sexta-feira, 16 de setembro de 2016

sábado, 10 de setembro de 2016

Galeria de Resenhas

A Biblioteca de Sellure é onde o autor organiza seus arquivos sobre o mundo real, e você pode encontrar informações como resenhas, matérias e curiosidades sobre o universo dos livros e histórias.

Abaixo você encontra a capa de cada livro lido e analisado, organizado em literatura nacional e internacional. Para acessar clique na imagem, encontre o seu favorito e tenha uma boa leitura!

Livros Nacionais

      
  
Livros Estrangeiros

         

   
     

Extraordinário [Resenha]

"August Pullman, o Auggie, nasceu com uma síndrome genética cuja sequela é uma severa deformidade facial, que lhe impôs diversas cirurgias e complicações médicas. Por isso, ele nunca havia frequentado uma escola de verdade... até agora. Todo mundo sabe que é difícil ser um aluno novo, mais ainda quando se tem um rosto tão diferente. Prestes a começar o quinto ano em um colégio particular de Nova York, Auggie tem uma missão nada fácil pela frente: convencer os colegas de que, apesar da aparência incomum, ele é um menino igual a todos os outros.

R. J. Palacio criou uma história edificante, repleta de amor e esperança, em que um grupo de pessoas luta para espalhar compaixão, aceitação e gentileza. Narrado da perspectiva de Auggie e também de seus familiares e amigos, com momentos comoventes e outros descontraídos, Extraordinário consegue captar o impacto que um menino pode causar na vida e no comportamento de todos, família, amigos e comunidade. Um impacto forte, comovente e, sem dúvida nenhuma, extraordinariamente positivo, que vai tocar todo o tipo de leitor."

Autor(a): R.J. Palácio
Lançamento: 2013
Altura e largura: 22,7 x 15,7 cm
Número de páginas: 320
Editora Intrínseca

Por que escolhi essa obra?

Eu havia prometido a mim mesmo que não compraria nenhum livro esse mês, mas para quem mora no interior de São Paulo, acabar no meio da Livraria Cultura e sair de lá sem nada não é uma tarefa fácil...

Foi em uma dessas passagens pela ala de literatura juvenil (minha favorita), que acabei me deparando com Extraordinário. Uma semana antes vi o mesmo livro na casa da minha prima, e ela me recomendou com todas suas energias. Eu ainda relutava em comprá-lo, talvez pelo fato de que eu não estava muito disposto a conhecer mais um desses best-sellers internacionais. Mas, de alguma forma, Extraordinário continuava aparecendo em meu caminho todas as vezes, até que decidi parar e dar-lhe uma chance. Era uma segunda feira bem fria e gelada, daquelas que você não quer nem sair da cama, a moça da recepção  olhou para mim e sorriu, dizendo: Eu adoro esse livro.
Conversamos por algum tempo, o suficiente para ela me contar sua experiência com Extraordinário e quanto o recomendava também. Gostei da maneira como ela foi gentil comigo, gostei de compartilhar alguns poucos minutos com alguém que fez meu dia ficar mais agradável com um gesto tão simples.

Pois então, vamos dar uma pequena introdução a quem não conhece o contexto de Extraordinário.

Algumas coisas que aprendi...

August Pullman é um garoto com o rosto deformado. Tento não imaginá-lo. Acho que não consigo.

"[...] Não vou descrever a minha aparência. Não importa o que você esteja pensando, porque provavelmente é pior." August Pullman.

A história de Extraordinário nasceu para ser escrita no formato de um livro, e a autora reuniu cada um dos melhores pontos da escrita para falar de seu pequeno Auggie e ainda nos ensinar uma lição. A trama começa quando os pais de Auggie decidem colocá-lo em uma escola, após tantos anos protegendo-o debaixo de suas asas, eles percebem que é hora do filho começar a interagir com outras crianças. Auggie sempre quis que o reconhecessem como um menino normal, não gosta que sintam pena dele ou o tratem como alguém especial para sua mãe, ele é apenas Extraordinário
Apesar das circunstâncias, diversas vezes na trama sentimos que alguém só age com compaixão ou pena para com o garoto. É o mínimo que poderíamos fazer alguém que "já sofreu tanto."
Conforme a leitura segue, pensamos em nossa própria realidade em como parece maldade pensar que o universo poderia ser tão ruim com alguém. Um em quatro milhões, eram as chances de Auggie nascer com tal deformação. A autora brinca com o fato de que em algum lugar no mundo alguém deve ter ganhado na loteria com essa sorte. Ao mesmo tempo, é surpreendente como o universo trabalha e compensa essas pessoas com seus passarinhos, sejam pais que se importam, amigos que cuidam, professores que apoiam ou até mesmo um cãozinho que muda nossas vidas.

Uma coisa que aprendi com o livro  e sempre tive essa opinião guardada para mim mesmo  é que grupos de pessoas se tornam cruéis. Até mesmo crianças. Durante a trama conhecemos Jack, um dos poucos amigos de Auggie, que ao ser colocado numa situação delicada, admite que só se tornou amigo dele porque o diretor pediu. Deve ser parte do ser humano julgar, e não importa o lar que nasçamos ou a educação que recebemos, de alguma maneira olharíamos para aquela criança tão diferente, intrigados, e iríamos pensar: Que diabos aconteceu com o rosto dele e por que é tão feio?


