pela região e a temperatura beirava os cinco graus de madrugada, todos se vestiam e se agasalhavam muito bem. Clover concentrou-se na geografia de Sellure e ensinou cada detalhe sobre as oito províncias do reino, desde o clima tropical em Myriad até as misteriosas neblinas que se formavam no norte, em Bodoni.
Era uma sexta-feira à noite quando os meninos voltavam para o dormitório para se divertirem com jogo de tabuleiro que os pais de Bomba lhe deram. Claus percebeu que havia certo movimento próximo à cozinha, por isso decidiram investigar. Ao se dirigirem para o local, encontraram diversos selos misteriosamente colados nas paredes.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou Dello, prestes a tocar o selo quando Ralph subitamente o puxou e o impediu de cometer um grave erro. Nos últimos dias com Clover aprendera muito bem a identificar e entender como aquele tipo de magia funcionava.
— É melhor tomar cuidado! Se tocarmos num selo, ele pode imediatamente ser ativado. Precisamos primeiro identificar do que se trata.
— E o que seria esse símbolo, uma poça d’água? Pela quantidade de selos nas paredes, parece até que estão se preparando uma inundação — falou Bomba.
— O símbolo de água é diferente, cara, é uma gota... — concluiu Claus. — Isso aqui parece tinta.
O som de passos foi ouvido no corredor de forma que os jovens imediatamente se escondessem entre o balcão e a dispensa de mantimentos. Nefele estava ali com as outras veteranas, elas usavam selos de luz como lanternas para se locomoverem no escuro em silêncio e pareciam planejar algo.
— Cara, se envolver com essas meninas é furada, vamos dar o fora logo daqui! — alertou Bomba.
— O que elas estão fazendo? Isso me cheira a trote, e olha que sou um veterano nisso também — falou Claus.
A conversa cessou no instante em que a porta da dispensa foi aberta e uma luz cegou seus olhos por um breve instante. Nefele ouvira os murmúrios e estava certa em suspeitar que estava sendo vigiada. Não poderia haver cúmplices nem denúncias de seus atos.
— Vejam só o que temos aqui, meninas — disse Nefele num ar autoritário. Ela ainda nem havia começado a jogar pra valer, mas já ganhara o prêmio final.
— Esses não são os alunos da Srta. Clover? — perguntou outra garota. — Céus, eu odiava aquela mulher.
Ralph sentiu uma pulsação de raiva quando a ouviu falar daquela maneira de sua professora. Nefele puxou-os com força para fora, planejando o que fazer com os quatro pequenos invasores.
— Estamos planejando algo grande aqui e não pode haver interferência — alertou-lhes Nefele.
— Que isso, Neffie... A gente já tava de saída, né não, galera? — murmurou Dello, assustado.
— O que exatamente vocês estão planejando fazer aqui? — Claus se intrometeu.
— A maior festa que New Times já viu! — respondeu Nefele. — Estamos a um mês preparando selos em segredo, tivemos aulas com sua professora e ela nos ensinou alguns esquemas. Nós produzimos selos de tinta, confete, arroz e até fogos de artifício. Fala sério, não se acha um desses com tanta facilidade!
— Agora vamos passar a madrugada camuflando-os nas paredes do refeitório inteiro para que amanhã bem cedo quando todos ainda estiverem acordando sejam pegos pela surpresa preparada por nós, as melhores alunas dessa escola! Haverá tinta por toda parte! — disse uma menina loira. — Vamos nos formar agora no fim do ano e depois seremos encaminhadas para as academias de treinamento. Temos que aproveitar ao máximo para deixar nossa marca aqui antes que seja tarde.
— Isso é tão idiota — disse Claus entre os dentes. — Sério que cinco garotas como vocês só conseguiram pensar em um plano infantil feito esse? Eu bolava algo melhor e muito mais épico em três dias.
— Quem você pensa que é para falar assim conosco, moleque?
Nefele aproximou-se de Claus e puxou seu braço, arrancando uma das luvas do garoto por acidente. Ela soltou um grito tão alto que todos se assustaram, suas amigas ficaram paralisadas com o que viram. Claus tinha apenas quatro dedos, eram esguios e tortos como os de um lagarto, com unhas pontiagudas e escamas. Claus cerrou o punho e tentou escondê-la por baixo da camisa, mas todos já haviam visto o que ele escondia, mesmo no escuro.
O som de passos apressados se aproximando eram ouvidos da sala dos professores. Não seria nada adequado para as veteranas serem retidas em seu último mês na escola, nem dava para imaginar o problema que isso causaria além dos atrasos que eram terrivelmente mal vistos por familiares.
— M-me perdoe — Neffie gaguejou ainda incrédula com o que vira. — Eu não imaginava que...
— Só vai embora! — respondeu Claus com preocupação. Ele tentava não ser rude, mas queria desesperadamente sumir dali e não pretendia sacanear com a vida de ninguém.
Nefele e suas amigas desapareceram pelos fundos no instante em que três professores chegaram, o professor de matemática estava sem camisa e Clover estava vestida com um pijama de flanela, pantufas e bobes na cabeça ruivo para deixar seus cabelos cacheados. Teria sido uma cena cômica se todos não parecessem tão preocupados e eufóricos.
— O que os senhores pensam que estão fazendo na cozinha? — perguntou o professor sarado. Agora Ralph entendia por que Rebecca e todas as alunas da sala iam bem na matéria dele.
— Estávamos só... querendo fazer um lanchinho em segredo — respondeu Ralph, o pior mentiroso da história.
