terça-feira, 26 de setembro de 2017

Courtney


"[...] Você não acha engraçado como por dentro somos todos parecidos? Se não fosse por rótulos e etiquetas, seria impossível dizer qual o tipo sanguíneo de cada um. Como nessas sacolinhas plásticas, é preciso muito mais do que os olhos para enxergar o que há dentro de alguém, sabe?" — Courtney, Capítulo 6 - Livro 2.

Courtney é uma garota meiga por fora, mas quem a conhece sabe que ela é ousada, sedutora, cheia de energia e perdidamente apaixonada por todas as pequenas coisas que a fazem feliz por estar viva. Courtney ama música, dança e festas, mas também não trocaria por nada uma noite do pijama trancada no quarto com seus amigos. De origem simples na grande capital de Constantia, ela sempre buscou desesperadamente uma história para chamar de sua. Seu maior sonho é encontrar alguém com quem compartilhar cada momento com intensidade.

Desde sua apresentação, foi revelado que ela tem uma queda por Auria, mas ainda não se sabe se elas assumem mesmo um relacionamento.


Curiosamente, Courtney é uma personagem que dará as caras somente no Livro 2. Ela acabou se tornando popular após o autor mostrar um capítulo avulso para uma amiga que se apaixonou pela personagem e fez uma arte entre Courtney e Auria. Ela acabou inaugurando anos antes de sua verdadeira estreia na história como parte de tirinhas, desenhos e memes.

  • Charminho [Support] – A usuária é capaz de enganar inimigos e até mesmo proteger-se de ataques ocasionais; 
  • Construtora [Habilidade Passiva] – A personagem pode reconstruir e refinar os equipamentos de seus companheiros. 
"Pode segurar a minha mão, se quiser.
 Courtney, Capítulo 6 - Livro 2.

"Ah, que droga, eu sou a única que não tenho uma história legal para contar! E olha que fui eu que inventei essa brincadeira! [...] Acho que não fiz nada de importante na minha vida.
— Courtney, Capítulo 12 - Livro 2.

"Eu gosto demais de você, Auria. Eu fico louca em sua presença.
 Courtney, Capítulo 16 - Livro 2.


  • Courtney é na verdade morena, ela apenas pinta seu cabelo de rosa, mesmo que existam personagens em Sellure com cabelos de cores excêntricas como Aedan, Elice, Doppel e Mysteria;
  • Originalmente sua aparência se assemelharia à Ramona, de Scott Pilgrim. Ela também usaria óculos personalizados na cabeça;
  • Seus trajes foram planejados para serem da cor marrom e laranja, mas as cores só combinaram com a versão morena da personagem. Ao lado você confere um dos testes de cor;
  • Inicialmente seu estilo de batalhas seria com machados e martelos;
  • A tatuagem em seu braço esquerdo é de um diamante em forma de coração cercado por quatro rosas;
  • O nome Courtney foi dado em homenagem à vilã de mesmo nome dos jogos de Pokémon Ruby e Sapphire. A origem do nome é francesa e pode se interpretada como: pertencente à corte (o que chega a ser um contraste, visto que Courtney vem de uma família muito simples), ou então nariz pequeno.


sexta-feira, 22 de setembro de 2017

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

As Lendas de Colina DISPONÍVEL PARA COMPRA!

Opa! Demorei um pouco, mas finalmente abri a venda da primeira antologia que participei, As Lendas de Colina!

O livro foi lançado no dia 8 de agosto na Livraria da Vila, em São Paulo, e mais tarde durante a Bienal do Rio de Janeiro de 2017. São 33 contos de diferentes autores nacionais, incluindo convidados como Marcelo Siqueira, Renata Ventura, Renan Carvalho e Daniel Jahchan. Há um total de 352 páginas e todos as histórias interligam-se entre si de maneira que a leitura se torne uma verdadeira viagem por esse universo fantástico dominado por animais antropomórficos.

Adquirindo o livro comigo ele sai pelo mesmo valor que a editora, 35 reais. O frete é fixo em 10 reais para todo Brasil Mas é melhor correr, porque terei apenas 20 exemplares em mãos!

Se tiver interesse, basta entrar em contato comigo por e-mail ou pelo facebook. O pagamento é por depósito, mas você também pode adquiri-lo pelo Mercado Livre!

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Recepção Reptiliana [Cenas Deletadas]

Todo livro precisa sofrer inúmeros cortes antes de ser publicado. Faz parte do processo de revisão do próprio autor rever quais capítulos são realmente importantes para o andamento da história, detalhes que só encontramos depois que o livro já foi finalizado. Com isso, o blog traz as Cenas Deletadas como um extra para os leitores mais curiosos.

Onde a cena se encaixava?
Esse pequeno trecho pertencia ao Capítulo 10.

Sobre o que falava?
Os protagonistas aproveitavam um passeio no centro da Ilha dos Geckos quando se esbarram com alguns lagartos que não veem os humanos com bons olhos. O trecho demonstra um pouco da cultura dessa raça tão exótica e reforça a ideia de que Auria é contra preconceitos e não leva desaforos para casa.

Qual o motivo de ter sido excluído do livro?
Diminuir a quantidade de páginas.