Digamos que outro dos pontos chave é a presença de Julian, um dos meninos da classe de Auggie. Seria ele uma representação da inveja? Do medo? Fazendo uma rápida pesquisa na internet descobri que foi lançado um livro separado conhecido como "O Capítulo Julian" onde é revelado todo o lado do agressor da história. Por que é que Julian é tão cruel com Auggie, e teria ele uma chance de redenção? Será que no fundo todos nós não agimos como Julian uma vez na vida por sentirmos inveja de alguém que recebe mais atenção do que nós?

Extraordinário é escrito de maneira tão bela que você poderia escolher qualquer trecho e torná-lo uma frase marcante. A história fala sobre gentileza, superação, família, amizade, bullying; e é incrível a maneira como, alterando os pontos de vista, não nos cansamos da leitura e temos uma visão sempre mais aprofundada da trama, mas é interessante notar que nenhuma vez lemos o ponto de vista dos pais. Acho que é preciso ser pai para entender o que eles passam todos os dias.

Ah, e você vai se apaixonar pelos preceitos do sr. Browne! Segundo o dicionário, entende-se cmo preceito uma doutrina, mandamento ou ensinamento. São ideias que eu gostaria de prender em minha parede e levá-las para o resto de minha vida, para quem sabe aprendermos a sermos pessoas melhores todos os dias.

Se você se gostou da leitura de Extraordinário, saiba que diversos outros livros foram lançados, para complementar a leitura, como o O Capítulo do Julian e 365 Dias Extraordinários: O Livro de Preceitos do Sr. Browne.
Uma adaptação para o cinema também já foi confirmada com previsão para 2017 e sua produção já começou, então podem ter certeza que ainda ouviremos falar muito de Extraordinário nos próximos anos. Temos diferentes pontos de vista durante toda a história, e imagina-se que com dois atores de peso como Owen Wilson, Julia Roberts e Stephen Chbosky (diretor de As Vantagens de Ser Invisível), teremos uma incrível produção. Eu ainda acredito que o livro foi feito no meio mais perfeito que a autora poderia escolher para representar sua obra. Ouvi algumas pessoas criticarem a aparência de Auggie, até porque como mencionado na primeira página o personagem também diz que independente do que o leitor imaginar, é pior.
Mesmo com um filme a caminho, o importante é que a principal mensagem da obra seja transmitida e mais pessoas alcançados por essa bela lição.

Considerações Finais

Nossa mente é uma ferramenta incrível, e um curioso fato é que no decorrer da leitura, Auggie parecia ser um menino normal para mim. Conforme eu lia o livro, em determinados capítulos eu me esquecia que ele tinha deformidade alguma, e não era isso o que Auggie mais queria,? Ser reconhecido como qualquer um, como um menino normal? É por isso que para mim isso se tornou uma das características únicas do livro, e imagino que seja o intuito da autora. Auggie é Extraordinário não apenas por fora, mas por dentro.

Após uma leitura prazerosa — e também algumas lágrimas de emoção no final — concluo que temos de lembrar do discurso do sr. Buzanfa. Seja gentil.

É preciso ter o mínimo de sensibilidade para entender a mensagem que R.J. Palácio quer passar para o leitor, sem grandes truques, cenas de ação ou um clímax definitivo. Se você julgar que este é um livro apenas sobre aceitar o próximo ou então sobre ser extremista em relação ao bullying, então você não entendeu a mensagem completa. Trata-se de ser gentil, mais gentil do que o necessário. Esta é uma lição que aprendi e levarei para o resto de minha vida. É como quando você tem a oportunidade de dar um pequeno incentivo, sem ser rude ou acabar com o sonho de alguém, pois também não se deve mentir para agradar; mas mostrar que não estamos sozinhos nesse mundo onde tudo parece ser tão distante e artificial.

Exatamente como a moça do caixa no dia em que fui comprar meu exemplar de Extraordinário, às vezes um simples sorriso no rosto, um cumprimento singelo ou uma ajuda inesperada são o suficiente para alegrar o dia de alguém. Não se trata apenas de aceitar o próximo ou fazer sua parte, trata-se de ser uma pessoa melhor em todos os sentidos possíveis. O mundo precisa de mais gentileza.

"Quando tiver que escolher entre estar certo e ser gentil, escolha ser gentil." — Preceito de Setembro do Sr. Browne.


quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Ninho de Fogo - A Mestiça [Resenha]


"Melane, uma garota de 16 anos que vive com a avó, descobre não apenas ser uma mestiça de bruxa e dragão, como também uma princesa em um mundo chamado Ninho de Fogo.

Com ajuda de seu fiel guardião David, e o pequeno Jack, o garotinho de quase 300 anos de idade, ela volta pra sua terra natal, descobrindo que o lugar está se despedaçando.

Em um mundo de dragões, fadas e sereias, Melane terá que ser forte para a batalha que colocará em risco o mundo onde nasceu, enquanto tenta descobrir a quem pertence seu coração.

Uma mistura de romance, aventura, guerra e salvação é o que te espera em Ninho de Fogo!"

Autor(a): Camila Deus Dará
Idioma: Livro Nacional - Português
Lançamento: 2º edição, Maio de 2016.
Altura e largura: 23 x 15 cm
Número de páginas: 268
Editora Arwen

Por que escolhi essa obra?

