segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Aika - A Canção dos Cinco [Resenha]

"Gattai é um mundo fantástico assolado por estranhas catástrofes naturais e uma interminável guerra entre as raças que o habitam. Em meio ao caos, surge um guerreiro com asas de Fênix destinado a trazer o equilíbrio entre a natureza e suas criaturas. Porém, ele foi amaldiçoado por um terrível demônio que devora sua alma. A única pessoa que pode salvá-lo não pertence à Gattai, e sim ao nosso mundo: Aika Akatsuki dos Anjos, uma estudante japonesa mestiça, nascida no Brasil e grande fã de histórias de magia e fantasia.

A jovem que enfrenta diariamente a dura rotina de estudos e discriminação por sua ascendência vê sua vida transformada com a descoberta da existência de Gattai e de seu grande ídolo. E para salvá-lo, ela terá que enfrentar seus medos, atravessar um portal mágico, lutar contra terríveis criaturas… tudo isso sem ser reprovada no ensino médio. Aika voará em dragões, aprenderá o que é realmente uma guerra e lutará para salvar o herói não apenas de grandes inimigos, mas de si mesmo."

Autor(a): Lúcia Lemos
Idioma: Livro Nacional - Português
Lançamento: 1º edição, Setembro de 2017
Altura e largura: 23 x 15,5 cm
Número de páginas: 368
Publicação Independente

Por que escolhi essa obra?

Antes de mais nada, peço desculpas a quem prefere uma resenha mais direta. Há muitas postagens ótimas que conseguem captar e resumir a essência desse livro, mas quem me conhece sabe que acabo me prologando — às vezes demais da conta , mas sinto que é o mínimo que eu poderia fazer pela autora que se dedicou tanto nessa obra.

Quem é autor nacional sabe das dificuldades que encontramos para colocar nossos livros nas estantes de uma livraria. As chances de alguém estar passeando por aí e simplesmente querer levar uma obra nacional sua ao invés daquele best-seller maneiro que todos os amiguinhos da escola estão falando são... quase nulas. Por isso, o autor é o maior responsável por sua divulgação, e uma das ferramentas mais poderosas que temos hoje em dia é a internet, seja através do facebook, instagram ou youtube.

Faço parte de um grupo chamado Sociedade Secreta dos Escritores Vivos no facebook que vem crescendo consideravelmente. Acabei esbarrando em Aika, mas eu dificilmente saberia de sua existência se a autora Lúcia Lemos não tivesse divulgado seu trabalho. Às vezes temos a impressão de que não adianta nada fazer aquele post que quase ninguém vai curtir, mas nós nunca sabemos quem pode estar olhando, vai saber não era exatamente o que um leitor de fantasia estava procurando?

Quando vai ser publicado? Onde posso comprar?

O livro será publicado na Bienal do Rio de 2017, que vai acontecer em Setembro, mas a autora abriu a pré-venda de algumas unidades e ofereceu também pelo Mercado Livre. Como minha lista de leituras esse ano está meio decepcionante, tratei logo de encaixá-lo no topo.

O valor total foi de 35 reais, 25 do preço de capa e 10 de frete, ou seja. Devo dizer que para um livro com esse tamanho e qualidade o valor foi excelente, a maioria fica em torno de 50 reais se contarmos o frete. Eu recebi o meu autografado e com uma pequena dedicatória, devorei o livro na mesma semana que o recebi!

Capa, Design e Editoração

Lúcia Lemos dá uma verdadeira aula de como produzir um livro para muitas editoras, sejam elas pequenas, médias ou até as grandes. Juro que já comprei obras nacionais onde a sinopse estava ilegível, com capas feitas através de fotomontagem no nível do "filho do vizinho que mexe no Photoshop". O trabalho da autora não terminou quando ela acabou de escrever, Lúcia ainda ilustrou a capa, fez o projeto gráfico e trouxe mais de quinze páginas ilustradas.

Já emendando o assunto sobre a capa, repare no cuidado com as cores  o roxo traz a ideia do abstrato, uma ideia muito presente no livro; causa o efeito de calma e sensatez no cérebro. Já o laranja dá ideia de mudança, expansão e dinamismo. Não precisou centralizar o herói, não precisou colocar uma mulher de vestido bonito e nem fazer a capa parecer um daqueles filmes medievais de baixo orçamento. É clean, atraente e agradável aos olhos.

Logo nas primeiras páginas temos um mapa, mais uma cortesia da autora. E quem não gosta de folhear um livro novo, ainda envolvido em plástico? Pedi o meu pelos correios e folheei a obra inteira de cara, mas as ilustrações não denunciaram o roteiro ou estragaram alguma surpresa, pelo contrário, elas incentivam o leitor e despertam o interesse dos mais curiosos a chegarem o quanto antes naquela cena.

Vamos falar um pouco sobre a fonte agora. Retirei um pequeno traje da página da autora no behance:

Utilizei a fonte "Fontin" para os títulos, devido aos seus terminais semelhantes aos caracteres asiáticos e a fonte "Crimson" para o texto. A Crimson tem uma ótima leitura e grande altura x, podendo ser usada com o corpo menor, a fim de diminuir o número de páginas e baratear o custo do livro. Ambas as fontes são gratuitas para uso comercial."  Lúcia Lemos.
Em design gráfico, temos aulas de tipologia e aprendemos sobre letras e caracteres, serifas, onde devem ser usadas e como foram feitas. Cada fonte deve ser usada em ocasiões específicas. Um exemplo é que a maioria opta pelo Times New Roman, mas não sabe que essa fonte é adequada para leitura rápida em impressos e espaços compactos como uma coluna de jornal, visto que a fonte surgiu em 1931 para uso no jornal Times. Mais um exemplo de que a autora sabia bem o que estava fazendo.

Processo de construção da capa do livro. Link original para o perfil da autora: https://www.behance.net/LuciaLemos

Trabalhar com narrativa visual é uma ótima forma de atrair leitores, mas também ousada. Há quem não goste do estilo de mangá, mas Lúcia nos apresenta o universo de Gattai e seus personagens com tanto carinho que é impossível não nos apegarmos a eles do jeitinho que a autora os imaginou.


Sobre a Obra e a Autora

Aika - A Canção dos Cinco é o primeiro livro de uma história que começou no Wattpad. A autora recebeu um ótimo feedback do público e investiu nesse sonho, na data em que essa resenha foi publicada Aika já contava com mais de 70 mil acessos. Apesar de estar disponível online, muitos leitores se interessaram na compra do livro físico, afinal, quem não se apaixona por aquele cheiro de papel e livro novo?

Desde o momento em que conheci Aika eu senti que seria algo no estilo que eu gosto. Há tempos eu procurava uma fantasia que não se prendesse em uma mitologia complexa, que não usasse nomes retirados direto do "gerador de nomes fantásticos" e que não fizesse uso de raças que já conhecemos bem.

Eu queria mergulhar de cabeça em um universo novo, há tempos eu não ficava tão curioso para saber mais de um, mas Gattai me conquistou. É como ouvir todos seus amigos falarem daquele anime novo que só você não assistiu.

A premissa é, no mínimo, interessante para qualquer fã de mangás, HQs e literatura fantástica — "Se seu herói e o mundo dele existissem, se tal mundo estivesse correndo um grande perigo, você lutaria com ele e por ele? Você lutaria para salvá-lo?"



