domingo, 18 de junho de 2017

O Acampamento de Verão [Support]

Support Conversation (Ralph e Companhia)
Gênero: Comédia;
Tema: Acampamento de verão, sorvete, batatas,
momentos fofos, discussão de bolacha e biscoito;
Sugestão da leitora: Shiny Reshiram.


— Você tem certeza de que estamos seguindo pelo caminho certo? — perguntou Lee.
— E tu ainda duvida de minhas capacidades perceptivas como caçador e exímio explorador de zonas remotas? — respondeu Lesten, guiando seus amigos cada vez mais a fundo na mata. — Só precisamos continuar nesse percurso por cerca de... umas três horas e meia, logo chegaremos lá.
Auria estava começando a cansar-se de tanto andar, mas prometera que passaria um fim de semana inteiro sem reclamar pelo bem maior. Deixar Lesten na liderança nunca era uma boa ideia.
— Acho que deveríamos voltar — falou a mulher.
— Como vocês enchem o saco! — resmungou o lagarto. — Eu estava brincando quando disse que iríamos demorar, é só subir essa ribanceira. Apreciem com moderação.
Eles não estavam muito longe da casa em Pequena Colina, mas ninguém havia explorado além dos limites entre as montanhas. Não importava o quanto pensassem que conheciam aquela região, sempre existia algum segredo inédito a ser descoberto nos confins mais misteriosos de Sellure.
 A visão dos oceanos de Myriad era deslumbrante, havia uma nascente que percorria seu caminho direto em uma cascata que desaguava no riacho local, oferecendo vida à natureza e às criaturas da região. A clareira isolada no meio da floresta era onde Lesten planejara ficar. Ninguém viu sinal algum de monstros nas redondezas, as árvores ofereciam boa proteção e um local agradável para dormir enquanto apreciavam as estrelas ao anoitecer.
Ralph parou na beirada de uma pedra elevada que dava visão para toda a ilha e levou as mãos à cintura.
— Uau. Só isso já fez valer a caminhada — disse o garoto, agradecido pela oportunidade de poder presenciar aquela paisagem junto de seus amigos.
— Bom trabalho, lagartixa — comentou Auria, dando um tapão nas costas de Lesten.
— Eu disse que sou um exímio explorador. Já vasculhei cada canto dessa ilha e cada hora encontro alguma coisa nova, parece que ela está sempre se modificando. Trata-se de um prato cheio para aventureiros experientes como eu.
— O que estamos esperando? — Ralph continuou. — Vamos montar as barracas e começar a nos divertir?
Os jovens aproveitaram a luz do dia para instalarem devidamente suas barracas. Apesar de todos já estarem acostumados a dormirem ao relento, a ideia de um acampamento de verão era completamente nova. Frequentemente suas longas viagens por Sellure eram ocasionadas por um objetivo maior ou um senso de urgência, mas dessa vez eles estavam ali simplesmente para aproveitarem e terem um tempo compartilhando bons momentos e criando novas memórias.
— Essa caminhada toda me deu uma fome — falou Auria, sentando-se de pernas cruzadas. — O que vocês preparam para comer?
— Eu e o Lee ficamos fazendo sorvetes a noite inteira! — disse Hayley, vasculhando sua bolsa e mostrando os mais de quinze sabores diferentes que eles haviam feito. — Chocolate, morango, uva, leite condensado, flocos, baunilha, napolitano, besouro, carne... tem um montão deles, podem escolher o que quiserem!
— Eu sempre quis provar um de besouro — falou Ralph, pegando o picolé que tinha a coloração esverdeada mais suspeita. — Será que tenho chances de encontrar um premiado?
— Eu peguei um que tinha uma patinha inteira! — respondeu Lesten, enfiando o sorvete inteiro na boca.
— Vocês têm uns gostos tão convencionais — disse Auria com uma risada, apoiando as costas sobre uma árvore. — Acho que vou ficar com um de uva mesmo.
Hayley tentou provar um sabor de cada, mas sua língua já estava começando a ficar gelada. Lee quis repetir cinco vezes.
O vento que soprava no alto da montanha arrastava uma sensação gélida pelo corpo, a noite seria impiedosa, por isso seria crucial construírem uma fogueira que aguentasse até a madrugada seguinte.
— Só tô avisando que não vou fazer a guarda noturna em hipótese alguma. Não estamos caçando monstros, não estamos em nenhuma missão pra salvar o mundo, então só aceito ser acordado em casos de extrema importância — disse Lesten.
— Como se você conseguisse dormir até tarde. Às seis da manhã já estaremos caçando insetos, ou você nem teria vindo — brincou Ralph.
— A mulher eu sei que consegue. Ela parece um urso hibernando.
— É o meu sono de beleza, sua lagartixa desgranhenta. — contestou Auria. — Acha mesmo que é fácil manter essa aparência linda e natural logo quando acordo?
— Tu parece um filhote de dragão quando acorda, isso sim. Sai soltando fogo para todos os lados!
— Eu vou virar um dragão mesmo se precisar continuar discutindo com um réptil imbecil feito você.
— Ei, ei — Lee intrometeu-se na conversa, indo para perto de Auria e Lesten e sentando-se entre eles para separá-los. — Nós viemos aqui para relaxar e deixar os problemas de lado. Por que vocês não tentam se comportar feito adultos ao menos uma vez na vida? Vejam só o Ralph, ele sim está fazendo algo útil e recolhendo madeira para construirmos uma fogueira antes do anoitecer.
— Pessoal, quem quer me ajudar a construir uma fortaleza?! — Ralph berrou lá de longe.
Lesten foi o primeiro a levantar-se, afinal, não descansaria enquanto não concluísse sua fortaleza épica escondida no meio da floresta.