— É. O Bomba é gordo, aí ele precisa comer toda hora — continuou Dello.
— Pode crer. Acha que é fácil manter esse corpinho de sereia? — Bomba acariciou sua barriga.
Clover não se distraiu com a conversa fiada das crianças. Atentou-se a Claus que estava com um semblante péssimo, mais silencioso que o de costume e com a mão pressionada contra o peito. Ela imediatamente compreendeu o que estava acontecendo, por isso logo dispensou os outros dois professores.
— São meus alunos. Deixe que eu cuido deles.
Clover convidou os quatro para a sua casa no andar de cima. Clover pediu um breve instante para retirar os bobes da cabeça e estar um pouco mais apresentável, vestiu apenas um roupão por cima do pijama e foi logo para a cozinha preparar quatro xícaras com chocolate quente. Ela acendeu a lareira porque fazia frio e sentou-se em sua poltrona grande e macia, pedindo que os três ficassem de pé em sua frente e começassem a explicação.
— Podem começar — ela falou como se começasse um interrogatório, mas ninguém queria denunciar o culpado ou entregar tudo que acontecera, nem mesmo Ralph. — Eu sei que vocês não estão envolvidos nessa história. Quem foi?
— Ninguém, senhora — respondeu Ralph. — Foi só um acidente.
Cover tentou sorrir. Admirava o fato deles não quererem entregar os culpados, embora já tivesse suspeitas.
— Uma porção de selos mágicos presos nas paredes e eu sequer ensinei essa matéria para a turma de vocês. Com exceção de Ralph, não acredito que alguém aqui seja capaz de confeccionar algo. Mas não entraremos em detalhes, o importante é que impedimos um belo susto. A equipe de faxina os agradecerá de coração.
Os garotos continuavam quietos. Talvez o chocolate quente estivesse bom demais, ou algo ainda os impedia de falar.
— Vejo que vocês descobriram o segredo de seu amigo Claus — comentou Clover.
Ralph não parecia ser o único surpreso com o que viu. Bomba e Dello também não faziam ideia, Claus era muito bom em guardar segredos mesmo dos mais próximos.
— Quer contar para eles a sua história, querido?
As quatro crianças se ajeitaram no carpete. Claus estava de pernas cruzadas e ainda meio receoso, mas tirou suas duas luvas e revelou que no lugar delas realmente tinha braços e mãos de lagartos, exatamente como os de um gecko.
— Minha mãe é uma mulher humana e o meu pai é um gecko. Foi por causa dessa relação que eu e minha irmã surgirmos — ele olhava para as próprias mãos com nojo de si. — Essas... aberrações. É terrível a forma como eu e minha irmã fomos punidos por decisões idiotas que nem tivemos a oportunidade de escolher.
— Isso quer dizer que a Rebecca também é assim? — perguntou Dello.
Claus acenou com a cabeça.
— Minha irmã tem pernas e um rabo de lagarto, por isso ela os esconde por baixo da saia e da capa. Ela sempre se viu como um monstro, por isso tem vergonha de garotas e até mesmo de suas amigas mais próximas. Ninguém pode descobrir o segredo dela. A Rebecca gosta de desenhar bichos estranhos no seu caderno, porque dessa forma ela se sente parte desse mundo também — contou-lhes Claus. — Mas, por favor, não contem que vocês sabem ou ela morreria de vergonha... É por isso que eu odeio geckos, eu odeio meus pais, foi graças a eles que eu nasci assim.
Ele fez uma pausa e respirou fundo após colocar todas aquelas confissões para fora.
— Eu só queria ser um garoto normal, nem que seja uma vez na vida...
Ralph segurou sua mão como na vez do refeitório, mas ao inverso. A vida toda o garoto sentira a textura de escamas por conta de seus pais adotivas, sempre fora tocado por mãos como aquelas e não via nada de errado naquilo.
— Você é o cara mais maneiro que eu conheço, Claus Tudo bem que não conheço muitos humanos, mas continua sendo o melhor, porque você é único. Que nem eu. Todos nós temos algo especial, eu sabia que iria encontrar.
— É, cara! Tipo, não é porque você tem garras que nem um lobisomem que a gente vai parar de gostar de você — respondeu Dello, recebendo um cutucão do amigo. — Quero dizer, agora fica até mais divertido porque você também vai poder ter um apelido, tipo Claws, sabe? Agora sim nosso grupo vai estar completo.
— Vocês são os caras mais idiotas que eu conheço — Claus limpou uma lágrima discreta que rolou por seu rosto. — Mas são os melhores idiotas do mundo.
— Venham cá, está na hora de um abraço em conjunto — disse Clover, chamando as quatro crianças. — O que estão esperando? Vocês ainda são jovens, não precisam ter vergonha de abraçar, é melhor fazerem isso antes que fiquem velhos e chatos como eu, e aí sintam falta de todas as pessoas que deixaram de abraçar algum dia.
Ralph foi o primeiro a levantar. Logo Bomba e Dello fizeram o mesmo, seguidos por Claus que estava meio receoso de tocar em seus amigos agora que eles sabiam de seu segredo, mas sua professora fez questão de segurá-lo e demonstrar que não havia nenhum problema com ele.
— Vocês são o meu maior tesouro, sabiam disso? Lembrem-se que existem muitas pessoas percorrendo caminhos diferentes atrás de seus sonhos, não importa o quão tolo ou sem esperança isso parecer, nós só precisamos de algumas palavras que nos façam continuar seguindo. Quero que continuem unidos nesses longos anos aqui em New Times, um deverá cuidar do outro, ouviram bem? Vocês podem confiar em mim para qualquer coisa. Eu sou sua professora e vou cuidar de vocês.