Certa vez, li em uma postagem que um bom mangá shonen precisa:

1. Um Mundo em que o leitor possa entrar facilmente;
2. Uma razão clara e aceitável pela qual o personagem principal luta;
3. Uma batalha e ataques legais que sejam fáceis de se compreender o que está acontecendo;
4. Um inimigo tão carismático ou ainda mais carismático que o protagonista;
5. Se possível, é bom que tenha uma heroína bonita;
6. Cenas engraçadas e outras dramáticas.

A autora nos apresenta cada um desses elementos na medida certa. No começo, somos apresentados à rotina de Aika Akatsuki dos Anjos e sua vida no Japão. Ela é natural do Rio de Janeiro e sabemos como os japoneses não enxergam os "gaijin" com bons olhos. Estudei a vida toda em uma escola com 80% de japoneses, e eles se fecham em pequenos grupos. A ideia de formar grupos é natural do ser humano desde o tempo das cavernas, mas vemos que para uma garota morena que tenta a sorte na terra do sol nascente isso pode ser um verdadeiro desafio. Aika chega a sofrer bullying por sua cor de pele, por um instante achei que houve até certo exagero, mas trata-se de uma etapa importante para formar a personalidade da personagem e seu laço com o mundo real e o fictício. Há poucos fios que a prendem à realidade da terra — se Aika tivesse a oportunidade, ela com certeza viveria no mundo de seus mangás e animes e esqueceria todo o resto.

Sou descendente de japoneses e também curto muito mangás e animes. Essas histórias nos permitem mergulhar num mundo fictício, existe uma progressão da jornada que é a maior responsável por nos fazer apegar-se tanto a eles. Muitos mangás duraram mais de 10 anos  alguns como One Piece ainda estão em andamento —, então não é de se impressionar que uma geração inteira tenha crescido com eles, essa histórias surpreenderam leitores no mundo todo a cada capítulo. A autora criou um mangá tão bem construído dentro de seu próprio universo que é como se ele também existisse na vida real.

Existem muitas notas de rodapé para explicar a origem de palavras da cultura japonesa, cada detalhe é bem explorado de forma que não pareça que a autora simplesmente escolheu o Japão por gostar dele sem conhecer nada do país. É preciso muito estudo para nos aprofundarmos nos assuntos que não conhecemos, de modo a tornar a experiência mais imersiva.

A história se aprofunda conforme a aventura avança. Aika encontra uma forma de viajar para Gattai, o mesmo mundo que seu herói, e ela se conecta a ele de tal forma que sua vida nunca mais será a mesma. No começo, sentimos o mesmo que a protagonista e é difícil absorver tanta informação, mas Aika serve como ponte entre os dois mundos  autor e leitor.

Por vezes achei engraçado que narrativa é carregada de indignação em certos momentos, são claras as alfinetas ao mercado de mangás no Japão e à grandes produções que exageram no fanservice, colocando as mulheres como objetos. Há também a ideia de uma "origem pura", como o fato da protagonista ser mestiça e vista com maus olhos pela maioria da população japonesa, o que passa uma mensagem de luta contra esse preconceito tanto em Gattai quanto na terra.

A espiritualidade é outro fator muito forte no livro. Quando falamos de mortos e espíritos, trata-se de uma crença comum na cultura japonesa, tal ideia foi demonstrada de maneira notável, a autora explorou o que pode ser compreendido como a religião de Gattai. Deuses, espiritualidade, visões e vida pós a morte fazem parte da fantasia do livro, explorada com muito cuidado em cada palavra de forma comovente e concedível.

Eu diria que a autora é autêntica, ela faz as coisas do seu jeito. Há quem critique alguns detalhes, eu particularmente não sou fã de "PUF! BOOOOM! WAAAAAAH!", mas no contexto dessa obra funcionou, porque é como se fosse um mangá carregado de onomatopeias exageradas. Quanto à revisão, percebi alguns erros de digitação que poderiam facilmente ser consertados numa futura revisão. Vi também muita gente reclamar do uso excessivo de exclamações como alguns leitores citaram, mas, falando sério, nenhum desses problemas afetam em nada a qualidade geral da obra.

Sobre os Personagens
Os protagonistas de Aika - Imagem original no Devianart da autora:
http://lucialemos.deviantart.com/art/Aika-special-647580782
Essa parte com certeza merece um tópico separado! Os personagens de Aika são, sem sombra de dúvidas, um dos pontos mais altos do livro.

Começaremos por Aika, uma protagonista extremamente bem construída que segue evoluindo por todo o livro, cada sentimento seu mexe com o nosso. Ela é muito bem trabalhada desde a primeira página, conhece tudo sobre o mundo de Gattai ao mesmo tempo que precisa "reconhecê-lo", só que dessa vez como parte dele. É muito importante que um livro de aventura tenha um personagem que evolui conforme a história avança, muda de alguma forma. Eles podem se tornar melhores, mais fortes ou piores, por isso é tão interessante tê-la no comando.

Por serem personagens de um mangá popular, é como se todos eles já fossem figurinhas já conhecidas do leitor. Apesar da dupla principal ser formada por Aika e Kurikara, temos o suficiente de Riko e Iruka para nos apegarmos. 


Riko é linda, o tipo de mulher forte que adoro nas histórias. Ela lembra muito a Auria, uma das personagens aqui do Reino de Sellure, pois carrega a determinação para liderar e batalhar por um mundo melhor. Ela é forte e decidida. Uma cena que gostei muito é quando Kurikara diz ver uma imagem ecchi dela no mangá numa cena de banho. Como será que um personagem reagiria se soubessem que são tão sexualizados? Ficariam bravos, envergonhados? Detalhes pequenos como esse fazem toda a diferença no ritmo da história livro, é como um momento de descontração.

Por sinal, as cenas em que eles simplesmente voltavam para a terra para falar sobre o mangá foram ótimas, eu particularmente adoro esses momentos tranquilos mais do que sequências de batalhas e fico feliz que a autora tenha utilizado essas cenas que funcionaram como transição para o próximo arco que se iniciava. Enquanto Aika defendia o mundo de Gattai, ela também precisava tirar um tempo para estudar para a próxima prova de matemática *risos*

Você é um espírito que busca a paz, movido por ideais de amor e compreensão. Movido pela paixão dos que lhe são caros, mas ferido por tantas perdas. Mesmo assim, você persiste na sua fé, lutando pelo mundo que ainda o nega. — p. 303
Outra coisa que eu adorei na história  não existe um casalzinho formado. Aika pode ser apaixonada por Kurikara, afinal, ele é o herói do seu mangás predileto mas isso não significa que ela fará tudo para derrubar qualquer outra que tentasse chegar perto dele para tê-lo só para si. Kurikara também teve duas ou três cenas com Riko, e mesmo que o livro não nos mostre seu passado, eles compartilham de um carinho enorme. Riko também pode ter um "shipping" com Iruka, aquele clássico estilo do cara brincalhão e a garota severa. São tantas opções que a autora não precisa jogar na sua cara: "Oh, o romance é entre esses dois e ponto final." Eles se comunicam com naturalidade, todos se respeitam (dentro do possível, claro, até porque Iruka é um mestre fazer piadas fora de hora e provocar seus amigos com piadas sobre seios. Isso não poderia faltar num mangá, certo? *risos*).

Os vilões que conhecemos no primeiro livro foram bem construídos, eu adorei o bestiário nas últimas páginas e a maneira como Yami-no-Yaku continua sendo uma sombra, um mistério insondável. É incrível a maneira como somos apresentados aos "generais" do inimigo e fico feliz que eles ainda possam voltar a dar as caras no futuro. Algumas contas ainda precisam ser acertadas.