Em menos de vinte minutos, os dois desistiram da ideia da fortaleza. Lee reunira alguns gravetos e utilizara um selo de fogo para acender a chama que usaria para preparar o almoço. Eles haviam separado algumas especiarias como temperos e panelas, mas a proposta do acampamento era que ele pudessem se alimentar com o que a floresta pudesse oferecer.
Caso tudo desse errado, Hayley trouxera uma bolsa escondida forrada com pacotes de miojo que comprara no vilarejo antes de partir.
— Isso aqui tá parecendo uma das nossas missões chatas, só que sem a empolgação de derrotar um monstro gigante no final e nem receber recompensas — disse Lesten, entediado de ficar olhando a fogueira crepitar. — De quem foi essa ideia tosca de acampar mesmo?
— Foi sua, bestão — respondeu Auria. — Se não está gostando, volta pra casa.
— Ah, não... Maior preguiça.
Lesten acomodou-se em cima de uma enorme rocha, mas estava tão irrequieto que não conseguia ficar mais de um minuto num mesmo lugar.
— Bem que a gente podia ter trago uma televisão daquelas grandonas, aí nos deitávamos debaixo das cobertas e assistíamos um filminho de romance ao ar livre. O que acham da ideia?
— Isso acabaria completamente com a ideia de acampar! — respondeu Ralph. — Vamos lá, galera, deixar as comodidades e a tecnologia um pouco de lado. Vamos sair para pescar, compartilhar histórias, explorar! Querendo ou não, mesmo quando estamos numa mesma casa tem vezes que nem nos falamos. É como se só o nosso corpo estivesse lá, fazendo nossas atividades costumeiras. Precisamos passar por algumas experiências diferentes!
Quando Lee abriu a tampa da panela, um cheiro forte de comida queimada saiu junto de uma fumaça negra que se alastrou pelo céu, dissipando-se com o evento. Aparentemente, seu arroz não tinha dado muito certo. Ele respirou fundo e controlou-se para não quebrar a panela no meio.
— Maldição, o fogo de selos elementares é diferente de um fogão...
— Delícia, eu amo arroz queimado! — falou Lesten, lambendo os beiços.
— Você comeria até pedra se deixássemos — Auria resmungou.
— Nós precisávamos seriamente de um cozinheiro na equipe — continuou Ralph.
— E agora, nós vamos passar fome? — choramingou Hayley.
Lesten foi o primeiro a levantar-se.
— Nada temam, meus humanos. Eu posso caçar algo na selva — disse o gecko. — Volto em meia hora! Guardem o arroz para mim e tentem não se matar.
Assim que Lesten afastou-se do grupo, Lee perguntou:
— Quais são as chances de acontecer alguma coisa errada e ele nunca mais voltar?
Todos chegaram à conclusão de que eram enormes.