Dizem que os tempos de escola passam depressa, e somente anos após o término é que sentimos a saudade.
Nos cinco anos que se passaram em New Times, Ralph ganhou e perdeu algumas amizades.
Nefele, sua vizinha no Vale do Vento, nunca conseguiu agradecê-lo por não dedurá-la aquele dia. Sentia-se extremamente envergonhada pelo que fez e prometeu ser uma pessoa melhor quando entrasse na academia, onde usaria o dinheiro adquirido para ajudar sua mãe no vilarejo.
Bomba acabou deixando seus estudos mais cedo. Seus pais acharam que ele já havia aprendido muito em New Times — ele havia perdido quase quinze quilos após fazer um regime com plantas passado pela Srta. Clover, mas seus pais acharam que ele não estava sendo bem tratado e não havia comida o suficiente. Seus amigos estavam tristes porque não podiam mais fazer piadas de gordo com ele, apesar de Bomba continuar sendo o mais engraçado do grupo.
Dello voltou para sua casa quando soube que seu pai morreu na guerra. Ninguém mais ouviu falar dele, mas Clover recebeu notícias de que ele se tornou um soldado capacitado e muito bem treinado.
Claus e Rebecca também retornaram para a casa de sua mãe, dona de uma enorme fortuna na região. Ela prometeu pagar tratamentos para eles para que se recuperassem de seus “terríveis defeitos”.
No final de sua aventura no fundamental, Ralph viu-se sozinho mais uma vez. Ao menos ele ainda tinha sua doce e adorada professora, Clover foi como uma mãe para ele. Quando Ralph não tinha mais companhia no dormitório, convidava-o para ficar até tarde em sua biblioteca particular, onde poderia ler e ouvir algumas histórias contadas por sua avó. Clover não seria capaz de curá-la de sua dislexia, o garoto continuava disperso na hora de escrever e passou com a nota mínima em algumas matérias, mas só o fato de vê-lo crescer saudável e feliz era sua recompensa como professora.
Quando finalmente completou 15 anos, estava na hora de partir. Ralph seria encaminhado para a Vila das Pérolas onde começaria os testes para o exército, de todos os inscritos era quem estava mais ansioso e preparado para começar. Não porque tivera um ensino aprimorado ou atrasado, mas porque se dedicara muito mais do que qualquer outro. E porque amava o que fazia, amava as pessoas, amava a ideia de apegar-se tanto a algo que daria sempre o seu melhor.
— O mundo o aguarda, meu querido — foram as últimas palavras de sua professora.
— Um dia vou voltar para busca-la e você será parte do meu time, está bem? Nós vamos mudar o mundo juntos — disse Ralph, que guardou aquela amizade em seu coração sob sete chaves.
Em sua despedida, a Srta. Clover fez questão de leva-lo até a estação de trem que iria partir às 13h. Ela acenava com o coração partido de uma mãe que tem de deixar o filho partir. Ralph passou seus últimos dias em New Times inteiramente dedicados a ela, despediu-se com um beijo na bochecha e disse o quanto sentiria sua falta.
Finalmente acomodou-se em seu assento e colocou a espada de madeira do outro lado. Lignum fora muito importante em seu amadurecimento e seu crescimento como pessoa, agora mais do que nunca compreendia como ela era especial.
O trem liberou fumaça assim que começou a deslizar pelos trilhos, deixando para trás lembranças, aprendizados e experiência. Em breve estaria realizando seu grande sonho de tornar-se um famoso guerreiro, começaria sua própria história, diferente de todas as outras que ouvira nos livros ou estudara nas matérias escolares.
Uma história para chamar de sua.