E o que dizer sobre a cena final? A imagem ao lado foi um dos momentos mais emocionantes que compartilhei com essa obra, digna de um final de temporada. Sou sensível a abraços entre amigos e foi um verdadeiro deleite poder contar com uma ilustração para extrapolar de vez os sentimentos. M
eus parabéns à autora pelo trabalho, você colocou seu coração nessa cena!

O universo de Gattai é enorme, promissor. Como num mangá, nos resta esperar que a autora continue se dedicando a obra e que possamos chegar ao desfecho da jornada desses protagonistas tão carismáticos. Você pode acessar o blog da autora, que inclusive um de nossos parceiros. Segue o link:



Considerações Finais

Aika é uma das obras nacionais de fantasia mais incríveis que já tive o prazer de conhecer — e por completo acaso. Esse livro representa a história de uma garota que teve um sonho de infância e lutou para torná-lo real. Com Aika você ri, se diverte, sente raiva, ainda recebe uma pequena aula sobre a cultura nipônica e se diverte com o universo às vezes tão excêntrico dos fãs de mangá.

Me emocionei como há tempos não acontecia, um único livro conseguiu causar uma enxurrada de emoções. A qualidade da obra é surpreendente, mérito da própria autora em publicar um livro independente num país onde tudo relacionado à cultura é mais difícil. O conjunto como um todo, desde a capa,  ilustrações, a escolha das fontes e diagramação é sem sombra de dúvidas um dos melhores trabalhos gráficos que já vi numa publicação independente e deixa muita obra famosa no chinelo.

Aika me faz lembrar porque sou fã de mangás, porque me encanto com os personagens, com cenas de batalha explosivas e sentimentos extrapolados. Como já cheguei a mencionar, não há ninguém melhor no mundo para fazer a divulgação de sua obra do que o próprio autor. 

"O verdadeiro amor não prende. O verdadeiro amor liberta."



quarta-feira, 9 de agosto de 2017

O Passado dos Personagens - Lesten (Parte 1)


Seus dedos coçavam e os pés começavam a formigar. Suportar o peso todo daquela armadura não seria problema, mas a ansiedade em ter seu nome chamado a qualquer momento era difícil de aguentar, independente de quantas vezes já estivesse estado ali.
Cinco longas fileiras de soldados se organizavam eretos e com disciplina diante do palco principal do Palácio Central. Lagartos bípedes brandiam espadas, lanças e machados; seus elmos eram perfeitamente desenhados para cobrir o nariz alongado e deixar uma pequena fresta para que os olhos ficassem expostos como dois faróis. Batiam suas armas e equipamentos no chão com euforia, tinham uma forma diferente dos humanos para comemorar suas conquistas, pois aquele era um dia de vitória para os geckos. Lesten tinha motivo de sobra para comemorar mais do que qualquer outro — era uma conquista exclusivamente sua.
O barulho era tremendo e o brado de seus colegas do exército ecoava como um grito de guerra. O silêncio reinou instantâneo quando dois lagartos velhos subiram ao palco, ambos trajados com mantas finas que se estendiam até o chão, sendo seguidos por um porta-bandeira que carregava o símbolo da Fortaleza da Pedra Azul. Após um início de cerimônia chato e maçante, foram feitos anúncios e agradecimentos em nome de todos ali presentes. Finalmente chegou o momento das honrarias. O primeiro deles foi para um gecko muito alto e encorpado com escamas azuladas, seu nome era Pike. Aplausos foram ouvidos diante de sua entrada, seu cargo já era notavelmente superior ao dos demais e agora ele acabava de ser nomeado chefe da Guarda Real. Recebeu das mãos de seus superiores um elmo com asas na ponta, característica marcante do cargo junto da longa capa azulada com estrelas de prata. Bastava ver uma de longe para saber que ali estava um guerreiro em grande posição de respeito.
Lesten sentiu um dedo cutuca-lo na fileira de trás.
— O próximo é você, irmão.
O lagarto confirmou com a cabeça e respirou fundo.
— E agora, gostaríamos de convidar o soldado Lesten para que venha receber uma medalha por sua bravura e perícia na batalha pela defesa da cidade de Ribravos, estrategicamente posicionada ao leito do rio, colaborando assim para a proteção de nossas mais importantes torres de vigilância.
O estardalhaço foi tamanho que os oficiais tiveram de pedir que os soldados se comportassem, mas era difícil de segurar. Lesten era conhecido e adorado por todos os seus colegas, estava sempre presente nas confraternizações e era o primeiro na linha de frente a avançar e enfrentar o inimigo. Wester não tinha nem de perto a mesma fama, mas era a mente por trás de ótimos planos e estratégias, sua habilidade com uma espada o tornava uma ameaça a ser considerada. Não havia um gecko sequer que não conhecesse os Irmãos do Vento, onde espada e lança se encontravam.
O lagarto estufou o peito, empinou o nariz e foi seguindo pelo corredor que lhe fora aberto. Ainda podia ouvir seu irmão batendo palmas logo capatrás. No caminho, recebia congratulações e tapas fortes na ombreira, répteis por toda a parte comemoravam sua vitória. Estava dando um grande passo em sua carreira.
— Meus parabéns, meu bom amigo — disse-lhe Pike.
— Obrigado, capitão! — Lesten respondeu convicto, em seguida, murmurou baixinho perto de seu superior: — Só espero que você ainda possa participar de nossas confraternizações, seu lugar na taverna estará sempre reservado.
Terminada a cerimônia, Lesten voltou para o meio da multidão. O palco de apresentações localizava-se na área central da fortaleza onde todos se misturavam. Os geckos treinavam no leste, os humanos no sul, tótines a oeste e monstros no norte. Cada raça limitava-se à zona que lhe fora delimitada, pois nem toda criatura daquele reino gostava de misturar-se. Logo começaria uma cerimônia para os humanos, e aquilo de pouco lhe importava.
Wester o aguardava de braços cruzados, sentado embaixo do arco de pedra na transição entre as cidades. Ele e seu irmão eram muito parecidos, quando inventavam de misturar suas técnicas e armaduras ficava difícil de diferenciá-los no meio de uma luta, era como se fossem um só. Naquele dia, Wester usava uma armadura leve e móvel, além da fita vermelha presa ao braço direito, uma de suas maiores características.
— Bela medalha — falou o mais novo, apontando para o objeto dourado no peitoral da armadura de Lesten.
— Mais uma para a coleção. Já posso encomendar uma estante nova — divertiu-se o lagarto. — Mas, cara, entre nós agora... Tu não achou sacanagem terem te deixado de fora? É sério, quase que faço um discurso para reclamar disso. Qual é, somos os Irmãos do Vento, não se pode presentear um sem levar o outro de brinde.
— Dá um tempo — Wester falou, levantando-se. — Foi você quem fez tudo dessa vez, eu só fiquei na retaguarda. E bolei o plano inteiro.
— Se eu não soubesse que tu estava atrás, eu jamais avançaria.
Os dois irmãos seguiram juntos, desfilando pelas ruas de pedra azul. Soldados acenavam com cumprimentos no caminho, Lesten se sentia como um herói que era.
Ao chegarem aos dormitórios, Wester pegou a espada e seu irmão jogou-lhe sua lança, ambas as armas foram guardadas no pedestal até que seus serviços fossem mais uma vez requisitados. Ocasionalmente, trocavam seus equipamentos, pois não tinham preferência.
Lesten foi para a sala, onde havia um enorme quadro de medalhas na parede, todas perfeitamente protegidas por vidro e envoltas por um tecido vermelho que enaltecia seu brilho dourado. Havia precisamente dezesseis delas ali — agora dezessete —, das mais diferentes missões e tarefas realizadas nos últimos dois anos de serventia ao Reino de Sellure. Se continuasse naquele ritmo, logo uma parede não seria o suficiente.
— E aí, irmão. O que tu acha? — perguntou Lesten.
— Brilhante — respondeu Wester com sinceridade. — Poderia até cegar alguém.
— Tem como não sentir o impacto e a presença que essas coisinhas nos causam? O que tu acha que diferencia um soldado comum de um general do mais alto escalão? São essas medalhas, cara. O peito estufado, a compostura, o sentimento de quem merece estar ali, liderando as pessoas.
— E você acha mesmo que uma medalha é capaz de fazer tudo isso? Não viaja.
— Exatamente! Que parte tu não entendeu? A medalha é uma memória, ela representa a experiência que alguém passou para conquista-la, embutida com todo seu esforço físico e espiritual — Lesten explicou. — E afinal de contas, onde estão as suas?
Wester deu de ombros, insinuando que aquilo não fazia muita diferença.
— Qual é, tu tem vergonha das suas?
— Claro que não. Eu só não vejo motivo para ficar tão fissurado com uma chapa de metal pintada de amarelo. Não preciso deixa-las a mostra para me lembrar dos meus feitos.
Lesten mordiscou a medalha para ver se seus dentes deixariam alguma marca, comprovando assim sua autenticidade.
— Essa é de ouro mesmo. Não é pintada de amarelo.
Wester tentava não demonstrar, mas frequentemente era deixado na sombra do mais velho. Apesar do título “Irmãos do Vento”, somente um deles era o verdadeiro sucesso, a imagem da bravura em forma física, o lendário Lesten. Wester só estava ali para erguê-lo no alto quando conquistassem mais uma vitória.
Lesten decidiu fazer-lhe uma surpresa. Pegou uma caixa de madeira escondida debaixo no armário e a revirou em cima da cama, espalhando uma porção de itens e coisas sem valor para a maioria, mas que para eles era o tesouro mais precioso que poderiam encontrar.
— Eu não acredito que você guardou tudo isso — Wester vasculhava aquelas raridade com o entusiasmo de uma criança. — Caramba, a primeira ponta de flecha que te acertou na perna!
— Aquilo doeu pra porra.
— A primeira garrafa de uísque que tomamos juntos — Wester continuou. — E com assinatura!
— O fóssil que encontramos perto do Monte Rocha Sólida.
— A escama do maior peixe de água-doce do reino.
— O dente de um crocodilo selvagem. Ou será que esse era meu?
Os dois riram, pois agora eram como pesquisadores que fazem uma incrível descoberta.
— Cara, isso é incrível... — falou Wester, não encontrando palavras para definir o quanto aqueles objetos eram importantes para ele. — Mesmo depois de todo esse tempo?
— Quando eu digo que não sou nada sem você, eu não estou mentindo — Lesten forçou um sorriso, não escondia que também adorava a parcela mais peculiar de sua coleção. — Para a maioria, pode parecer apenas um monte de tranqueiras, mas eu sou um colecionador de memórias. Cada um desses itens significa alguma para nós dois. Ah, mas o que eu queria te mostrar mesmo era isso.
Wester reconheceu imediatamente a tampinha de garrafa. Quando ainda eram filhotes, um dia desafiou Lesten a acertar o alvo em uma árvore velha. A pontaria foi perfeita: ao invés da árvore, ele acertou um javali selvagem que passava por perto e garantiu o jantar da família. Wester se viu na obrigação de arranjar alguma forma de retribuir, se seu irmão era tão fissurado por medalhas, então ele fora o responsável.
— É a minha favorita — respondeu Lesten, observando a tampinha contra a luz, como se ela fosse banhada em ouro. — A melhor medalha de todas foi feita com uma tampinha de garrafa.
— E por que não está junto com as outras?
— Ah, sabe como é... Ela ficaria meio deslocada no meio de tantas douradas.
— Sei, sei.