Seus amigos duvidavam de sua capacidade, mas Lesten realmente era muito hábil em virar-se na selva. Durante anos vivera em uma cabana isolada na Ilha dos Geckos, uma vez que tinha a entrada proibida no centro tinha de se virar com o que conseguia encontrar na praia — mas quando seu instinto preguiçoso falava mais alto, ele se conformava em ir até o mercado mais próximo para repor seu estoque de enlatados e salgadinhos de pimenta.
— Estou com uma estranha vontade de comer alguma coisa que não sei o que é — murmurou Lesten para si mesmo.
Ele poderia muito bem caçar animais grandes ou pescar peixes no riacho, mas seu encontro inusitado com uma estranha espécie de planta veio em boa hora.
— Olha só, batatas — comentou Lesten. — Amo batatas, todo mundo ama batatas. Eu não sabia que elas nasciam nesse tipo de região. Vai ter que servir.
Após recolher um número razoável, Lesten voltou para o acampamento de seus amigos com uma mochila cheia.
— Galera, encontrei o nosso almoço! Deixem que o lagartão aqui prepara a comida, porque com o temperinho certo vocês vão ver porque a culinária gecko é celebrada em toda Sellure!
Lee já fervera a panela, assim que Lesten virou a bolsa, inúmeras pedras pretas caíram e espirraram água fervente para todo lado. Ralph deu um pulo, Lee arrancou Hayley de perto do fogo e Auria não gostou nem um pouco da brincadeira.
— Que ideia idiota foi essa, Lesten?
— Eu nunca tinha ouvido falar que geckos comiam pedras também — Ralph comentou enquanto chegava bem perto bem perto da panela. — Espero que tenha muitos minerais.
— Do quê estão falando? — Lesten falou assustado ao perceber que os ingredientes que trouxera não eram os corretos. — Mas eu colhi batatas, mano. Baixinhas, gordinhas e suculentas, tinha um monte delas lá em cima!
Auria não conseguiu esconder a risada.
— Então agora a lagartixa não sabe distinguir uma batata de uma pedra?
— Não, bicho, tô falando sério — resmungou Lesten. — Ah, quer saber? Já tenho fama de mentiroso, então só vou lá colher mais algumas...
— Eu vou com você! — disse Ralph ao levantar-se.
Enquanto eles subiam a colina, o jovem comentou:
— Eu acredito no que você disse, amigão. É muito estranho que essas pedras tenham se transformado em batatas de repente. Será que você não está sob alguma espécie de feitiço?
— Até tu? Tô falando que eram batatas, vou ter que mostrar pra não acharem que sou louco!
Assim que Ralph e Lesten chegaram ao local onde as batatas foram cultivadas, eles se surpreenderam por não haver mais nenhuma. Lesten estava boquiaberto e fez seu amigo prometer que não contaria aquilo para Auria, afinal, talvez ele realmente tivesse ficado louco e pego algumas pedras no lugar da comida.
— Rapaz, devo estar precisando de óculos... Eu juro que eram batatas.
— Agora sou eu que estou ficando com fome — murmurou Ralph, que endireitou-se ao perceber um estranho movimento na mata. — O que foi isso?
Havia uma pequena criaturinha em cima de uma rocha cercada por pedrinhas menores. Ela tinha braços e perninhas curtas, seu corpo tinha recheio e era achatado, parecendo ter sido feito de farinha. Lesten era conhecido por ser um Caçador de Monstros experiente e mesmo com seu vasto repertório de criaturas exóticas ele nunca tinha visto nada parecido.
— Isso parece um... biscoito. Com perninhas e bracinhos.
Isso é quase tão fofo quanto a Hayley — disse Ralph, frisando o quase.
Ele agachou e tentou chegar perto da criaturinha, chamando-a como se fosse um gato.
— Psiu... Psiu... Vem cá, bolachinha.
— Não, cara, tu tá fazendo errado.
— Como assim? — perguntou Ralph. — Existe uma onomatopeia correta?
— Primeiramente, se acabamos de encontrar uma espécie de monstro ainda não catalogado, o certo seria que nós déssemos um nome para ele e o registrássemos — disse Lesten. — E levando em conta que estamos em dois, seu nome científico teria de ter a ver com nosso nome, algo como Ralphomo lescrackers, que na língua comum significa “Homem Biscoito”.
— Mas ele tem recheio no meio, então é bolacha.
— HAH! — Lesten quase cuspiu na cara de seu amigo. — Bolacha, faz-me rir. Não existe bolacha, criança inocente, é tudo biscoito.
— Só estou dizendo que onde nasci nós chamávamos de bolacha, eu pensei que o correto seria...
— Não, não, não. É biscoito e ponto final. O especialista em monstros aqui sou eu, você é só o protagonista, então me deixa ter alguma participação importante nessa história também — Lesten aproximou-se do pequeno Homem Biscoito e pegou-o entre as patas. — Vamos leva-lo para conhecer nossos amigos, Sr. Biscoito.
Ao retornarem para o acampamento, Auria parecia ter queimado os ovos que encontrara e o almoço provavelmente só sairia no horário da janta.