RECEPÇÃO REPTILIANA
As Histórias Perdidas - Cenas Deletadas

Era bem cedo quando Ralph despertou. Não fazia nem um dia que haviam chegado à Ilha dos Geckos e era triste ter de despedir-se dela tão depressa. Desceu a escada rumo à recepção para verificar a disponibilidade de um navio que voltasse para o continente, e o único que faria uma travessia até Myriad só chegaria após as duas da tarde, logo, teriam de esperar.
Optou que fariam uma rápida visita ao centro e comprariam mantimentos para a viagem. Aquele era o lar do grande Tokay Asa Negra, e Ralph adoraria ver a estátua de seu ídolo de perto. Esperou que seus amigos acordassem para dar uma volta no centro, mas foram necessários quase quarenta minutos para tirarem Auria da cama. Quando a colocavam sentada, ela caía para o outro lado, abraçando os cobertores finos com cheiro de maresia.
— Cara, eu sou preguiçoso, mas essa fêmea deve ser algum tipo de urso pra hibernar desse jeito — completou Lesten.
Após longas tentativas, eles puderam finalmente sair da pousada e visitar as famosas feiras que vendiam produtos frescos e todo o tipo de iguarias únicas dos lagartos. Pequenos dentes eram vendidos em colares, escamas e pedras brilhantes eram comercializadas assim como muitos outros produtos manufaturados. Ralph aproveitava a visita, sentia-se em casa junto do povo que idolatrava, Auria sentia-se observada e não tirava as mãos no bolso, como se fosse uma completa estranha e dessa vez não pelo seu cabelo ou aparência.
— Ei, fêmea, já viu briga de besouros? — Lesten a chamou, entretido em uma barraca. — Tu captura o besouro e o coloca para enfrentar outro, o primeiro que conseguir erguer o oponente com seus chifres é o vencedor. Existem campeonatos só para essa modalidade no reino todo!
Ralph e Auria chegaram para observar o evento, mas perceberam que lentamente alguns geckos levantaram-se e saíram do lugar, afastando-se descaradamente. Ralph não ligou para o ocorrido, mas a guerreira se importava, e muito. Da mesma maneira que o povo das Vila das Pérolas não gostava dos homens-lagartos, aparentemente alguns geckos sentiam o mesmo.
— Ralph, vamos embora... — ela tentou arrumar uma desculpa. — O barco logo vai chegar.
— Temos tempo até lá — Ralph falou, entretido com a briga de besouros.
Auria continuou a observar o movimento nas ruas. Uma família de lagartos atravessou para o outro lado da calçada ao ver os humanos em suas terras, como se a simples presença deles fosse assustadora. Ela aguardava pacientemente quando dois geckos altos passaram e acabaram trombando em seu ombro. Auria virou-se furiosa, principalmente pelo fato de que os sujeitos não pediram desculpa, e logo buscou satisfação.
— Ei, tome mais cuidado — ela ajeitou sua jaqueta.
Os geckos pararam e olharam para trás, caminhando em sua direção. Eram criaturas amistosas e sorridentes quando alegres, mas podiam tornar-se ameaçadoras quando revelavam as presas e seus olhos se dilatavam. Auria era uma mulher alta, mas aqueles dois deviam ter quase dois metros.
— Eu ando por onde eu quiser, porque estou onde eu deveria estar — falou o gecko de maneira rude. — Mas e você? O que faz onde não é bem vinda?
Ela não se intimidou com os sujeitos. A briga estava para se intensificar quando ela sentiu alguém segurar seu braço e chama-la.
— Auria, vem cá, você tem que ver o tamanho desse besouro! — disse Ralph contente.
Os dois geckos riram e deram meia volta, mas não antes sem caçoarem:
— Pensem bem antes de invadir o território dos outros, suas pragas.
O sangue da mulher chegou a ferver.
— Acredito que vivamos em um reino livre e sem limitações, vocês não têm direito algum de julgar qualquer raça ou cultura.
— Temos todo o direito de reclamar de visitantes inconvenientes. Foram vocês que se envolveram com um incidente na costa ontem à tarde, não foram? — disse o gecko alto. — Eu deveria ter imaginado, humanos estão sempre aprontando, deveríamos vetar o acesso de vocês à nossa ilha para sempre!
A briga começava a chamar muita atenção e a última coisa que gostariam no momento era ser o centro das atenções. Notando que a situação fugia de seu controle, Lesten colocou-se em frente aos dois sujeitos e os encarou. Os grandalhões mostraram os dentes e suas pupilas se dilataram, enquanto Lesten só levou a mão até a bainha de sua espada e a deixou bem visível.
— Por que vocês não vão brincar com os seus amiguinhos? Esses são os meus humanos — grunhiu num tom sarcástico — arranja os seus
Eles perceberam que Lesten era um guerreiro e foram afastando-se devagarinho, acuados pelo inconveniente. A visita rumo ao centro teria que ficar para outro dia.
— Vamos embora logo, galera — disse Lesten, enciumado. — Foi-se a época em que esse povo era receptivo... 



terça-feira, 19 de setembro de 2017

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Doutor Erlenmeyer


"Apresento-me a você como o Doutor Erlenmeyer, mas se for incapaz de lembrar-se do meu nome, dou-lhe a permissão de chamar apenas de doutor [...]  O que traz uma ovelha para o covil dos lobos em uma situação tão inusitada?" — Doutor Erlenmeyer, Capítulo 10.

O Doutor Erlenmeyer é um pesquisador e cientista no Reino de Sellure. Durante anos dedicou-se a estudar os tótines, o povo abençoado por Araya com o dom da magia. Erlenmeyer sempre acreditou que os poderes concedidos pela mana deveriam ser de acesso livre, qualquer um poderia dominar tais poderes, mas quando aprofundou-se descobriu respostas tão improváveis que muitos começaram a questionar sua sanidade.