Naquela noite, enquanto jantavam, puderam ouvir alguém na porta. Wester foi atender e deparou-se com Pike, o mais novo chefe da guarda real. Ele estava trajado em sua armadura completa, vestia o elmo e o manto azulado, carregava também um enorme escudo com o símbolo dos geckos e a lança de prata recém-forjada.
— E então? O que achou?
— Incrível, capitão. Muito elegante.
— Obrigado. Pena que pesa demais, provavelmente porque agora não posso mais ficar no campo de batalha e preciso me concentrar na torre. Acho que vou sentir falta de nossas aventuras — disse Pike. — O Lesten está?
— Não é como se eu pudesse me livrar dele tão cedo — Wester respondeu com uma risada.
Lesten aprontou-se rapidamente e saiu na companhia de seu superior.
Os dois se afastaram até alcançarem o terceiro andar da torre que dava visão para a ala norte da Fortaleza da Pedra Azul, em direção das montanhas. Aquela era uma das maiores e mais poderosas capitais de Sellure, nela residiam alguns dos melhores guerreiros já treinados, além de ser a morada do Rei e do Conselho da Matiz. Foi o palco central da Guerra das Espadas, um dos marcos da história de Sellure.
— Agora que farei parte da guarda real, minha rotina vai mudar — concluiu Pike.
Durante anos fora o capitão do pelotão, mas seus soldados vinham ganhando destaque e não poderiam ficar sem um líder agora que fora promovido.
— Vamos sentir tua falta, chefe. A zoeira nas tavernas nos fins de semana nunca mais serão iguais — disse Lesten com uma risada.
— Não fale como se nunca mais fôssemos nos ver. A única diferença é que agora meu dever requer maior responsabilidade, mas continuarei servindo como eterno mentor e amigo.
— Agradeço o voto de confiança. Vamos comemorar qualquer dia desses!
— Pois bem, agora ao que interessa. Eu gostaria de fazer-lhe uma oferta, Lesten, e tenho certeza que não irá me decepcionar. Preciso que assuma meu lugar como capitão no pelotão. Você se tornará responsável por todos seus companheiros.
Seus olhos de lagarto se esbugalharam, estava incrédulo. Recebera honrarias e uma promoção no mesmo dia, em menos de dois anos no exército após ter sido enviado da academia e já alcançava um posto invejável.
— Você é habilidoso tanto com uma espada quanto com a lança. O povo gosta de você porque os faz sentir-se seguros através de bom humor e coragem. Não há ninguém melhor e de maior confiança para assumir meu lugar.
Lesten apoiou os braços no encosto da janela e respirou fundo. Eram muitos elogios vindo de alguém que tanto respeitava. Seu ego já estava mais inflado que o de costume, mas reconhecia que precisaria analisar a situação com cuidado.
 — E quanto ao meu irmão?
Pike meneou a cabeça.
— Por mais que ambos tentem liderar, você sabe que no fim das contas um sempre acaba por se esforçar mais e merecer o crédito. Wester é um guerreiro ardiloso, mas falta-lhe... ousadia. Ele não arrisca o suficiente — concluiu Pike, antes de dar aquela noite como encerrada. — Minha oferta é única e exclusivamente para você. Pense a respeito.