— Pela graça de Araya, que cheiro de defunto é esse? — indagou Lesten.
— É a Auria na cozinha — comentou Hayley. — Pelo menos nós tentamos...
— Mas isso não faz sentido — disse a mulher. — Eu sei que sou uma negação na cozinha, mas estragar ovos é a primeira vez.
— Galera, um minuto de sua atenção. Quero que vocês conheçam nosso mais novo mascote — falou Lesten, revelando a criaturinha que estivera escondida. — Esse é o Sr. Biscoito.
Ao ver a criatura, Hayley esboçou uma feição de choro e correu para dentro da barraca.
— Ih... O que deu nela? — perguntou o lagarto.
— Você sabe que a Hayley é o nosso mascote, Lesten! Maldade você dizer que encontrou um novo para substituí-la — falou Auria.
— Foi mal, foi mal! É que eu encontrei essa criaturinha aqui e ela me pareceu tão doce e inofensiva que dá vontade de comer...
— Isso parece uma bolacha com perninhas... — comentou Auria.
Até tu? Que tipo de problema tu precisa ter pra chamar isso aqui de bolacha, tá na cara que é um biscoito, BIS-COI-TO.
— Lesten, pega leve, cada província de Sellure provavelmente tem uma forma diferente de chamar — disse Ralph. — É claro que humanos e geckos recebem uma criação diferente, por ter conhecido um pouco dos dois lados eu saberia a forma correta, mas estou certo de que isso é uma bolacha.
— Não. Meu melhor amigo está me traindo com uma... bolacha! — falou Lesten, afastando-se do acampamento com o Sr. Biscoito em seus braços. — Vamos sair daqui, tesouro amado. Não se misture com essa gentalha.
Enquanto se afastavam, Auria teve certeza de que viu aquela criaturinha abominável mostrar-lhe a língua antes de sumir de vista.
— Fala sério, geckos estão entre as criaturas mais teimosas do mundo — ela disse com uma risada, voltando a atenção para Ralph. — Mas e aí? Quer fazer alguma coisa já que estamos aqui?
— Depende... Eu nunca sei que tipo de coisa você se refere — comentou Ralph.
— Podemos ir dar um mergulho na cachoeira. Se minha memória e meu nariz não me falham, essa semana você ainda não tomou banho e você costuma odiar banhos, então pensei em nos divertirmos um pouco.
— Se você conseguir me pegar! — o garoto respondeu após sair correndo.
Ralph e Auria seguiram o percurso da nascente até uma bela cachoeira que percorria uma curva tênue até o vilarejo sob o pé da montanha. Agora que tinham um momento a sós, pela primeira vez começavam a sentir como era acampar de verdade. Não precisavam se preocupar com a possibilidade de monstros estarem à espreita e nem de lutar contra o relógio, só precisavam relaxar e curtir o fim de semana.
Auria ficou só de regata, erguendo a barra da calça. Dava para enxergar suas marquinhas de sol assim como uma parte do sutiã, o que já era o suficiente para deixar Ralph extremamente envergonhado. Desde que conhecera o menino, costumava enfiá-lo dentro de uma banheira ou de um riacho mais próximo só para que ele se molhasse e passasse um pouco de perfume. Uma vez que certas espécies de geckos não eram afeiçoadas a água, Ralph compartilhava a repulsa.
Auria sentia como se precisasse cuidar dele como se fosse sua irmã mais velha.
— Quando eu não estiver por perto, como é que você vai se virar para fazer essas coisas? — perguntou Auria com um sorriso enquanto jogava água no cabelo do mais novo e enxaguava sua cabeça.
— É simples. Eu não vou — respondeu Ralph como se aquela fosse a solução mais óbvia, mas ele logo recebeu um cascudo na cabeça. — Era brincadeira... É só que eu não acho que é preciso tomar banho tooooodo santo dia, ainda mais quando faz aquele friozinho. Precisamos economizar água.
— Você está tomando banho em um riacho, não precisa economizar nada — Auria brincou. — Eu até concordo que tomar banho no frio é dureza, mas tem muitas coisas que podemos fazer no frio para nos aquecermos, sabe?
— Tipo o quê?
— Coisas... — Auria deu uma risadinha sem graça, tentando mudar de assunto. —Quando o inverno chegar, vou preparar um pouco de chocolate quente para nós.
— Eu amo chocolate quente — falou Ralph, virando-se para Auria de maneira tão súbita que ela chegou a assustar-se. — Posso te contar um segredo?
— D-depende — respondeu Auria, meio corada.
— Eu amo comer algo que começa com a letra A. Sabe o que é?
— Prefiro não arriscar...
— Abacate. Dizem que faz bem para o cabelo, né? Eu queria que o meu fosse bonito que nem o seu.
— Ah, claro — ela revirou os olhos e deparou-se com uma cena curiosa. — Ei, não é o Lesten ali em cima daquela pedra?
Ralph virou-se e chamou por seu amigo gecko que estava apoiado sobre os joelhos em uma posição muito estranha, acariciando sua própria mão.
— O que raios ele está fazendo? — perguntou Auria.