Ele perdeu seu laboratório e passou a vagar pelo reino como um andarilho solitário e sem amigos. Ao encontrar-se com Ralph, enviou-o na missão de encontrar as cinco Pérolas Sagradas e assim invocar o Mago Supremo capaz de realizar sonhos e desejos, apesar de ninguém comprovar sua veracidade.

Erlenmeyer é uma serpente albina da raça dos geckos, por isso é comum vê-lo em locais escuros escondendo-se do sol. Ardiloso e extremamente fiel à sua palavra, acredita na ideia de um mundo mais justo longe da imundice das raças egoístas que se julgam perfeitas.


O Doutor Erlenmeyer é visto pela primeira vez no Capítulo 10, após Ralph e seus companheiros enfrentarem Goldo na Ilha dos Geckos. Apesar de ser citado em todo o decorrer do primeiro livro, ele só volta a dar as caras no Capítulo 35.

  • Teletransporte [Support] – De alguma maneira ainda não explicada, o usuário é capaz de teleportar-se (ou se trata apenas de um truque de mágica);
  • Solitário [Defensivo] – Quando não possui nenhum aliado para ajudá-lo em combate, todos seus atributos aumentam consideravelmente; 
  • Controle Obsessor [Defensivo] – Através de espíritos, é possível influenciar e até controlar pessoas e criaturas de mente fraca;
  • Proteção Fantasmagórica [Defensivo] – Uma força invisível o protege de qualquer dano a longa distância, sendo impossível pegá-lo desprevenido; 
  • Inteligência Suprema [Habilidade Passiva] – O personagem é capaz de encontrar soluções lógicas para problemas complexos, elaborar estratégias, improvisos, influenciar e adquirir experiência com mais facilidade do que outros.
"Não podemos sentar e esperar a boa vontade de uma força divina que foge à nossa compreensão. O mundo precisa de mudanças.
 Doutor Erlenmeyer, Capítulo 10.

"Continue sssseguindo o esssscuro.

 Doutor Erlenmeyer, Capítulo 35.

"Minha metodologia se dá através da observação, a elaboração de hipóteses, o experimento; posso até mesmo prever os acontecimentos futuros pela repetição das experiências! Meus estudos apontam que a energia mística conhecida como mana vem de uma fonte física existente em algum lugar de nosso reino, se a encontrássemos seria possível responder à tantas perguntas que há anos busco respostas: Como surgiu? Por que está aqui? Por que podemos usá-la livremente e será que um dia se esgotará por completo?"
 Doutor Erlenmeyer, Capítulo 36.

"É por isso que eu estudo a ciência, em breve poderei fazer o que a magia do nosso mundo não é capaz."
 Doutor Erlenmeyer, Capítulo 36.


  • Quando foi criado, Doutor Erlenmeyer se chamava Shadow Tokay. Ele sempre desempenhou o papel de um dos maiores antagonistas do universo de Ralph, mas no planejamento inicial ele só viria a aparecer no terceiro volume;
  • Sua aparência foi baseada no monstro Fallen Bishop, do jogo Ragnarok;
  • Sofre de TOC, Transtorno Obsessivo Compulsivo;
  • Erlenmeyer costuma puxar a letra S quando está muito eufórico ou apreensivo;
  • Erlenmeyer adora vestir-se bem, preza boas roupas e acha que o branco não combina com sua pele, por isso utiliza um jaleco preto. Sempre foi muito cuidadoso com a aparência. Sua estação preferida é o inverno.