Antes de começar as minhas resenhas gosto de compartilhar uma pequena história sobre como conheci o livro. Convenhamos, é muito raro você simplesmente olhar para um título na livraria e pensar: "Hm, acho que hoje vou levar este hoje", ainda mais quando falamos de obras nacionais. Obviamente, uma boa capa é essencial para cativar a atenção do seu público, mas acredito que foi a simpatia da autora que me fez ir atrás de sua obra na Bienal do Livro em 2016 e voltar com o primeiro volume para casa. Para ser bem sincero, eu não tinha nem o dinheiro para levá-lo, mesmo estando na promoção (até porque ao final de um evento como esse mal sobram algumas moedas para o cafézinho no final da tarde), mas com uma pequena ajuda de minha irmã consegui comprar um exemplar, e agora que a leitura foi concluída, posso dizer que valeu a pena.

Conversei com a Camilla pela primeira vez no facebook, quando eu precisava de algumas opiniões à respeito da Editora Arwen. Uma opinião de quem está dentro é sempre importante para sabermos mais sobre o lugar que poderá ser eventualmente a casa do nosso livro, que é praticamente como um filho. Só ouvi elogios da autora, e também a agradeço pelo tempo que me proporcionou e ajudou a solucionar algumas dúvidas.

Sempre a vejo comentando na página, trazendo novos vídeos para seu canal no youtube, interagindo com leitores e agradecendo as resenhas que fizeram de sua obra. Acredito que um dos fatores chave para seu sucesso foi justamente esse carisma e a participação frequente nas redes sociais, além do interesse em dar sempre o seu melhor e ajudar os outros. Se existe algo que adoro da literatura nacional, é justamente essa proximidade em poder conhecer e conversar com o autor que está aqui, do seu lado.

Pois bem, retornemos ao Ninho de Fogo! Mas cuidado...

Esta resenha é longa e cheia de spoilers!

Capa, Design e Editoração

Com uma capa que remente claramente à tons de vermelho, laranja e marrom, temos uma clara sensação de uma obra acolhedora e mística. O vermelho é intenso, o marrom remente ao conservadorismo e o laranja à mudança, expansão e dinamismo. Percebe-se um contraste com a antiga capa que havia sido trabalhado pela Editora Cata-vento, na primeira edição do livro. O fundo morto em tons de cinza e preto passava até mesmo uma ideia de terror, que não é bem a proposta do livro. Temos uma aventura excitante e romance de sobra, logo meu voto vai para a nova capa que conseguiu mostrar sua verdadeira identidade.

A fonte é Garamond Pro, tamanho 12 e com espaçamento de 1,5 entre as linhas. O papel em pólen é agradável para a leitura, e como um todo a diagramação é ótima. Todas as páginas possuem adornos, e em comparação com a versão antiga, agora vemos um pequeno Jack escondido por trás das árvores na contracapa do livro. Este é um ponto interessante que lhe oferece uma ligeira vantagem perante certo personagem, mas falaremos disso quando chegar a hora...

Encontrei alguns sérios problemas na revisão, de novo. Essa é a segunda obra que pego da Arwen e ainda me deparo com "porque" e por que" invertidos, algumas palavras voltam a repetir-se por falta de atenção, e os erros mais graves ao meu ver foram no uso de português: "Com tanto" ao invés de "contanto", e "mecho" no lugar de "mexo". O comprometimento com a revisão me incomodou, e esta é minha única crítica à editoração do projeto.

Sobre a Obra e a Autora

Sendo este o primeiro volume de uma trilogia, "A Mestiça" é uma ótima introdução ao universo do Ninho de Fogo e também ao linguajar utilizado pela autora.

Dragões, sereias, fadas... Isso não é mais novidade para ninguém em universos de fantasia, concordam? Pois saiba que a sutileza com que são trabalhadas essas espécies se tornam novas de novo. Dragões são uma raça, e não as criaturas supremas que muitos tentam retratar e falham miseravelmente. Não os vemos aqui como mera montaria ou uma lenda inalcançável, eles fazem parte do reino da mesma forma que qualquer ser humano faria na terra. Costumo ser um desses que odeia ver dragões serem resumidos à aparições medíocres nos livros de fantasia, mas a forma como a Camila trabalhou com eles os encaixou muito bem dentro do seu contexto, sem necessidade de colocá-los ali só porque "todo mundo gosta". Lembro-me de um trecho que compara as fênix com os abutres desse mundo, adorei a definição feita por um dos personagens, o que mostra que nem tudo segue assim tão místico. 

São pequenos detalhes como as roupas se rasgando e depois ser necessário guardá-las que me cativou por completo. Essas coisas geralmente são deixadas de lado em mundos fantasiosos, principalmente quando temos muita influência da magia que poderia resolver quase tudo num piscar de olhos, mas o cuidado da autora com suas palavras ao mesmo tempo que ela expõe os pensamentos de sua personagem principal a tornam palpável. Ela tenta, e ela erra; sente saudade e se envergonha; é teimosa e por vezes isso poderia ter custado sua vida, mas com uma pequena influência do destino sabemos que será encaminhada para o lugar certo.

"As pessoas têm fé em mim? Uma garota que viveu na roça durante toda a sua vida? Não sei como posso dar esperanças a um povo que nem ao menos conheço, em um mundo que nunca estive — Melane. "

A narrativa é em primeira pessoa do presente, que mesmo não sendo meu tipo de leitura, conseguiu me passar a uma excelente visão do universo criado pela autora e os sentimentos de Melane. Temos descrições na medida certa do cenário, da tensão de uma batalha ou mesmo da suavidade de um beijo, tudo na visão de uma garota apaixonada por livros tanto quando eu e você. Se não há explicações mais profundas sobre sua mitologia, filosofia, sociedade, dentre outras questões importantes do reino, é porque isso não cabia à protagonista compreendê-los no momento.