— Meu preciossssssssoooooo... — murmurou Lesten com o Sr. Biscoito entre seus dedos. O lagarto soltou um grunhido contra seus amigos e escalou uma parede de rochas, sumindo de vista.
— Essa foi a coisa mais bizarra que vi nessa semana — falou Auria. — É melhor voltarmos para o acampamento.
Assim que retornaram, já estava começando a escurecer e Lee ainda tentava cozinhar o que quer que tivesse sobrado em sua mochila de provisões, mas sem obter muito sucesso.
— Pessoal, do jeito que as coisas estão andando nós teremos que voltar para casa ainda essa noite. Não consigo cozinhar nada, está tudo queimando, estragando ou evaporando — disse Lee, amassando uma colher de ferro com uma mão só como se fosse um palito de dente. — E isso está me deixando muito, muito irritado.
— Calma, grandão, tem algo estranho acontecendo... — disse Ralph. — Onde está a Hayley?
— Ainda está triste porque o Lesten falou que arranjou um novo mascote. Está deitada lá na barraca lendo uma revista em quadrinhos dos heróis da primeira geração: A batalha de Capitão Canas, Tokay Asa Negra e General Defesa contra o Devorador de Corações.
— Eu vou falar com ela — falou Auria, sempre preocupada com o bem estar de seus companheiros.
Ralph sentou-se perto da fogueira, mas não teve tempo para relaxar, pois ouviu um barulho estranho na escuridão densa da mata. Havia deixado Lignum em casa, não achou que precisaria de sua espada de madeira em um acampamento para divertir-se, mas talvez julgara mal aquelas colinas inóspitas. Ali, havia um mal mais antigo do que eles poderiam prever.
— O que houve? — perguntou Peter Lee com a voz séria.
— Não é nada... Acho que foi só um mosquito — respondeu Ralph.
Nesse instante, uma criatura extremamente ágil pulou em sua direção e atacou-o com mandíbulas e garras ferozes. Lee levantou-se e conseguiu arrancá-lo de cima de Ralph antes que o jovem fosse ferido, mesmo que a criatura fosse muito pesada. Ela escondeu-se nas sombras antes de repetir o ataque, era possível ouvir seus ganidos enquanto os dois mantinham a posição de alerta.
— Que monstruosidade abominável das profundezas é essa? — indagou Lee. — Posso ter deixado minhas manoplas em casa, mas não preciso de luvas para acertar uma boa pancada em quem tentar ferir meus amigos.
— Espera um pouco, é o Lesten! — berrou Ralph.
O lagarto parecia completamente fora de si, saliva escorria de sua boca e seus olhos vermelhos brilhavam como um animal prestes a atacar sua presa. Quando o lagarto estava prestes a avançar, sua voz esganada emitiu murmúrios de aflição:
Vocês não vão roubá-lo de mim!
Ralph esquivou-se com agilidade, mas não queria ferir seu amigo. Lee não pensava da mesma forma, por isso usou a primeira tora de madeira que encontrou para acertar Lesten na cabeça e deixa-lo completamente incosciente.
— Nós... matamos o Lesten! — gritou Ralph.
— Merda, eu sempre mato as coisas sem querer... — murmurou Lee. — Acha que as meninas iriam reparar se nós escondêssemos o corpo e colocássemos uma lagartixa de enfeite no lugar?
— A-acho que sim... Nós chegamos aqui em cinco e vamos voltar apenas em quatro, seria muito suspeito...
Foi então que uma sombra formou-se através da fogueira, parecendo criar vida. Ela elevou-se até transformar-se em uma aberração sem nome, a criatura estava diante dos dois aventureiros quando falou com sua voz aterrorizante:
— Vocês que brigam por meu nome, saibam que eu os torturarei eternamente enquanto não pararem de se divertirem às minhas custas! Eu não sou o Homem Biscoito e nem o Homem Bolacha, meu nome é Dimen, o manipulador de dimensões, e eu os condeno à morte!
Quando a sombra estava para ataca-los, subitamente ela gritou e desapareceu como se tivesse sido sugada para o vazio.
Ralph estava caído no chão quando viu Hayley do outro lado, ela havia pisado no que restou do Sr. Biscoito com suas perninhas e migalhas espalhadas ao redor.
— Hayley, você o derrotou! — falou Ralph.
— Eu odeio biscoito, odeio bolacha, ou o que quer que vocês chamem isso. Só existe lugar para uma criatura fofa nessa história — falou Hayley, parecendo mais assustadora do que o costume. — Aquilo era um Formless, uma espécie de monstro inofensivo de classe baixa que encontramos por toda parte. Eles assumem a forma de coisas do dia a dia, como animais, objetos ou até alimentos. Acredito que o nosso amigo Dimen seja apenas um monstrinho chateado com o fato de sempre errarem seu nome.
— Eu... já disse... que é... BISCOITO! — berrou Lesten, após recuperar-se da pancada que levara de Lee. — Cacetada! Por algum motivo eu estou com uma tremenda dor de cabeça e eu espero que vocês tenham uma explicação para isso.