i

A semana seguinte começou com outra cerimônia e a experiência repetiu-se: Lesten foi recebido com aplausos — o mais novo capitão dos geckos! Apesar de pensar que seu irmão ficaria amargurado por sua decisão, devia ter se enganado, Wester é quem mais o apoiou e comemorou a vitória.
A primeira decisão de Lesten foi colocar seu irmão como comandante, em sua ausência, era ele o responsável pelas tropas e a ordem. Ainda eram os Irmãos do Vento.
Nas missões que seguiram, Lesten comprovou sua ousadia. Hordas de monstros eram frequentes arredores, suspeitava-se do ressurgimento de uma ameaça nas montanhas ao sul de Constantia. Após o enforcamento de Rudsi no Castelo Escarlate, diziam que um fantasma intitulado Peste Negra seguiu o legado dos Três Soberanos, buscando reacender a chama da guerra. Fosse ele homem, monstro ou fantasma, sabia-se apenas que vinha construindo um exército em algum lugar desconhecido, em completo segredo, tirando o sono dos altos oficiais e do Conselho que precisava exterminar tal ameaça.
Naquele mês, houve uma fatalidade. Cerca de cem soldados humanos que eram transferidos da academia mais próxima foram pegos em uma emboscada e não chegaram ao seu destino, causando discórdia entre o povo a respeito da segurança das bases e dos novatos que sequer começaram o treinamento para a guerra. O grupo desapareceu quando atravessava uma região rochosa próxima ao Lago Fantasma, evitando a floresta onde fora avistada atividade inimiga. Aquela zona era evitada por abrir oportunidades para investidas em sigilo, era impossível dizer o que existia entre a neblina espessa e suas águas profundas.
Um grupo de soldados do pelotão se reuniu numa taverna enquanto discutiam o ocorrido. Wester estava entre eles e não se conformava.
— Se os humanos foram idiotas o bastante para atravessarem aquela área, não me surpreende que tenham caído em uma armadilha — disse um dos soldados. — Eles não foram feitos para escalarem montanhas ou conviverem com a natureza, seu corpo não foi adaptado para isso, só funcionam efetivamente em zonas fechadas!
— Mas nós devemos ajuda-los — retrucou Wester. — Investigar, reunir reforços, pode haver sobreviventes! Sei que não somos da mesma raça e muitas vezes tivemos desavenças com os humanos, mas estamos do mesmo lado nessa guerra, eles precisam de nós!
— Se um lagarto sequer corresse perigo, tenho certeza que todos voltaríamos para ajudar — falou um segundo.
— Eles eram tão jovens, ainda me lembro de quando fui selecionado — ponderou outro, sentindo-se profundamente amargurado. Nunca gostara de humanos, mas também não desejava mal a eles.
Wester bateu na mesa e ficou de pé.
— Vamos reunir nossos melhores homens e patrulhar a área — afirmou com convicção —, tenho certeza que se descobrirmos qualquer pista, será uma ajuda bem vinda. Geckos são ótimos rastreadores, é o nosso trabalho e não somos pegos desprevenidos com tanta facilidade.
— Ninguém vai a lugar algum.
A atenção dos demais integrantes dirigiu-se ao capitão que entrou na taverna e sentou-se sozinho no balcão, pedindo duas canecas de chope. Lesten geralmente era alegre e gentil, adorava entrar chutando a porta e seu primeiro pedido era que aumentassem a música e começassem a cantoria, mas, naquele dia, parecia que o desgaste vinha prevalecendo.
Ele levantou-se, levou uma das canecas até seu irmão e sentou-se ao seu lado.
— É impressão minha ou você estava organizando um ataque, comandante? — Lesten o testou.
— Eu estava apenas comentando os boatos, capitão — respondeu Wester.
— Pelo que eu saiba, nós não recebemos nenhuma ordem de nossos superiores. Esses humanos provavelmente já estão mortos.
Lesten tomava sua bebida quando foi interrompido:
— Você é o superior agora, você decide as coisas. Quando finalmente nos tornamos mais do que meros soldados, viramos capachos do Conselho? Quando foi que o grande Lesten obedeceu a ordens de alguém? Quando foi que começou a tentar falar certo só para passar uma impressão? Quando foi o que meu irmão negou um pedido de socorro dos necessitados?
Lesten olhou bem nos olhos de Wester.
— Minha decisão é que todos vocês parem de discutir essas ideias loucas e voltem para suas casas. Nós não temos nada a tratar com humanos. A diversão terminou.
Era a primeira vez que a confraternização terminava antes da meia noite. Os demais soldados levantaram-se e deixaram a taverna, os dois ficaram a sós. Lesten continuou a beber tranquilamente, fingindo não ver Wester que cerrava os punhos prestes a soltar o que não devia.
— Como pode ser tão egoísta?
— Eu só estou me preocupando com a segurança dos meus homens — respondeu Lesten. — Inclusive a sua.
— Pois parece o oposto! É como se tivesse esquecido que somos irmãos, agindo como um capitão idiota que só gosta de mandar. Cadê as suas medalhas de ouro? Por que não anda com todas elas presas no peito, seu idiota?
Lesten ergueu seu braço, mas acabou por derrubar a caneca de Wester, que agachou no chão para limpar a sujeira. Enquanto esfregava o piso sólido e úmido, o lagarto não pôde deixar de comentar:
— Eu só queria o meu irmão de volta...
Lesten ficou muito triste ao ouvir aquelas palavras, mas também não encontrou uma forma de retribuir.
— Ele tá bem aqui, cara... Tá bem aqui. Pode ser meio difícil para você ver, mas sei que está em algum lugar. Desculpa, parceiro. Só estou tentando fazer o que parece certo.
— Não tem problema. Relaxa. Salvar humanos, que ideia idiota. Eu nem sou um herói.
Wester saiu da taverna, deixando o capitão sozinho com seus pensamentos no silêncio.