Sobre o mapa. Pode-se notar que não temos um reino muito vasto, e é perfeitamente compreensível que os personagens estejam constantemente indo de um lado para o outro sem que seja necessário dias e mais dias de caminhada. Está tudo aí presente de uma forma que faça sentido e ainda nos deixe alguns mistérios para futuros volumes.


"[...] O lugar onde vivemos se chama Ninho de Fogo. É onde nós, dragões, nascemos e vivemos. Não é um mundo completamente diferente do seu, temos muitas coisas em comum — David, p. 51.

Sobre os Personagens

Sinceridade e franqueza são algumas das palavras que eu usaria para definir a protagonista. Lembro que num dos primeiros capítulos Melane é atacada por três homens na floresta, e então ela pensa: Vou ser estuprada aqui. Este é um pensamento que recorreria qualquer mulher nessa situação, mas conheço autores que sentiriam até medo de usar uma palavra como essa num livro juvenil, como se ela fosse proibida. Se vemos goblins sendo decepados de um lado e soldados decapitados no outro, é natural que palavras assim também possam ser usadas, e eu aprecio que a autora tenha criado uma personagem sincera a esse ponto. Um pequeno trecho que me agradou é que após uma batalha contra Goblins  que é incrivelmente bem descrita  a protagonista imagina que os corpos continuarão estendidos lá por um tempão, mas seu amigo lhe responde que não deixaria um monte de criaturas mortas jogadas na frente de sua casa. Digo, é o óbvio a ser feito, não? Uma vez que no universo do Ninho de Fogo os corpos costumam ser cremados, temos aqui uma fácil resolução para os montes de cadáveres que ficariam espalhados após uma guerra. Como mencionei, são detalhes que dão credibilidade a um universo de fantasia. Ele nem sempre precisa estar cheio de magia e criaturas nunca antes vistas, basta saber como trabalhá-las, e ele se torna seu. 

Em alguns momentos Melane precisa ir ao banheiro e sente vergonha por isso, em outros ela está constantemente em luto pela vó e em momento algum do livro conseguiu livrar-se desse mal que a assombra, sua cabeça torna-se um turbilhão de pensamentos na medida que tudo precisa ser resolvido o quanto antes, e tudo depende dela. Há quem critique seu egoísmo em ficar com um cara em tempos de guerra enquanto seu amigo está aprisionado pelo inimigo, mas isto revela um lado ainda mais inseguro e carente da personagem que se arrepende disso no mesmo instante. Eu adoro personagens que cometem erros terríveis como esse, porque isso revela um lado humano deles, o lado real.

Triângulos? Tudo bem, não sou um leitor que costuma ver muitos romances, mas adoro na dosagem certa e aprecio isso especialmente no meio de uma história de fantasia.
Guerras são intensas e mortais. Pessoas morrem o tempo todo. O que as poderiam livrar desses sofrimentos se não o amor? É como a musiquinha da Mulan que aposto ainda habitar suas lembranças mais longínquas: "Pense em ter alguém pra quem voltar!" O sentimento de culpa por estar se apaixonada por outro no meio da guerra a consume, Melane é constantemente arremessada de um lado para o outro pelo seu coração. Mas não vamos culpá-la, ela não é uma líder, nem princesa ou uma rainha — pelo menos não até agora. Melane está aprendendo, e esses erros são essenciais.


Já emendando o assunto romântico, vamos falar de David e Jack que compartilham os melhores momentos do livro com Melane.

Jack é detestável, pelo menos no começo. O clássico moleque chato da vizinhança que você quer dar um cascudo só para deixar de ser trouxa. Com o passar do tempo, esse mesmo Jack pinta flores na parede de uma caverna, e por mais que às vezes fique irritado e perca a cabeça,  protege Melane de uma forma sincera e carente. Ambos compartilham uma carência sutil, onde um precisa do outro mais do que tudo. Por conta disso, nós te perdoamos, Jack, essa é a coisa mais fofa que alguém poderia fazer por Melane.

Há uma clara preferência ao pequeno Jack em toda a trama. Tudo bem, no final digamos que Melane e David terminam juntos, mas a própria autora faz com que Jack seja mais interessante do que seu rival em praticamente tudo. Jack está na contracapa, Jack está no começo de todos os capítulos, Jack possui trechos só dele com o seu ponto de vista, Jack é inclusive mencionado na sinopse como se fosse o ponto chave para toda a trama - afinal, o que é mais interessante, um "fiel guardião" ou um "garotinho de quase 300 anos de idade"? Espero que nos futuros volumes haja um maior equilíbrio nisso, caso contrário, não tem como a torcida de David sair ganhando!

A primeira cena de um beijo deu as caras precisamente na página 99, e eu fui surpreendido com algo assim ter acontecido tão no começo. Digo, isso é como um presente aos leitores que não terão de esperar 500 páginas ou quem sabe até três volumes para ver um único beijinho discreto.

Conversas interessantes, intrigas e desavenças; nem todos se dão bem e nada é automático. Se tem algo que odeio em histórias de fantasia é ver personagens que se entendem perfeitamente bem o tempo todo, estão sempre de bom humor, são determinados a salvar o mundo e suportam o peso da responsabilidade em suas costas como se isso não fosse nada. Talvez por isso Melane tenha se tornado uma protagonista adorável, ela tem seus surtos, ela comete seus erros e às vezes merecia ter se ferrado, como quando foi visitar as sereias. Tinha tudo para dar errado, mas não deu. Ela confia na bondade, e a bondade lhe retribui com presentes magníficos. Essa é uma das características do melhor tipo de herói, que nem sempre faz a coisa certa, mas pelo menos continua tentando até o fim.