O grupo sentou-se em volta da fogueira e compartilhou toda a história desde que Dimen tomara controle da mente de Lesten para que ele se tornasse seu porta-voz. A comida estragada se devia a uma magia reversa utilizada pelo monstrinho Dimen, ele era capaz de inverter as habilidades das pessoas, tornando um bom cozinheiro em um péssimo, assim como atender a desejos criando ilusões como quando Lesten queria batatas e acabou recolhendo pedras no campo.
Já que não havia mais nada a ser feito, Ralph ferveu um pouco de água e cozinhou os pacotes de miojo, a única coisa que sabia fazer. Para a surpresa de todos, estava uma delícia.
— Uau, esse é o melhor macarrão instantâneo que eu já provei — falou Auria.
Lesten deixou seu prato de lado no mesmo instante.
— Mulher, qual é o teu problema? Não tá na cara que isso se chama miojo? É melhor tu parar de criar nomes complexos para as coisas, porque eu não quero arranjar confusão de novo — resmungou Lesten.
— Eu pensava que isso era lámen — comentou Hayley, decepcionada.
— Vocês não sabem ler? Está escrito Cup Noodles na embalagem, então se chama Cup Noodles, porra — continuou Lee, educado como sempre.
— Gente, quem se importa? Vai tudo pro mesmo lugar! — respondeu Ralph com uma risada, divertindo-se só pelo fato de estar com seus amigos.
Porém, em algum lugar naquela longínqua floresta no topo da colina, uma criatura sinistra e solitária planejava seu próximo plano.
“Isso, minhas crianças, discutam o nome de origem desse alimento sem importância... Enquanto isso, eu, Dimen, estarei trabalhando em meu plano perverso de retorno para destruí-los e dominar toda Sellure! Muah, hah, hah, hah!”
Mas enquanto ria histericamente, um passarinho apareceu e começou a ataca-lo por confundi-lo com alimento.
“Malditos sejam! Eu voltarei!”


