sábado, 26 de março de 2016

Capítulo 2


Era o local mais distante que já estivera de sua casa, portanto fez questão de entrar com o pé direito: tropeçou e foi direto ao chão, pois não estava acostumado com degraus tão altos.
Quase ninguém parou com a correria e antecipação de seus dias na Estação Pérola. Pessoas altas e vestidas em roupas extravagantes, cada qual com seu estilo, fossem ternos e cartolas ou vestes do dia a dia. Pareciam vindos de um mundo singular e ao mesmo tempo distante, alheios ao que acontecia ao seu redor. Seguiam seu percurso indiferentes, os poucos que ficaram não sabiam se riam ou ajudavam, consumidos por uma estranheza divertida e curiosa. Logo um homem trajado em uniforme aproximou-se para ajudá-lo.
— Ei, garoto, você está bem? — perguntou, agachando para ficar da mesma altura que ele.
— Já levei tombos piores, mas esse também foi engraçado, não é?
— Bem... Só espero que não tenha se machucado de verdade. Foi uma queda e tanto.
O homem revelou um sorriso, contente por certificar-se de que sua manhã continuaria tranquila. Ralph agradeceu a ajuda, quando ficou de pé ainda teve que olhar para cima, abrindo a boca ao falar cheio de admiração:
— O senhor é... enorme! Por um acaso estamos em uma terra de gigantes?
— Não exatamente. Aposto que você vai crescer muito, é novo ainda. Deve chegar à minha altura — o homem de uniforme falou com um sorriso, passando a mão nos cabelos avermelhados de Ralph.
Os dois sorriram, e muitos estranharam. Devia ser um gesto raro para as pessoas daquela região.
Ralph tirou um papel meio amassado de sua mochila e começou a observá-lo. Trocou alguns olhares com o homem. O funcionário o olhava intrigado, até que por fim decidiu perguntar:
— Precisa de ajuda?
— Moço, sabe dizer onde posso encontrar esse lugar? — Ele entregou o papel, meio envergonhado. — Sou estudante e aprendiz. Fui surpreendido ao ser convocado, pensava que seria só mês que vem. Acabo de alcançar o nível quinze.
— Nível quinze?
— Gosto de pensar que cada ano que passa eu avanço um nível. Com isto em mente, devo respeitar os mais velhos que sempre serão mais sábios e experientes do que eu, que estou apenas começando minha jornada.
— Os incontestáveis quinze anos — o funcionário riu enquanto lia o papel sem muita atenção. — Espero que em breve tenhamos um grande soldado.
Ele devolveu o papel de inscrição e Ralph acenou com a cabeça como forma de agradecimento.
O guarda apontou para um grupo de jovens que se unira ao descobrirem que compartilhavam semelhanças, como a dúvida, insegurança e desgosto pelos geckos. Era incrível como os humanos se ajeitavam em grupos tão rápido, como uma espécie de modo de defesa. Talvez andassem assim por se sentirem mais fortes e protegidos. Ralph preferiu manter distância, já vira muitos que se tornavam cruéis ou mudavam seus hábitos por simplesmente estarem junto de outros de sua mesma espécie.
— Vila das Pérolas. Siga para o norte, você irá andar pouco mais de um quilômetro seguindo pela estrada até uma zona litorânea. A academia fica próxima à costa, se quiser uma referência, siga sempre em direção da Ilha dos Geckos. Não tem erro.
Ele agradeceu o guarda com mais um gesto estranho, o que fez o homem cair na risada mais uma vez antes de voltar ao trabalho.
O apito do trem soou estridente e fumaça foi expelida quando a máquina de ferro partiu em direção da Estação Diamante. Ao ajeitar a mochila e a espada de madeira nas costas, Ralph estava pronto para seguir o caminho que lhe traçavam. Fazia seu percurso com muito bom humor, andar era um costume comum para muitos habitantes do campo, em sua terra natal ia de um vilarejo para outro com frequência, cruzando as estradas de terra dos comerciantes e viajantes em suas aventuras até a cidade grande. Tendo em consideração que veículos e máquinas não eram meios de transporte tão comuns e as estradas eram pouco frequentadas, pegara o trem pela necessidade de mover-se de uma província para outra, mas preferia fazer tudo através de uma boa caminhada. Muitos não gostavam das criações bizarras dos humanos e sua tecnologia, mas reconheciam que por vezes eram úteis e essenciais.