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Capítulo 10

Ralph caminhava pela costa quando subiu no píer destroçado e examinou o cenário com atenção. Auria havia ficado para trás conversando com as autoridades quanto à destruição causada nas redondezas. Lesten tentava esconder-se delas. Agora a fragata estava vazia, seu desejo por aventuras o levou a entrar ali. Perguntava-se o que aqueles piratas teriam escondido em seu convés. Mapas do tesouro? Baús e itens preciosos para sua jornada?
Ele adentrou o barco e encarou tudo de relance. A decoração era bela e polida, lembrava a obra e o estilo local de Garamond, o povo do norte. Concluiu que a embarcação fora roubada, estava tudo organizado demais para pertencer a piratas.
Enquanto passava pelo local, alcançou a cabine do capitão e avistou algo que o agradou. Um imenso mapa cobria uma das paredes, ali estava estampado todo o Reino de Sellure. Tal visão o surpreendeu, não conhecia nem um décimo das províncias existentes: Bodoni, Century, Constantia, Garamond, Helvetica, Myriad, Perpetua e Trajan. Jamais saíra de sua terra natal para explorar o mundo quando criança, até então suas aventuras se revelavam incríveis, o que o aguardaria dali para frente? Enquanto alguns almejavam sucesso imediato, Ralph só precisava contar com sua ambição. Desejava seguir assim, de maneira mansa, disposto a abraçar o que a vida lhe arremessasse. Seria um herói e faria amigos, mudaria o mundo — sabia que um dia alcançaria cada um de seus sonhos enquanto continuasse tentando.
Passou a mão por uma bela poltrona de veludo e encarou a paisagem através de uma parede destroçada. O mar estava agora tranquilo e o sol começava sua despedida, o relógia marcava as quatro horas da tarde. Ralph viu passar ali um trem cortando as ondas no meio do oceano, não fazia ideia que aquela rota permitia a passagem do famoso Trem das Águas.
Um ruído inaudível fez seus sentidos se aguçarem. Estaria ficando louco? Logo percebeu que a sala do capitão levava a um depósito no andar inferior, ele teve certeza de que ouvira algum barulho vindo das escadarias. Não sabia se algum pirata ainda estaria por ali à espreita. Desceu duas levas até os depósitos da fragata, muitos caixotes estavam jogados e alguns até mesmo abertos com todo seu conteúdo espalhado no chão. Tratava-se das mercadorias roubadas por Goldo, então julgou melhor nem examiná-las, deixaria tal tarefa para a marinha averiguar e usar o dinheiro roubado para reconstruir os danos causados.
Ralph mantinha Lignum nas costas. Foi andando cautelosamente, imaginando se teria ouvido algo, quando o chamado repetiu-se. Ele imediatamente colocou-se em posição de alerta.
Estou chamando você. Sssssiga-me, meu bom menino.
Alcançou uma área que servia como uma prisão improvisada para bandidos ou invasores. O local era sujo e mal cuidado, completamente escuro e contando apenas com a iluminação fraca dos raios solares que passavam por entre as frestas entrepostas do piso superior.
Ali estava um gecko com escamas de um branco desbotado, vestido em um jaleco negro fechado até a altura do pescoço, sua longa cauda balançava incontida de um lado para o outro. Não era da espécie dos lagartos ou crocodilianos, mas das serpentes. Virado de costas, balbuciava palavras misteriosas enquanto acrescentava anotações na parede com uma lasca de pedra afiada o bastante para torna-la uma arma.
Ralph observava a cena intrigado. Os rabiscos na parede pareciam escritos de uma língua antiga há muito esquecida, praticamente dois metros cúbicos estavam preenchidos com os dizeres. O gecko continuava escrevendo balançando a cabeça, sem nem olhar para trás.
Ralph apoiou as mãos na grade e olhou para a criatura, chamando-o com a voz mansa.
— Olá.
O gecko virou-se depressa, quase agressivo, com os olhos esbugalhados e os dentes à mostra. Parecia neurótico, não parava de mover as mãos de forma inquieta. Ficou observando o garoto por longos segundos, como se tentasse sufocá-lo na escuridão, incapaz de enxergar o que está a um palmo em sua frente.
— O que está fazendo aqui? — a serpente cuspiu as palavras, olhando para o nada.
— Eu não sei. Foi você quem me chamou — Ralph continuou.
— Você não sabe? Então eu também não — o gecko voltou a escrever na parede. — Vá embora, espírito, antes que eles decidam pegar você também.
O jovem julgou que aquele pobre prisioneiro deveria estar louco e pensou em afastar-se, mas não abandonaria alguém em necessidade. A criatura parou de rabiscar só por um instante quando decidiu falar:
— Espere — e olhou para Ralph, mas não em seus olhos. Suas palavras saíram arrastadas, quase um sussurro sem som. — Eu sei sssssim.
A serpente guardou sua pedra lascada no bolso da vestimenta e caminhou em direção do humano. Por trás das grades esticou o braço para ele, ereto e com uma expressão de alguém... normal. Falava e agia como qualquer outro gecko, parecia até mesmo mais instruído que muitos outros que conhecera, como um professor de pesquisas que apresenta sua mais nova descoberta à bancada.
— Apresento-me a você como o Doutor Erlenmeyer, mas se for incapaz de lembrar-se do meu nome, dou-lhe a permissão de chamar apenas de doutor. O prazer é todo meu — ele apertou a mão do rapaz com naturalidade, como alguém receberia uma visita em sua casa. — O que traz uma ovelha para o covil dos lobos em uma situação tão inusitada?
Ralph olhou para a cela desgastada e suja em que ele se encontrava.
— Pensei que você fosse um prisioneiro, por isso vim verificar.
O velho gecko olhou ao redor, observador.
— Verdade. Parece que estou preso — O doutor comentou, cauteloso. Sua voz mudara drasticamente. — Enfim, não importa. Será que você poderia me tirar dessa cela para que possamos conversar como bons cidadãos civilizados, meu garoto?
Ralph atentou-se à porta da cela. Estivera aberto o tempo todo, não havia nem sinais de que fora arrombada. Ele recuou dois passos por precaução e preferiu nem contrariar o doutor e sua sanidade.
— Quem é o senhor?
— Sou um pesquisador e cientista autêntico em busca de respostas ainda não solucionadas deste mundo. Eu acompanhava esses bons samaritanos em viagem quando aparentemente fizemos uma pausa. Agora aqui estamos nós, tendo essa conversa excepcional — disse Erlenmeyer. Os dois ainda conversavam com a grade entre eles, mesmo que pudessem sair a qualquer instante. — Onde estamos exatamente?
— Na Ilha dos Geckos.
— Não é onde eu deveria estar.
Ralph observou atentamente a criatura. Viu que ele tinha braços, mas seus pés ficavam sempre escondidos, como se ele rastejasse.
— Há algo que eu possa fazer por você, doutor? Nós também pretendemos deixar a ilha, provavelmente seguiremos de volta para a Vila das Pérolas ou algum lugar onde possamos criar uma base provisória, e...