Durante a madrugada, Wester provou seu lado mais imaturo e impulsivo — reuniu quinze lagartos de seu grupo que concordaram em segui-lo, eles começariam a rastrear imediatamente os humanos desaparecidos e voltariam quando tivessem alguma posição. Quando Lesten tomou conhecimento do ocorrido, ficou furioso. Inimigos estavam à espreita por toda Constantia, e no momento que mais precisavam de cautela, seu irmão agia de forma imprudente.
— ...mas eu mato aquele desgraçado! Como é que pôde ser tão cabeça dura? — Lesten gritava para quem quisesse ouvir, batendo na mesa e derrubando peças, torres e miniaturas de soldados pelo mapa. Outros dois capitães ficaram em silêncio, mas Pike conhecia a figura.
— Tente manter a calma por hora — sugeriu Pike. — Não vá agir com impulso semelhante e fazer alguma besteira. Já basta uma. O Conselho não vai ficar nada contente.
— O Conselho que vá à merda! Eles não ligam pra soldado nenhum. Acha que aqueles velhos de roupa brega se importam com os humanos que morreram? É numa hora como essa que eles vão ter certeza de quem está obedecendo a suas ordens, não duvido nem que isso faça parte de um plano!
— Pare de dizer bobagens, Lesten. Você precisa esfriar a cabeça.
— É. Preciso mesmo.
O lagarto terminou de chutar uma mesa e quebrar uma cadeira quando enfim saiu do alojamento.
— Aonde pensa que vai? — Pike perguntou.
— Sei lá, esfriar a cabeça, você mesmo falou... Não me procure nos próximos dias.
— Não vá fazer nenhuma besteira.
— Besteira, eu? — Lesten o desafiou com ironia. — Não me faça rir.
Se Wester era conhecido por ser o mais sensato da dupla, então Lesten tinha fama pela ousadia. Nunca ficaria parado, nem esperava que seus superiores liberassem um pequeno grupo que marcharia lentamente em busca de seu irmão para depois voltar sem respostas. Jamais lhe concederiam o aval.
Foi correndo pegar sua lança nos dormitórios quando percebeu que ela não estava lá, provavelmente seu irmão já a levara, por isso teve de ficar com a espada. Dispensou a armadura pesada por uma leve e de fácil manuseio. Não iria representando o exército, mas sim, como um caçador. Estava na hora de colocar suas habilidades e perícias de lagarto para funcionar.
Lesten partiu quando o sol ainda nem tinha nascido. Deixou a Fortaleza da Pedra Azul e cruzou o rio até alcançar a área rochosa onde o ataque ocorreu, preferindo dar a volta até as vias cruzadas que separavam a região de Constantia, Myriad, Helvetica e Perpetua. Farejou o ar e estudou o chão, concluindo que uma tropa de geckos passara por ali. Eles rumaram para o sul.
Procurava manter-se sempre silencioso, quando alcançou uma zona montanhesca onde a temperatura começou a cair e suas habilidades motoras foram prejudicadas.
— Cara, como eu odeio frio — reclamou o lagarto, tendo apenas uma pele de urso que caçara para abrigar-se. Geckos eram conhecidos por ter o sangue frio, lutar em temperaturas quentes ou frias ao extremo afetava, e muito, seu desempenho.
Quando alcançou uma floresta de árvores secas, ouviu certo movimento na estrada. Escondeu-se atrás de rochas cinzentas e estudou o local, notando um grupo de monstros que acampava ali. Era uma espécie que não tinha nome, conhecidos apenas como marionetes ou espantalhos, pois tampavam o rosto com sacos, máscaras ou elmos de ferro que roubavam de suas vítimas. Suas armaduras inteiras eram espólios de guerra, sempre que matavam um inimigo eles vasculhavam seus pertences até encontrar algo de interesse para usar como proteção. Lesten notou que havia muito do material que os geckos utilizavam, desde espadas e escudos até ombreiras rachadas e manchadas de sangue verde; mas sua atenção foi para a fita vermelha que um deles usava preso a uma lança — a lança do seu irmão.
Reagindo aos instintos, Lesten pulou e atacou o pequeno grupo de criaturas. Os monstros foram pegos de surpresa e tentaram revidar, mas falharam miseravelmente. Estavam cansados e aparentemente já tinham sofrido perdas, sem contar que não faziam parte de um exército treinado, tratava-se apenas de um grupo selvagem.
Dez deles não foram páreos para a habilidade de um gecko. Lesten poupou três para um interrogatório.
— Onde conseguiram esses espólios?
O monstro não sabia falar. A maioria não conseguia. Lesten cortou sua garganta lentamente até ele ficar imóvel como um pedaço de madeira. Tais criaturas não sangravam, elas simplesmente se desfaziam como se fossem feitas de palha.
Em seguida foi para o próximo, repetindo a pergunta:
— Onde conseguiram?
O segundo também não soube dizer, ele soltava apenas murmúrios e por isso teve o mesmo destino. Quando chegou ao terceiro, este tentou movimentar sua boca torta com ares de pânico:
— Geckos! Nós enfrentamos. Sacerdote levou. Recompensa. Espólios! Espólios!
Lesten meneou a cabeça, satisfeito com a resposta. Mesmo assim, cortou a cabeça do monstro que se desfez em sua frente.
Antes de partir, recuperou a lança e amarrou com cuidado a fita vermelha do irmão para devolvê-la quando o encontrasse.

domingo, 6 de agosto de 2017

Lançamento do Livro "As Lendas de Colina"

O lançamento da antologia animal "As Lendas de Colina" foi confirmado para o próximo fim de semana, dia 12 de Agosto, e irá acontecer na Livraria da Vila - Rua Fradique Coutinho, 915, em São Paulo. Eu vou estar lá junto com vários outros autores participantes, além do Marcelo Siqueira, organizador e coautor da trilogia do Príncipe Gato.

Essa será a primeira publicação com meu nome. Não estarei assinando com o pseudônimo de Canas Ominous, e sim, como Nícolas Eroles. Meu conto se chama Ossada de Dragão e os animais escolhidos foram os lagartos. Segue uma breve sinopse:

"Ossada de Dragão conta a história do Profº Komodo e seu sobrinho Bowne, dois exploradores que buscam aprofundar-se nas lendas de uma criatura tão antiga quanto Colina. Ao adentrarem seus domínios, eles descobrem que dragão era na verdade um antigo rei dos crocodilos que foi aprisionado por conta de sua violência e ganância."
Bowne e Profº Komodo, ilustrados por Nícolas Eroles.
Eles possuem duas pequenas aparições em outros dois contos, mas você terá que ler para encontrá-los!

O que difere As Lendas de Colina de outras antologias é que todos os contos possuem pequenas interligações, dando a entender que esse universo é bem maior do que aparenta a princípio. Nenhum dos autores se conheciam antes da antologia tomar forma, foi criado um grupo no facebook para que os participantes discutissem ideias, incentivando assim  o uso de outros personagens e também a conhecermos o trabalho de colegas autores.

Se for da região, não se esqueça de dar uma passada na Livraria da Vila, dia 12 de Agosto!

Após essa data, terei 20 exemplares da antologia disponíveis para venda. Estarei levando-os em eventos através da minha loja Multi.Player Store, como o Up!ABC e o Guarulhos Anime Fest. Também farei a venda através da internet seja pela minha conta pessoal ou no Mercado Livre, então se quiser reservar um exemplar basta entrar em contato comigo!