Estava escurecendo. Ralph atentou-se ao rosto dos jovens que carregavam um olhar semelhante de tristeza e desamparo. Ao passar por um rapaz, não se conteve em perguntar:
— Ansioso?
— Quer algo pior do que ser convocado para um lugar desconhecido, longe da família e amigos, com chances de servir um rei que nem existe e lutar numa guerra que não é nossa? E, para piorar, vivendo a uma curta distância da ilha nojenta daqueles répteis? Péssima, minha vida anda péssima, se quer saber.
Ralph apertou o passo para afastar-se o quanto antes. Talvez as pessoas tivessem sido mordidas por algum besouro da negatividade ou do mau humor. Nunca antes vira uma gente tão humana.
Estava tão perdido em seus pensamentos que mal notou o tempo passar, não conseguia prestar atenção em nada, focado na ansiedade em chegar à academia. Alguns lampiões começavam a ser acesos pela trilha, guiando os estudantes recém-chegados. Além do treinamento, o porto também servia como transporte de mercadorias até a ilha dos homens-lagartos. Do alto do penhasco era possível ver tochas na praia e a Ilha dos Geckos perfeitamente visível sob o céu noturno, claro e límpido.
Na costa, a Vila das Pérolas, seu novo lar. Era chamada assim por ser uma área não muito tecnológica, voltada apenas para o treinamento de guerreiros e novatos em sua maioria, portanto, recebia a visita constante de grandes nomes do Reino de Sellure que vinham dar palestras ou lecionar, selecionando assim os melhores soldados para seus regimentos. Os jovens selecionados completavam sua formação acadêmica nessa área para posteriormente serem enviados para servirem em grandes castelos em uma das oito regiões. O exército dos humanos era o mais populoso dentre as quatro raças.
De repente, teve que parar. Aproximou-se de uma ribanceira mais do que devia. Olhou para baixo e alguns cascalhos rolaram, e somente então notou que poderia ter caído. Recuou um pouco assustado quando uma estranha ideia passou por sua cabeça, afinal, poderia descer a colina de um jeito mais prático e ágil. Ajeitou sua mochila e colocou o pé na primeira rocha da encosta da montanha, alguns geckos da espécie das lagartixas eram dotados da capacidade de escalar paredes, então decidiu tentar. Bastou um pequeno declive, e logo cometeu uma falha. Foi caindo, trombando e se esborrachando até que parasse na encosta do outro lado. Havia poupado pelo menos vinte minutos de caminhada descendo a colina. Estava contente não pelo tempo, mas pela emoção. Levantou-se então com os braços estendidos, como se gritasse mentalmente: Cheguei!
Os ajudantes que encerravam suas atividades no cais até pararam para observar a cena. Eram dois rapazes de uniforme, muito parecidos, e foram gentis em fornecerem informações para localizar a casa nº 17 no corredor Essência do Luar.
— Você é um dos novatos, certo? Não vai participar da festa de iniciação? — perguntou um deles, de forma que se entreolharam de forma travessa, escondendo as próprias histórias. — Os veteranos organizam um evento bimestral para recebê-los, trata-se de uma grande festa na praia.
— Um luau! — confirmou o segundo. — Você deveria ir, novato. Conhecer gente nova, talvez encaixar-se em um dos grupos antes que fique para trás. Dá até para conhecer umas gatinhas, você não tem cara de quem tem namorada. Ainda.
— É muito divertido e, acima de tudo, importante. Tente firmar-se o quanto antes em um dos grupos caso encontre a sua especialização, é mais fácil resolver as coisas com os amigos.
— Obrigado pelos conselhos — Ralph respondeu de maneira singela, agradecendo o convite.
Apesar de não ter intenções de comparecer.
Fez seu caminho sem dificuldades até os alojamentos, todas casas eram muito parecidas, diferenciadas apenas por um emblema sobre a porta de entrada, trazendo uma espada, escudo, arco ou outra arma aleatória. Avistou uma casinha pequena de madeira e teto retangular, muito agradável para seus costumes humildes, embora minúscula aos olhos dos mais exigentes. Eram todas agraciadas com uma bela vista para o mar. Havia espaço para quase cem alunos só naquela parte da vila.
Ao bater na porta, foi surpreendido por um rapaz moreno de cabelo repicado e manto azulado, o uniforme da academia, com entalhes em prata e um círculo opaco representando as pérolas. Ralph concluiu que deveria ser do curso de arco e flecha por conta de um dos ombros ser ligeiramente mais elevado do que o outro, sem contar que os olhos estavam constantemente olhando adiante, como se buscasse um alvo.