[...] Só acho que você é livre demais para se portar como tal, você é feita de fogo, Melane, deve sempre queimar, não importa o quanto tentem te apagar, você sempre continua queimando" — Jack, p. 264.

Rei Ariel é um bom vilão, só somos apresentados à vossa majestade no final do livro, e dizem que tememos mais aquilo que não conhecemos. Por baixo da imagem de rei cruel, ele é apenas um velhinho enfeitiçado, o avô da protagonista, não há nada pior do que enfrentar membros da família em uma batalha. Não são necessárias mudanças súbitas de ambiente para contar um pouco do passado e das motivações do vilão, ele é o tempo todo um rei temível, como o cara que dá as ordens que jamais saberemos de onde vêm. No final ainda temos a porta aberta para um novo vilão, um vilão de verdade, e este sim teve tempo de ser trabalhado desde o primeiro livro da trilogia para, quem sabe, se tornar a maior ameaça que Ninho de Fogo terá até o seu último volume.

Komodo é uma grande espada, interessante, convincente, faz a protagonista ser boa não apenas porque ela é forte, mas porque a espada a torna capaz, ainda mais tendo em vista que o livro não ultrapassa a marca de 300 páginas e ninguém gostaria de perder tempo vendo Melane treinar por mais de dois capítulos.

Rachel, Edmundo, Daniel, Damião, Angélica, Amélia... Todos personagens dão o devido apoio aos protagonistas e cumprem bem seus papéis como secundários. Participam das batalhas, ajudam como podem, causam algumas intrigas e somem quando não mais necessários, permitindo que o trio principal cumpra seu papel com maestria e receba todo apoio de fundo, sem embaralhar a mente do leitor.

Senti falta apenas de Lucas e Verônica na coroação... Mãe e filho apareceram no começo da história, e por algum motivo desaparecem após ajudar os protagonistas e não dão muitos indícios de que alguém sentiu falta deles, tanto que seus nomes não são sequer mencionados em nenhum outro momento.

Considerações Finais

Ao fim da história, Melane completa 17 anos após os exatos 17 capítulos do livro. Esta é uma curiosidade off-topic, mas 17 é um número sagrado que me acompanha em minha vida e em muitas de minhas histórias, então digo que foi uma agradável coincidência descobrir esse detalhe no livro.

Diante de dragões, sereias e fadas, Camila criou um mundo de fantasia com detalhes que as pessoas mais adoram, além de alguns só seus, como as belas Lágrimas de Emily que foram para mim o seu maior tesouro. Tem triângulo sim, mas Melane é indecisa, admite seus erros e pede desculpas, quer amar muito e com toda certeza ainda vai errar bastante; mas ela se esforça e faz acontecer, ela é feita de fogo, incontrolável. 

Com personagens cativantes e uma escrita suave, temos parágrafos bem elaborados e sem exageros, há um carinho enorme da autora pelo que faz  tanto que, até onde sei, o segundo volume acaba de ser lançado e o terceiro já foi concluído! Vamos dar-lhe tempo para que ela possa polir sua obra com o mesmo carinho que ela nos entrega o primeiro. Por hora, daremos tempo para que o reino se recupere, que seus habitantes descansem, e que Melane decida de vez entre Jack ou David (o que vai ser bem difícil). Mas, no fim das contas, tudo que posso afirmar é que o mundo de Ninho de Fogo não é tão diferente do nosso.


domingo, 4 de setembro de 2016

Mundo Elemental - O Escolhido [Resenha]

"O que você faria se fosse parar em um mundo onde a magia e todos os seres e criaturas fantásticas que só conheciam pelos filmes e livros existem? E ainda por cima, uma profecia diz que você é o Escolhido e deve libertar os povos oprimidos e matar um poderoso feiticeiro que existe naquele mundo.

Peter, junto com seu primo Thomas, atravessou a barreira dos universos e agora precisa decidir entre voltar pra casa ou tentar cumprir o destino que todos dizem ser dele.

Lyla, uma garota aparentemente normal, descobre com a chegada do Escolhido que foi encontrada na vila ainda bebê e que precisará viajar junto de Peter e Thomas para desvendar seu passado e descobrir quem, ou o que, realmente é. 

Junto de seus amigos, Peter descobrirá um mundo novo e verdades que seu próprio mundo desconhece. Terá que enfrentar situações perigosas, tomar decisões difíceis, e principalmente, aprender a acreditar em si mesmo."

Autor(a): Débora Santana
Idioma: Livro Nacional - Português
Lançamento: Agosto de 2016
Altura e largura: 23 x 15,5 cm
Número de páginas: 458
Editora Arwen


Mundo Elemental - O Escolhido é uma história de ficção, aventura, romance e fantasia; o primeiro livro publicado pela autora Débora Santana junto da Editora Arwen. Acabei por conhecer a Débora quando visitei seu blog à procura de um artigo que me ajudasse no registro de meu livro em São Paulo. É engraçado como as coisas funcionam na internet, mas nunca imaginei que quase um ano mais tarde eu acabaria por me esbarrar com sua primeira obra na Bienal do Livro de 2016, e senti interesse imediato porque sempre fui apaixonado por fantasia. Infelizmente não consegui pegar um autógrafo com a autora por um dia de diferença, mas fico contente que ela tenha realizado seu sonho de publicar um livro com a Editora Arwen, que cada vez mais tem me cativado com seus trabalhos incríveis.