Pérolas? — O Doutor Erlenmeyer praticamente avançou contra Ralph, tentando agarrá-lo do outro lado da grade, mas sendo impedido. Por sorte os dois mantiveram aquela distância. Assim que se recompôs, a serpente desculpou-se cordialmente.
— Perdão, acabei ficando... apreensssssivo. O que sabe sobre as pérolas?
— Têm uma porção delas lá na vila, são praticamente areia nas praias. Perderam total valor — comentou o rapaz, vendo que o pesquisador balançava a cabeça, compreensivo.
— Não me refiro a esse lixo do mar. Falo das Pérolas Sagradas.
— Sagradas? — perguntou intrigado.
— Se eu lhe disser, promete que não conta para mais ninguém?
— Não sou bom com segredos. Eu provavelmente vou falar para os meus amigos.
Erlenmeyer estava para dizer algo, mas pareceu não se importar.
— Justo. Preocupar-se com seus amigos antes de todo o resto. Não se preocupe, os meus amigos também estão ouvindo nossa conversa de qualquer maneira — ele olhou para os lados, só para ter certeza que não havia mais ninguém ali presente.
O doutor enfim saiu da cela, caminhando em direção do rapaz de um jeito meio encurvado. De relance, Ralph notou que não se tratava de uma escrita, e sim, desenhos. Os círculos deveriam ser as pérolas, cada uma delas era localizada em um ponto cercado de cálculos e potenciais localidades. Tratava-se de um mapa improvisado, com detalhes minuciosos que nem mesmo o mais atencioso dos cartógrafos teria lembrado.
Erlenmeyer chegou bem perto de Ralph e começou a falar, mexendo suas patas com dedos compridos, cada qual com quatro garras afiadas na ponta. Ele precisava usar as duas para contar o número cinco. Era como se o pesquisador já pudesse sentir as tais pérolas ali.
— Cinco são as Pérolas Sagradas. Cinco são os guardiões que as protegem. A Ordem do Selamento é como se intitulam. Durante muitos anos estudei a raça dos tótines, aberrações detentoras de poderes sobrenaturais e que esperam tê-la só para si: a mana, a magia universal que permeia o cosmo — contou o doutor, a voz soturna, erguendo as mãos no ar como se fosse capaz de tocar tal energia invisível. — Os tótines são a raça que interliga o mundo espiritual e o carnal. Eles roubaram toda a magia do mundo e, por isso, julgam-se donos dela. Eu preciso recuperar essas pérolas justamente para fazer com quem todos tenham acesso ao que nos é de direito.
— Por que elas são assim tão importantes? — Ralph repetiu intrigado.
— Dizem que as pérolas podem invocar o Mago Supremo do Reino de Sellure, uma entidade capaz de realizar sonhos, desejos e vontades; um xamã com poderes que fogem à nossa compreensão.
“Antigamente, as pérolas estavam ligadas à força fundamental da vida. Costumava-se dizer que quando uma perdia totalmente o brilho, era um presságio da morte. Estudiosos desenvolveram meios de drenar a mana e colocá-la em objetos, na época as pérolas foram os instrumentos escolhidos antes de começarem a usarem selos por sua praticidade. Nunca me conformei com a ideia da magia ser limitada, durante anos estudei até descobrir que existe um motivo para que ela tenha sido herdada geneticamente por essas criaturas. Eu estudo ciência para explicar o que muitos não compreendem.”
Erlenmeyer avançou contra Ralph, praticamente subindo em uma parede e o encarando de cima.
— Você as buscaria? Buscaria para mim? Eu seria muitísssssimo agradecido. — O som veio carregado vindo de sua língua bífida.
— T-tudo bem — Ralph concordou, não sabendo se estava mentindo ou falando sério. — Onde podemos encontrar essas pérolas sagradas?
— Myriad — o pesquisador apontou para os desenhos na parede e bateu três vezes.
Ele subiu imediatamente pelas escadas em direção do depósito, indicando que Ralph também o acompanhasse. Continuou subindo até a sala do capitão onde Ralph estivera minutos antes. Erlenmeyer revirava gavetas e baús em busca de algo com extrema euforia.
— Onde eu deixei? Onde está? Ah, aqui está.
O pesquisador apresentou um mapa detalhado de Myriad, uma região a sul da província onde se encontravam. Ficava entre Century e Helvetica, Ralph passara por essas terras em sua viagem de trem até a Vila das Pérolas. Erlenmeyer começou a desenhar marcações no mapa, lugares que não faziam sentido algum no momento, símbolos e marcas indecifráveis.
Assim que terminou, entregou o papel amarelado nas mãos do rapaz e aproximou-se da mesa central, arrumando acessórios e pequenos adereços que estavam fora de seu lugar, parecendo sofrer de alguma espécie de toque.
— Eu deveria investigar cada um desses pontos que o senhor me indicou?
— Sim, sim. Minhas pesquisas mais recentes indicam que os guardiões estão nessas proximidades... Com as Pérolas Sagradas em mãos, terei poder para me encontrar com o Mago, e talvez até mais — contou o doutor, ainda apreensivo. Ele agia como se tudo ao seu redor o incomodasse, ajeitava cadeiras e limpava onde já estava limpo, mesmo que nada daquilo fosse seu. — Estarei na principal cidade de Myriad em breve, então peço que me encontre lá quando as tiver em mãos. Procure pela semente. Ela irá guiar-lhe até a árvore.
— Também estamos indo para lá, eu e minha equipe poderíamos acompanha-lo, e...
Não — Erlenmeyer gritou, o que causou certo espanto no garoto. — Eu não ando junto de... pessoas. Não gosto delas. Trabalho melhor sozinho.
Ralph concordou com a cabeça, ainda desconfiado. Olhou para o mapa e refletiu sobre a proposta, era a primeira grande missão que alguém colocava em suas mãos.
— Resumindo: o senhor sugere que eu saia em uma jornada maluca, derrote cinco guardiões poderosos e encontre as pérolas para você invocar um mago de título bacana que realiza os desejos das pessoas.
O Doutor Erlenmeyer confirmou com a cabeça. Gostava de crianças que aprendiam rápido.
— Não podemos sentar e esperar a boa vontade de uma força divina que foge à nossa compreensão. O mundo precisa de mudanças.
Ralph dobrou o mapa e guardou-o no bolso da calça.
— Eu aceito. Vou só conversar com meus companheiros de equipe e ver quando podemos partir para Myriad. Se quiser, acho que podemos tomar um café qualquer dia desses e você me explica de novo qual a pegada desses símbolos confusos no mapa, porque pra ser sincero eu não entendi praticamente nada...
Quando Ralph se deu conta, estava falando sozinho.
Olhou o cômodo, mas não havia sinal do Doutor Erlenmeyer, apenas folhas e rabiscos jogados ao vento. O jovem correu para fora da cabine, viu as ondas batendo forte no casco do navio e imaginou se o pesquisador sinistro não havia decidido pular. Sua cabeça estava num turbilhão tão grande de ideias que Ralph olhou para baixo e, sem pensar duas vezes, pulou também.
          Seria uma pena se ele não soubesse nadar.