— Olá, você será meu companheiro de quarto? — perguntou Ralph.
— Casa sete? — a resposta soou seca enquanto o jovem afivelava o cinto e tentava prender os botões na camisa. Ralph voltou a olhar seu panfleto.
— Hm, dezessete.
— Aqui é a sete, não sabe contar?
— Oh, é verdade — falou surpreso, embora tenha soado um pouco mais irônico do que gostaria. — Desculpe, tenho alguns problemas com números.
O rapaz revirou os olhos, impaciente.
— Sua casa é essa aí na frente. Siga as dezenas.
— Agradeço a informação.
— Ei, novato, está indo para a festa também? — a festa que todo mundo insistia em falar.
— Não acho que estarei lá.
— É uma pena. Os veteranos costumam fazer trotes com os novos membros da academia, e não vão largar do seu pé caso tente fugir!
— Não estou fugindo. Digamos que eu esteja apenas... escolhendo o caminho que vou trilhar.
O rapaz deu de ombros e fechou a porta. Ralph não sabia quanto tempo ficaria na academia, seus treinos poderiam durar semanas, meses ou até anos; a única certeza que tinha é que esperava não esbarrar com nenhum veterano. Ainda não tinha nível e experiência o suficiente para enfrentar esse tipo de inimigo.

i

Pela primeira vez, estava sozinho em um lugar só seu. E por algum motivo sentiu-se profundamente solitário. Já morria de saudade de seus velhos pais lagartos, mas não poderia deixar-se levar pelas lembranças, afinal, servir o exército era uma tarefa digna e honrosa que há muito vinha desejando.
As pequenas casas fornecidas aos alunos eram usadas até que fosse decidido qual caminho seguiriam em sua formação. Era confortável e singela, parecia até uma cabana modernizada com aparelhos para lazer e cozinha.
Esticou os braços e deitou-se na cama dura. Poderia fazer o que quisesse, aventurar-se pelas redondezas ou até mesmo tomar banho uma só vez por semana. Jogou sua mochila no chão e deu uma volta pelo cômodo. Não havia muito a se ver, já explorara tudo; agora queria desbravar o restante do mapa que ainda não conhecia. Colocou sua espada de madeira no cinto improvisado e por fim saiu, mesmo sendo tão tarde.
Na entrada do alojamento masculino, uma placa em forma de seta indicava a direção da que bifurcava a estrada: a academia, o porto e a estação. Podia escutar o som da festa vindo da praia, garotas chegavam com suas saias curtas, cabelos longos e soltos; os rapazes chegavam com queixo erguido e chinelo nos pés para se sentirem o mais confortável possível. Tinha de admitir que era uma temática litorânea muito atraente e convidativa, mas não era o tipo de evento para ele. Encolhia os ombros e enfiava as mãos no bolso só de pensar.
Caminhou sozinho pelas estradas vazias que se cruzavam e guiavam os estudantes para as devidas áreas do vilarejo. Seguindo o percurso da academia, avistou os portões de ferro que bloqueavam a entrada. Tudo era realmente muito grande de longe, mas ele queria detalhes, com seus muros altos não dava para ver muita coisa. Era bem tarde e os alunos já tinham voltado para suas casas, Ralph não pôde esperar até a manhã seguinte. Enfiou a cabeça entre as grades e acabou de forma previsível, embora não tivesse percebido ainda.
Já podia se imaginar dentro da academia, treinando com sua espada de madeira e provando sua perícia. Via-se exatamente na arena de combate tão magnífica logo na entrada, sendo observado por um dos oficiais do Reino, um possível olheiro, que o levaria para longe dali em direção da glória e do sucesso. Um sonho tornando-se realidade! Encarava tudo tão maravilhado que, quando finalmente percebeu que sua cabeça estava entalada, entrou em desespero em meio à situação.
Poderia ter ficado preso por várias horas, mas, para sua sorte — ou um belo acaso do destino — uma moça passava por perto.
Ela olhou para Ralph e não parou. Pensou tratar-se de apenas mais um novato tentando infringir as regras até perceber que ele estava estranhamente apavorado. Lentamente, recuou dois passos e o chamou:
— Ei. Precisa de ajuda?
— Acho que minha cabeça está entalada — concluiu Ralph com a cara no portão.
— Como é que você se enfiou aí dentro?