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Capítulo 9

Auria brandiu Melodia e surpreendeu a todos. Era raro ver uma mulher na linha de frente, a maioria delas se contentava com arcos, magias ou feitiçarias a longa distância; nunca estavam no combate corpo a corpo. Auria não era do tipo que estava disposta a seguir regras novamente, o tempo jamais a aprisionaria e impediria que tomasse novas decisões. Ralph também sacou sua espada de madeira e um grande alvoroço começou.
Johnny Goldo ergueu a mão e pediu que um de seus comparsas trouxesse sua arma. Era uma enorme bala de canhão amarrada com concorrentes, uma cimitarra na cintura e facões presos no casaco. Ele ajeitou as calças apertadas em sua barriga enquanto os pobres companheiros tinham de prepara-lo para a batalha.
Foi tempo o suficiente para que os geckos saíssem da taverna, uma vez que ninguém mais conseguiria convencer o pirata a deixar o local de forma pacífica. Goldo rodou a bala de canhão na corrente e atirou-a. Em um movimento surreal, Ralph rebateu a bola de ferro com sua espada, como se fosse um taco de baseball. Ninguém acreditou que um material frágil como madeira aguentaria aquele tranco, mas a bola voltou com impulso e acertou os piratas com força, arremessando-os para fora.
— Não deixe que eles fujam! — gritou Goldo, vendo que ainda tinha uma chance. Lá fora teria mais espaço para manusear sua bola de canhão, podia sair na vantagem.
Enquanto recuava, deu a ordem a seus capangas que sacassem suas armas e entrassem na Escama Azul rumo aos andares superiores, onde roubariam tudo de quem estivesse hospedado ali. Três deles avançavam quando Auria confrontou-os e fez um corte no ombro do primeiro que tentou passar, ele já caiu no chão uivando de dor. Os outros dois trocaram olhares espantados. A própria Auria sentiu a mão vacilar, devia ser a primeira vez que machucava alguém pra valer.
Ralph golpeou o segundo capanga na cabeça com sua espada de madeira. O pirata fechou os olhos, somente então notou que não estava machucado.
— Crianças não deveriam brincar com armas, sabia? — provocou o pirata, sacando uma pistola de sua cintura. — Vou te mostrar uma arma de verdade!
Ele apontou o objeto para Ralph, mas nada aconteceu. Também era a primeira vez que usava uma arma, o vendedor do mercado negro lhe dissera que aquele instrumento mortal era de um poder terrível capaz de matar o inimigo num único clique, mas o pirata era tão leigo que precisou olhar dentro do cano.
— Que droga, o que essa coisa faz? Pensei que ela fosse disparar uma rajada de fogo ou algum tipo de magia sobrenatural.
— Por que não tenta usar assim? — Ralph tirou a pistola da mão de seu oponente e o acertou na cabeça com uma cacetada. Em seguida, golpeou o sujeito na barriga com um chute e empurrou-o para fora, o homem bateu a cabeça no balcão e terminou inconsciente. Ralph descartou a arma em seguida, jogando-a no mar pela janela.
Goldo já estava do lado de fora rodando sua bala de canhão. Atingia o píer e deixava buracos no chão de madeira, causando temor pelo simples prazer de ver o alvoroço. Auria tentava aproximar-se, mas era difícil com aquela coisa rodando e lagartos desesperados atrapalhando seu movimento. Ralph lidava com outro pirata e odiava a ideia de ferir uma pessoa. Deu uma espadada com força na costela de um, o suficiente para que ele se deitasse no chão de dor.
— Vai tentar me matar com um pedaço de pau? — intimou o homem.
De repente, o pirata foi surpreendido por uma lança atirada de longe que quase acertou seu ombro. Ralph virou-se assustado quando viu Lesten que logo regressava, brandindo sua espada e recuperando sua lança após chutar seu adversário na cara. A fita vermelha dançava na ponta ao toque do vento.
— E tu achou que eu ia perder uma baita farra dessas? — disse o lagarto, convencido de suas habilidades.
— Na verdade pensei que você tinha ido ao banheiro e já estava prestes a voltar. Por quê? Você pretendia ir embora?! — gritou Ralph, pasmo.
— Rapazes, não quero incomodar, mas já incomodando — Auria chamou a atenção dos dois com um berro —, temos alguns problemas maiores a resolver!
Goldo lançou novamente sua bola de ferro e os três se esquivaram com facilidade, um para cada lado. Auria desarmou um dos homens e Lesten acertou outro no peito, deixando-o sangrar no chão. Goldo só pensava em manter-se longe balançando aquela coisa para todos os lados e destruindo postes, palmeiras e paredes; foi então que Ralph percebeu que ele demorava muito para recolhê-la. Com Lignum em mãos, ela partiu a corrente que conectava a bala de canhão num mergulho só, arremessando com o impacto o pirata que rolou pela banca de areia até perto da praia.
— Seus miseráveis! Agora irão provar da fúria de Goldo e jamais sairão dessa ilha com vida! — gritou o homem que não teve nem tempo de retirar uma de suas pistolas, Lesten já apontava a lâmina da espada em sua garganta.
— E o que tu pretende fazer? Jogar água na gente? — provocou o lagarto.
— Nem brinca — Ralph o interrompeu. — Eu odeio água.
Goldo revelou uma risada impetuosa entre seus dentes podres.
— Eu ainda tenho aquilo. Um monstro antigo, vindo dos primeiros anos da criação do mundo. Ele dará conta do serviço.
Auria arqueou as sobrancelhas e teve sua atenção voltada para a fragata pirata quando um dos sobreviventes mancava para o convés e puxou um enorme pano sobre o que parecia ser uma jaula velha e enferrujada. Quem observava o espetáculo certamente impressionou-se com o que veio logo em seguida.
Na jaula estava ele, um autêntico Dinorros em carne e osso. Uma criatura de pés imensos, sua altura mal cabia dentro do pequeno espaço que tinha para mexer-se, por conta disso parecia bastante assustado e irritadiço. Era muito parecido com um gecko em sua forma, mas tinha três vezes a altura de um e seus braços curtos o deixavam desproporcional ao restante. Suas escamas eram duras feito ferro, seus pés eram tão grandes e grotescos que se assemelhavam a pedras imensas que ganhavam vida e começavam a se mexer.
— Um Dinorros! Caramba, pensei que tivessem sido extintos! — Lesten falou impressionado. — Imaginei que não houvesse sequer casais para que eles pudessem procriar.
Goldo soltou uma longa risada vitoriosa.
— Bah-hahaha! Vocês estão mortos! Eu capturei esse monstro em um poço perdido que encontrei em uma ilha distante, eu o resgatei e depois o aprisionei para que seguisse meus comandos! Pena que é apenas um filhote, mas quando os Dinorros crescem, podem tornar-se criaturas colossais com até oito metros! Eles trituram os céus com seus dentes, causam terremotos na terra com suas patas gigantes, destroem tudo que encontram! — gritou o pirata, fazendo uma pausa em seguida. — Libertem-no!
O marinheiro soltou rapidamente os parafusos da jaula que estremeceu e tombou para os lados. O teto caiu na cabeça do enorme dragão que pareceu pouco sentir aquilo. Ralph e seus companheiros o observaram atônitos, mas logo os olhos da criatura se encheram de lágrimas e começou a chorar.
Auria levou a mão ao peito.
— Ahh, mas ele é tão fofinho — comentou em voz baixa.
— Já saquei a tua, fêmea. Tu é chegada nesses bichos esquisitos, que nem eu! — Lesten brincou de maneira desajeitada, o que a fez corar e dar outro soco nele.
Ralph preparou sua espada de madeira quando viu Goldo levantar-se e gritar mais uma vez:
— O que está esperando, seu idiota? Provoque-o, faça esse monstro sair daí e destruir alguma coisa. Se o tempo for bondoso com sua espécie, ele fará dessa ilha seu refúgio, destruindo uma das maiores metrópoles desses geckos desprezíveis! Faça-o sair daí agora!!
O pirata assentiu obedientemente com a cabeça e, num gesto desesperado, agarrou uma lança e começou a espetar a criatura que chorou ainda mais alto. Era como ver um protótipo de dragão revivido nos dias atuais, eles já não eram mais vistos com a mesma frequência. O Dinorros era tão desengonçado que logo a fragata estremeceu para os dois lados, quase afundando na costa da praia. O pirata enfiou a lança numa região mais profunda e o monstro berrou de dor. Seus olhos agora demonstravam instinto, num movimento impressionante o dragão ergueu uma de suas pernas e esmagou aquele homem como se fosse um verme indesejável.
O chão tremeu. Goldo caiu com os olhos pregados e a boca trêmula.
— Olha só o que você fez! — gritou Auria para o pirata. — Libertou um monstro perigosíssimo numa das regiões mais povoadas de Sellure!
O Dinorros rugiu com fúria, deu um incrível salto e parou no píer, despedaçando-o em um milhão de toras de madeira. A criatura era lenta, mas por onde passava causava destruição. Lesten segurou sua lança e atirou-a contra o monstro que teve sua pele perfurada, mas nem isso o fez parar. O lagarto correu para resgatar sua arma, mas a criatura agora tinha direcionado a atenção para os aventureiros ao invés da cidade. O monstro balançou sua cauda e deu uma pancada tão forte em Lesten que o lagarto caiu longe sob os escombros da taverna.
— Lesten!! — gritou Auria, correndo para socorrê-lo.
— Vocês serão destruídos! Destruídos! — gritava Goldo de maneira eufórica, mas no fundo ele parecia sentir que cavara sua própria cova.
Ralph continuava esquivando-se, de nada adiantavam suas armas ou sua defesa contra uma ameaça em potencial como um Dinorros. A marinha da ilha fora acionada e o alarme soava enviando soldados para a região costeira onde a criatura atacava, mas eles precisavam contê-lo até que chegassem.
Ralph tentou golpeá-lo e acabou sendo arremessado para longe com uma cabeçada do monstro gigante. Quando o jovem abriu os olhos, viu que a criatura caminhava em sua direção.
— Ralph, cuidado! — gritou Auria.
Num ato de desespero, ela arremessou sua espada que fincou nas costas do monstro. O dragão bípede rugiu e virou-se para ela. Irritado, ergueu uma de suas enormes patas e, nesse instante, Auria só teve tempo cair no chão e proteger-se. A criatura mergulhou a pata como um martelo para cima dela, lançando poeira e areia para todos os lados.
Ralph gritou perplexo, sentindo todas as suas veias pulsarem e o sangue aquecer. O garoto agarrou sua espada de madeira e deu um salto para golpear o monstro, por um instante Lignum teve aquele mesmo estranho efeito, pareceu transformar-se em ouro branco ou algum material desconhecido. Acertou a pele do dragão como se ela fosse revestida de papel, rasgando-a e causando um corte profundo em seu peito exposto. O Dinorros estremeceu, caindo para trás em cima de uma cabana num choro estridente.
Goldo estava pasmo ao ver seu monstro ser derrubado. Ralph olhou para o local onde vira Auria ser esmagada, uma cratera se formara no chão. No fundo dela, havia uma moça carregando um enorme escudo de ferro para o alto. Ralph revelou um sorriso e agradeceu os céus por ela estar bem. Tinha apenas alguns machucados e suas pernas tremiam, mas estava viva.
— Como isso é possível? Derrotaram meu filhote de Dinorros?! — Goldo gaguejou, incrédulo. — Quem são vocês, afinal?
Johnny Goldo só parou quando sentiu que alguém tocava seu ombro. O pirata virou-se e viu que toda a frota da marinha local estava ali, com lanças e espadas apontadas em sua direção, geckos trajados em uniforme completo e com a bandeira de sua nação. Os homens-lagartos não gostavam que sua terra fosse invadida, dariam a devida punição para quem desrespeitasse aquele acordo, principalmente por causar tumulto e confusão.
— Opa — Goldo levantou as mãos para o alto, sorrindo um pouco sem graça. — Eu tenho dinheiro, querem ver? O que acham de sentarmos e batermos um papo?
Somente então percebeu que sua sacola de moedas de ouro caíra em algum lugar. Os guardas trataram de prendê-lo na mesma hora.
Ralph ajudou Auria a sair do buraco, pouco depois Lesten também se recuperara. O lagarto foi em direção da moça, deu-lhe um forte abraço que a fez ficar ainda mais encabulada, falando um monte de baboseiras ao mesmo tempo.
— Fêmea, antes de mais nada, entenda o seguinte: a) Não se arremessa espadas, ou tu fica desarmada. Eu tenho duas armas, sabe contar? E b) Desculpa por ter duvidado de ti! Eu devia ter imaginado que as fêmeas humanas eram tão poderosas e destemidas!
— Eu sou feita de ferro — disse ela, limpando o sangue que lhe escorria pela boca.
Ralph aproveitou a ocasião para perguntar:
— Como foi que você fez aquilo? Quero dizer, desde quando você carrega um escudo escondido no bolso?
Auria olhou para o artefato que cobria seu braço esquerdo inteiro. Ao relaxar a mão, percebeu que o escudo voltou a transformar-se na jaqueta de couro que ela nunca dispensava. A moça riu e mexeu nos cabelos bagunçados, colocando as mãos no bolso e olhando envergonhada para os lados.
— Esse presente da minha irmã é impressionante. Não se preocupem, eu também só descobri agora — ela brincou com sua recente descoberta.
A jaqueta se transformava e viajava por seu corpo, com milhões de pequenas partículas que se materializam e formam uma armadura resistente. Eram como escamas minúsculas, a magia utilizada naquela vestimenta era realmente admirável, talvez Lignum tivesse alguma semelhança àquele tipo de poder, pois era capaz de assumir formas em circunstâncias inesperadas através da mana, a magia do universo.
Ralph sorriu e compreendeu o motivo daquela mulher ser a sua grande defensora, o tanque de guerra de sua equipe.
— Suas irmãs devem ser bem legais, não é? — o jovem disse com entusiasmo.
— São as pessoas mais importantes na minha vida, eu faria tudo por elas. Todos esses anos usando essa jaqueta e nunca parei para pensar no sentido da frase que me viviam me dizendo: Nós vamos te proteger onde estiver!