  9 comentários:

  1. Ei Canas, escreveu isso tudo em dois dias? Foi bem rápido! kkk
    Muito obrigado por aceitar muitas das minhas ideias random, eu adorei o Support! :3

    Agora que temos pela primeira vez uma visão mais ampla do Lesten podemos notar que ele é uma piada! Um lagarto bem peculiar, acredito que será uma personagem bem interessante e engraçada no livro.
    Hayley sempre será a mais fofa! Nem mesmo uma bolacha/biscoito com pernas e recheio consegue superar a fofura dela.

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    1. Siiim, no mesmo dia que você deu a ideia eu já coloquei a mão na massa e escrevi o capítulo até de madrugada! kk Aí na manhã seguinte só dei uma revisada, mas geralmente Supports têm uma pegada mais descontraída, então não precisei reler tudo quatro ou cinco vezes. Só deixei a escrita fluir, até porque essa deve ser a primeira vez que escrevo um capítulo onde a galera de Sellure pudesse simplesmente sentar e não fazer... nada. Então vamos deixá-los aproveitar um pouquinho, né? kkk

      Esse support vai marcar a inauguração do Lesten mesmo! Na verdade eu já tenho o capítulo do passado dele pronto, estou vendo quando vou postar. Demorei demais para apresentá-lo, o Lesten foi criado a mais tempo do que o próprio Ralph. No Passado dos Personagens, veremos um Lesten completamente diferente, nos tempos em que ele ainda fazia parte do exército ele era mais centrado, agora terminou virando uma piada. Mas na maioria do tempo ele é só o zoado do grupo mesmo kk

      Não consegui encaixar tudo que você sugeriu, Shii, mas fiz o possível! Eu gostaria de ter colocado o ecchi também, mas geralmente é muito difícil misturar isso com outros gêneros, então prometo que faço outro quando der e cheio de sacanagens! haha. Por hora acho que conseguimos introduzir os supports e foi uma começo bacana, obrigado por reviver esse especial!

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  2. Finalmente consegui ler esse support, e a minha unica reação quando eu terminei de ler foi :

    Que viagem é essa véi ?