i


— Ei, fêmea. Não é o Ralph naquele barco?
— Não enxergo muito bem de longe, lagartixa... Mas acho que é sim.
— É a minha impressão, ou ele vai pular?
— Ele não sabe nadar.
— ...e pulou do mesmo jeito.
Não demorou para que Auria arrancasse a jaqueta, disposta a salvar seu amigo mais uma vez. Saltou do píer e mergulhou nas águas profundas à procura de Ralph que se debatia e gritava. Agarrou-o com força para que não se afogasse e logo o levou para fora onde Lesten e alguns outros geckos curiosos observavam a cena.
— Qual é o seu problema? — Auria gritou, debruçada sobre o corpo molhado do rapaz estendido na areia. — Por um acaso você tem alguma afeição romântica pelo perigo?
— Depende, seu nome é perigo? — Ralph brincou e até Lesten teve de rir, pelo visto já estavam todos recuperados. — Pessoal, vocês não vão acreditar! Eu vi um sujeito esquisito, ele conversou comigo e disse umas coisas estranhas sobre pérolas, guardiões e um mago capaz de realizar desejos, depois desapareceu, e...
Lesten deu dois toquinhos no ombro de seu companheiro.
— Shhhhh... Já passou. Tu acaba de ser nomeado o novo mentiroso da turma.
— Concentre-se — Auria falou, olhando fixamente para Ralph. — Explique melhor seus pensamentos, o que você descobriu que o deixou tão alvoroçado?
O jovem olhou para a fragata onde estivera e começou a juntar as peças que estavam espalhadas pela mesa. Aos poucos elas foram se encaixando com perfeição.
— Acho que eu acabo de descobrir o nosso destino.