Nessas mais de 450 páginas em que estive presente em Luthera, pude aprender um pouco sobre a Débora, seus personagens e o que a fascina. Tomei conhecimento de que ela ingressou no mundo da escrita com uma fanfic de Crepúsculo, aos 14 anos. Isso é muito bacana, pois há muitas pessoas — inclusive eu — que começaram a escrever como um simples hobbie, primeiro com histórias de jogos, filmes e séries que tínhamos muita afinidade, e em seguida levando a ideia além, quem sabe até como carreira. Para mim, o prazer da leitura está em compreender a mensagem que um autor deseja passar, enxergar algo dele nos personagem e lugares pelos quais irá nos guiar nessa aventura. Este é o propósito da fantasia, não?

Capa, Design e Editoração

Vamos fazer uma breve análise do design gráfico da obra. Pelo que sei, esta é a segunda capa do livro, pois me lembro da primeira versão com muito mais verde e fontes diferenciadas. As tonalidades em azul e roxo trouxeram uma ideia de serenidade e a influência da magia nesse mundo, em contraste com o verde antigo que passava somente a ideia de uma selva densa.

Há inclusive um mapa muito bem feito logo nas primeiras páginas, para termos uma ideia da riqueza trabalhada neste mundo e a possível ideia de futuras continuações.

A fonte é Garamond, folhas em pólen e um espaçamento de 1,5cm entre as palavras, tornando as 458 páginas mais curtas e rápidas de se ler do que aparentam. Todas as páginas possuem adornos em forma de raízes e flores, que faz muito jus à autora. Para mim, a capa estaria impecável, se não fosse por alguns pequenos detalhes...

Por algum motivo, escolheram colocar um rapaz qualquer virado de costas para ilustrar Peter, o protagonista, e sua enorme mochila. A mochila é vermelha e está praticamente centralizada, chamando quase tanta atenção quanto o título, e entrou em contraste total com a ideia do místico e fantasioso. Entendo que a ideia era justamente a de mostrar um "invasor" neste universo, mas a forma como foi aplicada faz com que a mochila pareça um elemento aleatório que colocaram ali. Faltou harmonia e suavidade, tanto que Lucila (para mim, a verdadeira protagonista) acabou ficando só na parte de trás do livro, e ela teria cumprido seu papel muito melhor em destaque.

Os problemas de verdade começam na cor da fonte utilizada para o resumo do livro. Está ilegível, como pode ser visto na imagem logo ao lado. O mesmo ocorre na orelha, onde há informações importantes da autora e da obra que acabam dificultando a leitura.

O problema mais grave que encontrei foi com a revisão. É aceitável que livros tenham alguns errinhos de digitação perdidos por aí, afinal, só quem escreve e lê suas histórias mil vezes sabe que alguma coisa sempre escapa; todavia, deparei-me com sérios erros de português que não poderiam ter passado batido pela equipe. Entre eles, os que mais me incomodaram foram o uso de "porque" e "por que" completamente invertidos, "iram" ao invés de "irão", balanÇei e soMbrancelhas. Infelizmente, tais gafes desconcentraram muito a leitura.

Sobre a Obra e a Autora

O mundo criado por Débora Santana tem fortes influências do universo de Tolkien, e isso é deixado bem claro nos agradecimentos da autora. Vemos dois jovens do mundo real que acabam por atravessar um portal em uma árvore e ir parar em um universo com magia, espadas e dragões (mesmo que pequeninos). Antes de iniciar uma resenha, gosto de pesquisar todos os hobbies e atividades extra-curriculares dos autores que encontro; procuro sites, blogs, seus perfis no facebook e até mesmo instagram ou twitter, afinal, a proximidade é uma das maiores vantagens das obras nacionais, não?

Esta é também uma excelente forma de entender o livro e a mensagem que o autor quer passar com ele. Por exemplo, fica claro que a Débora tem um carinho especial pela comida, sendo que praticamente todos os capítulos no início da jornada davam destaque de uma boa refeição. De início eu achei estranho — diria até dispensável —, mas desde os tempos de Tolkien e Lewis eles fazem lindas descrições de nos dar água na boca e valorizam muito a ceia, percebo que a Débora teve um carinho especial na hora de criar o alimento e cada refeição dos personagens. Afinal de contas, ela é formada em técnico de cozinha!

Quando somos apresentados a um mundo novo é importante irmos com calma, e nisso a autora seguiu seu próprio fluxo. Uma das partes que mais me interessaram foram as discussões sobre o passado do reino, as nomenclaturas próprias para "Dia" e "Mês" que são usadas até o fim do livro, e sua mitologia. Débora começou bem, nos entregou um universo mágico muito interessante, mas com o tempo damos de cara com elfos, centauros e seres muitos belos; percebi que ela desapareceu completamente com os anões e outras criaturas esquisitas. Todos são lindos e admiráveis, como numa história de Crepúsculo, e é exatamente aqui onde entramos no tópico seguinte...

Aventura ou Romance?

Vejo o romance como uma das maiores habilidades da autora. O livro todo contém pequenas conversas clássicas de adolescentes, sempre que os personagens tiram um tempo para ficarem a sós rola um clima, um flerte aqui e outro ali. Isso com toda certeza foi herdado da época em que ela escrevia fanfics — ou ficção de fã —, onde os capítulos são postados aos poucos em um site apropriado para os fãs de um titulo famoso como Harry Potter, Crepúsculo, Pokémon ou tudo que você imaginar. Outra característica de fanfics que senti foi a transição de dia que geralmente ocorre de um capítulo para o outro, permitindo que o leitor pare a leitura e possa retomá-la quando quiser.