    Deu para ver como são os personagens, em especial o Lesten, que é um personagem bem divertido, a Hayley também é interessante e cozinheiro ..., Seria esse um gancho para outro personagem ?

    E pra finalizar, #TIMEMACARRÃOINSTANTÂNEO

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    1. Este é o mundo dos Supports cara, muita viagem e loucuras que te deixam com uma expressão WTF ao final. Fazer o quê, ideia da Shii inserir um Homem Biscoito/Bolacha e outros temas tão difíceis! kkkkkk

      Estou convencido de que começarei a postar mais capítulos aqui no blog, meu plano primeiro é chegar até o Lesten no Capítulo 8 e trazer todos os especiais do Passado que faltam. Já fiquei muito tempo parado, se Maomé não vai até a montanha, a montanha vai até a Maomé. Comecei até a publicar a obra no wattpad e acho que conseguirei atrair mais alguns leitores!

      #TEAMMACARRÃOINSTANTÂNEO?? Você tá louco? Só existe um nome para isso, e é miojo. Todo o resto DEVE SER QUEIMADO EM ÁGUA FERVENTE! kkkkkkkkkk Valeu pela presença Donnel, abraços!

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    2. E O DONNEL PERCEBEU A REFERÊNCIA AO COZINHEIRO! Eu estava conversando isso com a White do Mystery Dungeon hoje mesmo, mano, tu descobre as coisas mais improváveis!

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    3. Por essas e outras que eu recebi o titulo de '' Xeroque Homes do Paraguai '', nenhuma referencia foge dos meus olhos, quer dizer, elas fogem, as vezes

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  3. Cara, você fumou um quando escreveu o cáp?

    KKkkkkk, mas falando sério, ficou bem bacana, diria que foi bem interessante e inusitado. Ri muito do Lesten agindo feito eu. (My preecioussss...)

    Mas bem cara #LámenMiojoMacarrãoinstantãneo e #BiscoitoBoladão.

    Ps: Não contei o Cup Noodles pois é apenas uma modalidade de Lámen/Macarrão instantâneo/Miojo, que, como se percebe pelo nome, é aquela que vem no "copo".

    E vou pedir um support!

    Personagens:

    Ralph, Elice

    Gênero:

    Drama, romance, comédia, spice of life

    Assunto:

    Sobre vida e climões.

    Por que este pedido:

    Porque mano, eu olhei pra Elice e pro Aedan e falei: Os dois não colam como casal, preferiria um RalIce. E BAM! Veio uma ideia louca na cabeça de pedir isto.

    Porque não shippo AeLice? Porque eu olhei pros dois juntos na imagem e vi mais um relacionamento onde um tenta proteger o outro como "Irmãos", e também porque todas as garotas (ou garotos, sabe-se lá) colam com o protagonista.

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    1. * no gênero eu escrevi errado, é slice of life, e não "spice".

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    2. Maluco, a madrugada que eu escrevi isso acho que eu devia ter tomado uma caneca bonita de cerveja com groselha, na real. Posso não curtir cerveja porque acho o sabor amargo, mas quando coloco groselha o negócio vira um néctar dos deuses! Foi de madrugada ainda, há quanto tempo não escrevo de madrugada? Só sei que também me diverti muito escrevendo kkkkkkkkk

      Nossa, mano, que sugestão de support linda... Eu adoro a Elice de coração, talvez vocês se surpreendam com a personalidade dela, porque nos meus gibis de criança ela era conhecida por ser a personagem mais irritante de todas as temporadas! (E uma pequena curiosidade é que Elice era um garoto antigamente, seu nome era Cristaltines. Por pouco ela não virou Chris, mas quis manter Elice por causa do Ice no final).

      Eu adoro slice of life, mas esse gênero vai requerer um cuidado meu muito maior, então vou demorar um pouco mais para bolar tudo, mas farei com prazer! Quero trabalhar em algo especial, Ralph e Elice não se trata apenas de um shipp impossível, eles realmente têm alguns momentos bem próximos no livro que estão entre meus favoritos. Fique de olho, Sir!

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