Com os piratas presos pela marinha, metade das riquezas de Goldo foram confiscadas e serviram para consertar os danos na ilha. Uma parcela mínima terminou nas mãos dos aventureiros como forma de agradecimento — ao menos, a estadia na pousada saiu como cortesia.
O grupo decidiu ficar no Escama Azul que os recebeu de muito bom grado pela proteção. Era por volta das seis da tarde e o céu laranja cobria, oferecendo uma linda visão sem fim do horizonte distante. Passariam a tarde repousando, mas Lesten tinha de continuar escondido dos oficiais que não gostariam nada de vê-lo dando as caras na cidade. Os humanos, principalmente os turistas que alavancavam o comércio na ilha, eram muito bem vindos. Ralph e Auria foram recebidos como heróis.
Ralph estava deitado na cama, refletindo sobre o que ouvira do Doutor Erlenmeyer. As palavras do pesquisador e o mapa oferecido, fruto de pesquisas e discussão com seus cinco pontos delimitados. O que significariam? Quais seriam os grandes tesouros? A busca era como caçar um dragão — todos sabiam que existiam, mas ninguém nunca mais viu um.
— Ei, Auria... Você já foi para Myriad?
— Uma vez passei as férias em uma casa de campo com minhas irmãs — explicou a mulher, apoiada na varanda do quarto enquanto apreciava a vista —, pude ver tudo de relance, mas é a região com os melhores climas do reino. O turismo é muito forte.
— Só que não é o melhor lugar para se viver — falou Lesten com uma barra de chocolates inteira entre os dentes, atacando o frigobar do quarto e levando tudo que encontrava ali dentro, ignorando o fato de que teria de pagar mais tarde. — O clima é uma espécie de transição entre o excessivamente úmido e demasiadamente seco, com intensas variações. Tenho a impressão de que não seria o melhor lugar para um gecko viver. Estas mudanças súbitas afetam minha espécie.
— Bem, é para lá que estamos indo.
Auria virou-se para Ralph com as sobrancelhas franzidas. o clássico sinal de que discordava de algo.
— E por que o senhor aventureiro decidiu ir para Myriad?
— Nós temos um novo objetivo lá.
— Outro? — Auria deu de ombros. — Nosso plano não era construir uma base e prestar serviços?
— Pensei que fosse sair correndo sem pagar a conta — murmurou Lesten.
— Estamos em uma situação delicada aqui na Ilha dos Geckos — contou Ralph. — Depois do ataque dos piratas, os portos redobrarão a atenção para cima de qualquer embarcação, principalmente de humanos. Estão de olho na gente. A única opção seria voltarmos para a Vila das Pérolas.
— Estou começando a achar que eu nem deveria ter saído de lá — disse a moça com um suspiro.
Auria percebeu que foi rude de sua parte. Ralph ficou muito chateado com o que ouviu.
— Desculpe. Sei que até agora só estamos sendo jogados de um lado para o outro, mas pela primeira vez eu sinto que estou perto de encontrar alguma informação sobre o viajante misterioso que procuro. Você me acompanhou até aqui, Auria. Mal saímos da primeira fase, mas peço que não desista. Eu preciso de você ao meu lado.
Ralph levantou-se da cama e caminhou em direção dela, ficando ao seu lado na varanda. O céu alaranjado cobria as luzes das ruas que começavam a serem acesas, a calçada que dava para o centro já estava cheia e movimentada de geckos de todas as cores e tipos. Lá longe era possível ver um cruzeiro chegar, tão grande quanto um monstro marinho. Ele respirou o ar salgado do litoral, ouviu o barulho das ondas e sentiu cada espaço de um mundo que nunca teria tido a chance de conhecer se não tivesse arriscado.
Auria o puxou pela gola da blusa, seus rostos muito próximos e os narizes quase se encostando. Ralph encarou com firmeza aqueles olhos verdes profundos, as pupilas dilatadas como obsidianas. Tentou entender todas as emoções que se passavam dentro dela, mas algo o impediu. Já era o segundo pôr-do-sol que via ao seu lado e esperava ter a chance de ver outros. Auria enfim o largou e sorriu em resposta.
— Você me enfiou nessa aventura, então é bom que tenha algo do qual eu me orgulhe no final, porque quero ter lembranças que valham a pena.
— Myriad — o jovem respondeu com convicção. — Eu prometo que você nunca mais vai esquecer essa viagem!
— Se você diz — ela respirou fundo e soltou o ar calmamente. — Explorar o desconhecido sem nem saber por onde começar. Só você mesmo para me levar nessas ideias malucas, novato.
Quando uma proposta surgia, por mais arriscada e ousada que parecesse, Auria aprendeu que não pensaria duas vezes em agarrá-la e fazer dela uma oportunidade. Agia assim desde que conhecera certo garoto de cabelos vermelhos não fazia nem uma semana. Mas Lesten ainda não pensava da mesma maneira, odiava ser tirado de sua zona de conforto.
— Calma aí. Ninguém falou nada sobre viajar, eu não vou deixar a Ilha dos Geckos. O mundo lá fora é cruel e perigoso, tu não sobrevive nem um dia sem que uma desgraça aconteça. E do jeito que sou azarado, vai ser comigo!
— Isso pode até ser verdade, mas se você ficar trancado em casa vai perder inúmeras oportunidades e perceber que no fim teria sido melhor tentar. Veja o mundo com seus próprios olhos — falou Ralph, já com sua mochila nas costas.
Lesten se contorcia no chão.
— Não quero. Já vi demais do mundo para querer voltar para ele.
— Você é preguiçoso, isso sim — Auria o desafiou.
— Tu tá certa, fêmea! Minha preguiça me impede de viver, foi-se a época em que eu era um guerreiro nato, veja a minha barriga, estou fora de forma...
— Nós iremos para Myriad de todo jeito — falou Ralph. — Espero que amanhã você tenha se decidido.
— Me obrigue.
— Vamos te amarrar enquanto dorme, jogar num saco e leva-lo embora contra sua vontade.
Lesten ficou bem pensativo quanto à proposta.
— Ah, vou pensar no assunto...
Os três riram e concordaram. Cada um ficou na sua, isolados em cantos do dormitório sem puxar assunto ou dialogar sobre suas vidas, como se fossem completos desconhecidos. Já estava escurecendo e eles aproveitariam para recuperar as energias gastas, porque uma longa jornada os aguardava.