Seu carinho pelos elfos e a raça dos whitelighters é notável, talvez mais até do que o próprio Peter, o suposto  protagonista. Em suma, eu diria que a verdadeira protagonista da jornada foi Lucila (a moça que ficou só na parte de trás do livro, e bem que poderiam tê-la colocado na frente ao invés de Peter e sua mochila). Lyla é quem recebe mais atenção e carinho por parte da autora, e revela-se como a personagem mais interessante da obra, procurando compreender seus poderes que vão desde cura, ler runas e ter uma pontaria melhor do que a dos elfos, mas, principalmente, descobrir quem são seus pais.


O momento do flashback  *alerta de spoilers* de seus pais, Luccios e Xiomara, é provavelmente um dos melhores arcos. Foram cerca de três capítulos inteiros dedicados a eles, com direito a cada detalhe de como foi a relação destes dois jovens que se apaixonaram em um amor proibido, e ainda tivemos um vislumbre do passado do vilão, explicando um pouco mais de suas motivações que envolvem sentimentos comuns como vingança, medo, insegurança e megalomania.

Há lugares muito interessantes em Luthera, como o cativeiro onde monstros diferentes eram mantidos reféns sofrendo experiências; temos também as principais cidades dos elfos e whitelighters que apresentam-se de forma deslumbrante, mas na maioria dos casos o reino se revela apenas como uma ampla terra coberta em trevas, repleta de árvores, bosques e algumas vilas espalhadas.

O Mundo Elemental da Débora seguia muito bem, mas houveram alguns deslizes durante a obra que comprometeram a qualidade final.

Defeitos e Deslizes?

Glorfindel? Gondor? Valinor? Feänor? Finwë? Esses nomes com toda certeza são familiares para quem é fã assíduo das obras mais acadêmias de Tolkien como O Silmarillion. Sou fã dos filme e mais ainda dos livros, o problema que encontrei foi a mistura de dois universos de uma forma que tudo pareceu... uma bagunça. É compreensível que não exista somente um personagem com estes nomes, mas conhecemos um Glorfindel senhor élfico e por um instante começamos a pensar se o intuito da autora não era brincar com o fato de que Luthera e a Terra Média são parte do "mesmo universo".

Eu acredito que a mitologia criada pela autora estava indo muito bem, até ela fazer referências demasiadas ao universo de Tolkien. Tornou-se... desnecessário. São deuses novos, povos novos e origens novas; colocar qualquer semelhança só fará com que pessoas comparem, um fã mais recente pode confundir-se e quem é totalmente leigo tem aquela impressão: "Mas eu já ouvi esse nome em algum lugar..." São tantos nomes de origens diferentes que fica difícil sentir uma harmonia entre eles. Luthera estava para se tornar única, mas de repente tropeçou e se embaralhou toda. Temos nomes élficos diretamente do mais puro sindarin e quênia em um lado, e do outro temos Ryan.

Entre tantas ideias interessantes, temos algumas que se perderam no caminho por deslize da autora. A presença do dragãozinho Pan é promissora, só que ele aparece duas ou três vezes para fazer algo, e depois você nem se lembra mais que o bicho está no grupo.

Livro Grimório é outro desses artefatos mágicos incríveis que não conseguem cumprir com sua função. Ele consegue localizar qualquer pessoa no mundo e faz tanta coisa surreal que é até difícil explicar. Mas, sendo bem sincero, era só propaganda! Após os personagens se reunirem e se esforçarem ao máximo para encontrá-lo em uma difícil missão, o livro não funciona e posteriormente torna-se inútil, como afirmado pelo próprio rei élfico. Só serviu para ler runas, então? Capítulos certamente dispensáveis, que serviram mais para melhorar o relacionamento dos personagens e colocá-los em frente à novas  provações e situações de perigo que nos faz sentir mais raiva do livro do que contente em ver a galera toda quase morrer por causa dele.

Sobre os Personagens

Já sobre a equipe principal, temos cinco integrantes no grupo, e quatro deles possuem armas e técnicas parecidas.
Um a menos ali não faria falta, e é onde começamos este tópico.

Essa costuma ser a minha parte favorita nas histórias de fantasia. Prezo conversas e relações tão reais que nos fazem se apaixonar por seres que nem existem. Não tenho defeito para colocar em Lucila, ela funciona bem e cumpriu seu papel como a bela elfa que está ali para curar, ser um mistério e o interesse romântico de alguém ao mesmo tempo. O problema está em Peter, o protagonista, que por mais que tente pagar do "bom herói" parece estar fazendo tudo... por ela. Salvar o mundo? Ajudar a vila? Acho que não... Será que você não queria só passar algumas horas a mais com a linda moça de cabelos loiros e olhos azuis? Por mais que o romance deles se torne um pouco mais sincero com o tempo, está implícito que há um interesse dele maior nela do que no universo em si, tornando-o assim, um herói egoísta. Será que ele ainda se lembra do avô tão querido que morreu lá no começo, ou isso só serviu para lançá-lo nessa aventura?