i

Lesten foi caminhando pela costa onde o imenso Dinorros jazia caído e aproveitou para pegar algumas escamas que estavam espalhadas por aí. Pegou uma delas e analisou cuidadosamente seu estado antes de Auria perguntar:
— O que vai fazer com isso?
— São espólios[1] de guerra. Não tive tempo para contar a vocês, mas sou um renomado Caçador de Monstros.
— Lesten, isso é incrível — Auria falou admirada. — E quantos você já matou?
— Acho que esse aí caído no chão é o primeiro.
— Que belo caçador...
— Era só brincadeira, estou mais para colecionador do que caçador, não me importo com o desafio ou a caça em si, eu gosto é de ter alguma lembrança dos lugares que passei e das coisas que fiz.
— O seu título deveria ser Lesten, das Coisas Estranhas — a moça sorriu de forma amigável.
Quando o lagarto retirou a lança que estava fincada no Dinorros, o dragão gemeu de dor, fazendo o gecko afastar-se depressa em estado de alerta. Ele ainda estava vivo.
A criatura levantou-se com dificuldade e parou sentado com seus bracinhos voltados para frente, observando as pessoas na praia ao seu redor com relutância. Deveria estar mais calmo agora, embora muito ferido.
— Ele é apenas um filhote, fez aquilo para defender-se — explicou Lesten. — Um adulto chega a ser três vezes maior do que esse, que já consideramos imenso. Imagine como deve ter sido o tempo em que esses monstros perambulavam pelas cavernas e guerreavam contra as raças! Tokay Asa Negra matou um montão deles, por isso esse cara é foda.
Auria foi até a criatura, tocando levemente sua pata ferida. A moça desejou saber magias de regeneração, mas o caminho que escolhera era o de defender as pessoas, e não curar. Era possível ver as lágrimas descendo pelos olhos daquele filhote, o que a deixou profundamente amargurada.
— Pobrezinho... O que vão fazer com ele?
A gente pega, mata e come — Lesten bateu as mãos, contente. — Daria um belo banquete!
— Monstros como os Dinorros são criaturas raríssimas — explicou um dos oficiais da marinha que aproximou-se. — Se um filhote foi encontrado, pode ser o sinal de que eles não foram completamente dizimados. Faremos o possível para que não sejam extintos, como pensávamos que estivessem. Nós o estudaremos e o levaremos a uma reserva no sul da província de Perpetua, uma ilha isolada onde poderá viver em paz e crescer saudável.
Auria trocou um breve olhar com o Dinorros que pareceu compreender aquele ato de carinho.
Ralph estava feliz por saber que o incidente com os piratas acabara bem. Os moradores da costa raramente viam invasores cruzar aquelas fronteiras, mas agora acreditavam na possibilidade de que as velhas alianças tivessem sido quebradas, mas poderia ser o indício de que as raças já não respeitavam completamente a lei.
Para piorar, a amizade entre geckos e humanos nunca fora das melhores.

[1] Os espólios ou despojos de guerra são objetos conquistados pelo exército ou pela parte vencedora de uma batalha ou guerra. Serviam como troféus para lembrar a vitória obtida sobre o inimigo.

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