  3 comentários:

  1. Só digo uma coisa... Raças Híbridas são as melhores! kk
    Eu tenho uma grande ''pancada'' por híbridos... Eu sempre adorei híbridos!


    Como eu já disse num comentário algures por aqui, é um tema muito interessante de explorar e um pouco raro de se encontrar em historias de fantasia, é algo considerado diferente e que pode ser encarado de diversas maneiras.

    Os Híbridos tanto podem sair de aparência linda e perfeita, ou então realmente mutantes e feios, cheios de defeitos terríveis ao longo do corpo...
    Mas o melhor de tudo está nos próprios pais, eles lutaram contra o preconceito da sociedade? Ou simplesmente foi um ''acidente''? Um relacionamento de lutar por amor puro ou uma violação?
    E a situação das crianças híbridas? São rejeitadas e sofrem? São mortas? Presas e usadas para experiências? (É algo que pode varias dependendo da Raça dominante e da comunidade onde o Híbrido se encontra)
    No caso de Rebecca e Claus, eles próprios odeiam a sua vida, possivelmente excluídos por muitas pessoas que sabem sobre a situação deles. O meu palpite é que as suas historias futuras vão ter relação com a busca da verdadeira identidade, aceitar quem nós próprios somos.

    Pode também existir a situação em que a criança não se formou devidamente no útero da mãe e esta acabou com um ''aborto''. Ou então a criança nasceu quase morta e muito fraca e doente, com uma saúde frágil.
    Por outro lado os Híbridos podem ganhar força e habilidades de duas raças ao mesmo tempo, se tornando então guerreiros mais únicos e muito mais fortes naturalmente em comparação com os indivíduos das raças originais, assim podem ser considerados superiores em suas capacidades, ou então guerreiros muito perigosos.

    Como vê, a situação dos Híbridos pode formar temas muito vastos, personagens lindas e historias mais únicas, é uma questão de pensar bem nas possibilidades que tal situação pode gerar.



    Eu adoro trabalhar com as raças Híbridas, por isso vou terminar este comentário com algo estúpido que poucos vão entender mas tem relação com os Híbridos, suas liberdades, direitos e principalmente abortos.

    Viva a Rainha Branca!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Shii. É possível trabalhar algumas ideias bem legais envolvendo híbridos mesmo, geralmente eles são cheios de rancor por terem nascido dessa forma, mas também há o lado que deixa uma mensagem para os leitores refletirem.

      Eu pretendia explorar o Claus e a Rebecca somente no livro 2, mas encontrei uma brecha de falar um pouco mais sobre eles nesses capítulos especiais do blog. É legal falar sobre esses temas mais complexos, você pensa na relação proibida, na forma como o munda receberá essas crianças. São muitos pontos legais a serem trabalhados. Pelo forma como você falou, imagino que também tenha híbridos em Dreamian. Boa sorte com eles :)

      Excluir

Menu Principal






Menu Secundário






Companheiros de Aventura

Estatísticas


POSTAGENS
COMENTÁRIOS

Guardiões da Ordem (Parceiros do Mês ♫)

PARCEIROS

Toda Clássica Animes Aki

Tecnologia do Blogger.

Comentários Recentes