ii

Era bem cedo quando Ralph despertou. Não fazia nem um dia que haviam chegado à Ilha dos Geckos e era triste ter de despedir-se dela tão depressa sem aproveitar um pouco do paraíso e sua cultura tão exótica. Desceu a escada rumo à recepção para verificar a disponibilidade de um navio que voltasse para o continente, o único que faria uma travessia até Myriad só chegaria após as duas da tarde, logo, teriam de esperar.
Aproveitaram para reunir pertences, malas e provisões. Dentro de algumas horas um navio cargueiro estaria partindo para a Ilha-S, seria uma excelente oportunidade para alcançarem Myriad. O grupo tomava o café da manhã tranquilamente no andar inferior quando puderam ouvir certo movimento vindo do andar de baixo. Os soldados da marinha local bateram a porta e foram direto para a recepção e dessa vez não estavam à procura de piratas.
— Bom dia — o oficial falou com a atendente —, poderia informar-nos se Lesten, o Perturbador, encontra-se hospedado neste local? Ele não tem o direito de se aproximar do centro, é acusado de quebrar duas cabanas, levar frutas do mercado e causar problemas em cinco pontos fixos da ilha. Nós o interrogaremos assim que o encontrarmos e o levaremos sob custódia.
Lesten não perdeu tempo. Agarrou as mãos de seus amigos e pulou pela janela, correndo de telhado em telhado a todo vapor.
— Quando foi que você arranjou tempo para fazer tudo isso? — Ralph perguntou assustado.
— Deve fazer uns seis meses. Esses caras não perdoam nada! — Lesten resmungou.
O lagarto pegou embalo no teto de palha de uma casa, escalou paredes e hastes altas para escapar dos soldados da frota que os perseguiam. Carregava seus amigos com uma facilidade incrível em suas costas, mas eles não diriam o mesmo de segurar-se. Movia-se feito uma lagartixa por paredes íngremes, esgueirando-se em cantos e despistando a todos como um belo fugitivo. Os funcionários correram pelas ruelas afora enquanto gritavam:
Ele está ali, peguem-no!
— Trouxas! — ele ria com gosto. — Eu vou dar é o fora dessa ilha, nenhum de vocês merece a honra de pisar no mesmo solo que o grandioso Lesten!
Geckos trajados em uniforme saíram carregando suas lanças, espadas e machados; mas Lesten era tão rápido que eles logo ficaram para trás, no tumulto do cais.
O grupo voltou para o píer onde travaram a batalha contra Goldo e o Dinorros. Lesten carregou seus companheiros até embaixo da ponte, mas o navio cargueiro não havia chegado ainda. Viram que a fragata apreendida ainda se encontrava no mar e uma ideia veloz percorreu pela mente dos três.
— Não, não e não. Nós não somos ladrões, não vamos roubar um barco desse porte — disse Auria, indignada.
— Roubar?! A ação mais comum entre geckos é pegar algo emprestado e não devolver mais — respondeu Lesten. — Pense que é por um bem maior.
— Abaixem-se!
Todos se esconderam e os guardas passaram reto. Ainda não tinham conhecimento de onde estavam.
— Algum de vocês sabe algo sobre navegação? — perguntou Ralph.
Não havia perícia alguma entre os três. Se continuassem ali, seriam descobertos; se tentassem manejar uma embarcação daquele tamanho, corriam o risco de afundar ou ficarem completamente desnorteados e irem parar em uma ilha aleatória. Eles precisavam dar um jeito de chegar à Myriad o quanto antes.
Foi quando ouviram um apito forte vindo distante e imaginaram se não seriam mais reforços. Lesten estava amedrontado, Auria aproveitou para espiar e seus olhos foram direto ao encontro do que poderia ser a chance perfeita de chegarem ao seu destino com extrema velocidade e precisão.
— Rapazes, o que acham de andarmos de trem?
Lesten abriu os olhos. Um novo raio de esperança surgia.
— Mas é claro! O Trem das Águas liga todas as oito províncias do reino e está sempre passando por aqui. Que sorte a nossa!
— O que devemos fazer para alcança-lo? — a moça perguntou.
— Tá vendo a estação ali? — Lesten apontou longe. — Se a gente correr, dá pra entrar a tempo.
— Então é só isso? Correr? — Auria perguntou e o lagarto revelou uma risada assustadora, balançando a cabeça de forma positiva.
— Correr muito.
Os grupo saiu em disparada, o que logo chamou a atenção dos oficiais que mais uma vez voltaram a persegui-los — e mesmo que Auria e Ralph não tivessem nada a ver com a história, só eram perseguidos porque estavam correndo também. Eles correram o máximo que puderam, Lesten na dianteira, Ralph em seguida e Auria mais atrás. O lagarto deu um pulo e passou pelos caixas sem pagar. Ralph parou, retirou algumas moedas do bolso e deixou com o atendente da estação antes que Auria o agarrasse pela gola da blusa e o arremessasse dentro do trem que partiu poucos segundos depois.
Os oficiais foram parando de correr e nem se preocuparam em impedir que o transporte aquático de seguir viagem. Lesten estava lá dentro completamente ileso, sentiu-se um vencedor. Já longe fazia caretas e lhes mostrava o dedo do meio — ou melhor, geckos só possuíam quatro dedos, então era difícil dizer ao certo o que aquele gesto significava para eles, mas era ofensivo.
— Idiotas. Nunca vão me pegar!
— É bem provável que não mesmo, afinal, por que eles trariam de volta alguém que já está se exilando por conta própria? Nós fizemos um favor para essa gente — respondeu Auria com uma risada, sentando-se nos assentos confortáveis para enfim descansar.
O pobre lagarto continuou olhando as pessoas no porto e parecia que elas realmente comemoravam. Virou o rosto e ignorou. No fundo estava feliz por finalmente ter criado coragem e abandonado a terra de seu povo que tanto o odiava, levava consigo apenas o que importava e sentia um imenso peso desprender-se de seu coração. Era a chance de recomeçar do zero.
— De agora em diante, vocês se responsabilizam inteiramente por mim, ouviram? — Lesten apontou para seus companheiros. — Eu exijo três refeições ao dia, um local confortável para dormir e manhãs com sol agradável para me aquecer.
Auria apoiou-se nas janelas e viu de longe o grandioso Dinorros no extremo sul da ilha, comendo frutas e árvores suculentas de uma vez com seus bracinhos miúdos. Olhou-o de longe e desejou toda a sorte do mundo para a criatura que a fascinara tanto. Apoiou a cabeça sobre a janela e soltou um longo suspiro que foi compartilhado com seus companheiros.
— Será que nós vamos encontrar outros monstros incríveis como ele por aí? — perguntou Auria.
— Myriad é conhecida por ser um dos paraísos dessas criaturas. Existem regiões mais antigas em Sellure do que podemos imaginar, mas os oceanos e montanhas são inexplorados e repletos de mistérios. Creio que encontraremos alguns bem poderosos daqui para frente — disse Lesten.
Ralph correspondeu com um sorriso.
— Prontos para enfrentá-los?
— Espero que o mundo nos receba bem — a moça continuou.
A viagem duraria até a manhã seguinte, o trem avançava depressa e o momento de descanso veio em boa hora. O vento soprava pelas janelas com a velocidade inalterável, abrindo ondas em meio ao oceano quase como se deslizasse; seguia uma trilha enorme forjada em águas rasas, eles contornariam a região deixariam a província de Century para entrar em um novo território, rumo a uma das maiores capitais do reino também conhecida como a cidade dos intelectuais, pesquisadores e acadêmicos.
Um novo arco estava para se iniciar.


        

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