Thomas é o clássico ajudante, um cara sem sonhos que está lá só para acompanhar.
Como mencionado pelo próprio personagem: "Já assistiu Sky High: Escola de Super Heróis? Então, eu sou o seu ajudante."
Ele não faz nada a história inteira. Só reclama e isso até é motivo de brincadeira para a autora. Imagino que ele esteja na história só para que o protagonista tivesse com quem contracenar no começo, mas, é sério, talvez Peter estivesse melhor sozinho. Não vejo como gostar de um personagem que está o tempo inteiro reclamando de algo e fazendo comparações com o mundo real, sinto que ele foi uma tentativa de inserir humor ali, mas se ele não estivesse presente, faria mesmo falta? Eu juro que esperei o pobre Thomas virar um traidor, ele tinha tudo para ser um personagem interessante no final. "O eterno segundo lugar, o cara que guarda mágoas do primo que sempre se dá melhor, o escondido pela sombra..." Mas não. Era apenas o Thomas fazendo suas piadinhas e, bem, servindo sua função de ser um alívio cômico. Se ele tem ou não um propósito maior em futuros livros, então vamos torcer que torne-se maldoso, porque só assim passarão a reparar mais nele. Imagino que haja algum tipo de carinho especial da autora pelo personagem, embora algumas vezes mudanças sejam necessárias!

Eron e Megara são as maiores promessas da trama, mas na maioria do tempo estão ali para lutarem. Por mais que suas histórias sejam bem trabalhadas e as mais interessantes do livro, nenhuma delas é de fato concluída até o final deste volume.

Há um dado momento somos apresentados à família de Lucila, e, por todas as divindades, é uma família ENORME! São quase três páginas de pais, mães, tios, tias, primos e primas; que apesar de não acrescentarem muito ao roteiro, entram para mostrar um pouco da força da família real. É nesta hora, com tantos nomes confusos e personagens novos apresentados de uma vez só, que o restante se perde. Vemos o foco em Lyla, Peter, e o resto. A partir deste ponto, tudo que importa são eles.

Há uma série de capítulos narrados na visão de Lucila, a começar pelo Prólogo, mas na verdade o livro é escrito em terceira pessoa... ou deveria ser? Não costumo gostar de trocas súbitas de narrador, entendo quando são diversos personagens diferentes e a partir daí trabalhamos os P.O.V. (Point of View) diferentes de cada um deles, mas a troca me parecia um pouco desnecessária. Quando estávamos fartos de Peter e seus amigos, a autora mostrava capítulos na visão de Lucila, provavelmente para aprofundar mais suas emoções e descobertas, mas a mudança pode incomodar alguns leitores, e muitas vezes quebrou o sentido de continuação.

A batalha final é muito rápida, parece que não foram mais de quatro páginas de guerra, pois perdemos tempo falando sobre a família de Lucila e até mesmo do passado de seus pais — que apesar de eu ter adorado, poderia ter sido um especial tratado separadamente, quem sabe até postado de graça no blog, para que qualquer um pudesse ler. Isso provavelmente teria barateado o custo da produção. O tamanho certamente assusta alguns, afinal, estamos falando de um livro de 450 páginas de autoria nacional, as pessoas ainda têm preconceito e sinto isso na pele. No começo temos as aventuras menores com foco no desenvolvimento, missões e treinamento dos personagens para que eles se conheçam melhor; a metade é onde tudo fica interessante ao descobrirmos mais dos mistérios de Lyla, mas no fim tudo se torna corrido por conta de tantas figuras e elementos que precisavam ser finalizados antes de derrotar o vilão Magnus, que também poderia ter ficado para um futuro volume, deixando para este um general inimigo de maior influência (mas levando em conta que um bando de jovens derrotaram seus melhores generais, sinto que não havia mais quem pudesse enfrentá-los de qualquer maneira...)

Considerações Finais

Mundo Elemental é uma história que tenta ir longe, mas talvez tenha se embaralhado no caminho. Temos personagens interessantes que se perdem em suas funções e são lançados para escanteio, magias e cenários incríveis que deveriam ser explorados mais, mas acabamos concentrando a atenção no passado que parece muito mais interessante que o futuro.

A autora falou da natureza, de ricas refeições, mitologia, criaturas belíssimas e passados bem escritos; mas temos um vilão pouco marcante que não é nem de perto o suficiente para combater "O Escolhido" em toda sua glória, afinal, ele foi feito para ganhar, não? Disso ninguém nunca duvidou. As melhores partes se resumem ao momento em que não temos foco nas guerras ou batalhas, o romance é a especialidade da autora; a aventura em si se resumiu a longas caminhadas atrás de coisas sem importância... O problema é que Peter e sua mochila na capa dão exatamente a ideia oposta, a de uma aventura em um mundo completamente novo, sendo que este não era exatamente o propósito do livro. O romance superou a aventura.

Esta é a minha primeira experiência com a editora Arwen, e por mais que eu adore seus projetos, senti que faltou um pouco de carinho com Mundo Elemental, principalmente na revisão. Vejo na Débora um potencial enorme para continuar sua história de fantasia, concluir o desfecho que restaram de seus personagens e mostrar uma ameaça mais assustadora do que Lorde Magnus representou para Peter e seus amigos. Mundo Elemental é um livro interessante para quem não tem muito contato com universos de fantasia e procura mais foco nos romances e relacionamentos de seus seres fantásticos, como elfos, quem sabe até vampiros... Já li tanto os livros de O Senhor dos Anéis quanto Crepúsculo — que para muitos são dois opostos completos —, mas se você se sente atraído por ambos os títulos, então pode ser que tenha uma agradável leitura.



sábado, 3 de setembro de 2016

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