— Sinceramente, acabei de chegar ao vilarejo e estava tentando dar uma olhada no local... Pode deixar, acho que eu consigo me virar, não há nada nesse mundo que eu não resolva! — respondeu Ralph, com a voz meio duvidosa.
— Hm, entendi. Seja bem vindo, então.
Ela preparava-se para ir embora quando Ralph percebeu que não importava o que fizesse, não conseguiria sair. Então, gritou novamente:
— Moça, mudei de ideia! Pode dar uma ajudinha?
Ela voltou com passos lentos, ainda com as mãos no bolso e um sorriso de canto.
— Pensei que pudesse resolver tudo.
— E eu posso — ele se remexeu. — Só que... não sozinho.
A moça revirou os olhos e segurou nos ombros dele, manobrando-o de maneira que Ralph pudesse sair com mais facilidade caso tivesse mantido a calma.
Ele parou e olhou para trás atordoado. Finalmente conseguia vê-la em melhores detalhes. Era uma jovem de longos cabelos negros emaranhados, de uma beleza excêntrica em seu corpo bem desenvolvido. Deveria ter os seus dezessete anos, quase dezoito (maldição, veteranos!). Tinha feições de gente impaciente, dava pra notar por causa das marcas de expressão na testa e as sobrancelhas franzidas, sempre atrasada para um compromisso que não existia. Transmitia a clara sensação de alguém que não era de muita conversa. Vestia calça legging e por cima usava uma jaqueta de couro preto que lhe servia muito bem. Estava sozinha e aparentemente sem rumo. Se tivesse algum compromisso importante, com toda certeza já teria ido embora.
Ralph ficou a encará-la por tanto tempo que chegou a incomodá-la.
— Ei, está me ouvindo, garoto? Entendeu o que eu disse? — ela repetiu, estalando o dedo algumas vezes em sua frente e libertando-o do transe. — Por que ficou preso no portão?
Ralph olhou para ela, desconfiado e entretido, mas não disse nada.
— Ah, quer saber? Deixa pra lá. Só tenta se cuidar a partir de agora.
— Espera um pouco, moça! — ele a chamou e acidentalmente tocou seu braço. Ela recuou como se tivesse sido ferida. — Muito obrigado pela ajuda, você gostaria de entrar na minha equipe?
— Equipe? Você entrou no curso agora, eu não participo da equipe de perdedores — a moça respondeu com certo sarcasmo, e somente então percebeu no quão agressivo aquilo soou. Enfiou as mãos no bolso, um pouco constrangida com o que acabara de dizer.
— Desculpe, às vezes eu falo umas coisas sem pensar...
— Desculpa pelo quê? — Ralph perguntou amigavelmente, completamente alheio à hostilidade dela.
— Deixa pra lá — ela suspirou, mais aliviada.
— Meu nome é Ralph, da Espada de Madeira! Tudo com letra maiúscula. Estou treinando para ser um grande soldado e renomado herói — apresentou-se finalmente, estendendo sua espada para o alto.
A moça riu, seus olhos procuravam alguém que possivelmente estaria ouvindo aquela conversa tão estranha. Não queria que ninguém pensasse que fossem amigos.
— Entendi. Esse lugar é repleto de gente como você, acho que vai gostar — ela falou num tom divertido, talvez acostumada àquele tipo de situação. — Seja bem vindo, novato, e até mais. Se precisar de ajuda, não me procure.
— Onde estava indo?
— Estou voltando de uma festa — ela falou, enfiando as mãos no bolso e erguendo os ombros. — Um porre de festa, para ser mais exata. Lidando com som alto, caras insuportáveis, garotas desagradáveis e gente patética. Não faz muito meu tipo.
— Bem, encontramos algo em que somos parecidos! — respondeu Ralph. — Ei, podemos sair em uma aventura. Quer fazer parte? Tenho um montão de sonhos para realizar.
— Se realizar sonhos fosse fácil, o mundo não estaria repleto de sonhadores.
— Pegou pesado... Qual é o seu nome? Acha que poderíamos ser amigos, então?
— Pode me chamar de Auria — respondeu ao virar-se para ele, continuando seu caminho em marcha ré. — Vamos ver como você se sai nos treinos, novato!
Ralph deu um salto extremamente ágil em sua direção, como um réptil que ataca sua presa sem dar-lhe chances de escapar. Auria recuou dois passos por ter sido pega de surpresa e quase caiu. Ele era veloz. Os dois se encararam bem próximos, de forma que Ralph lhe estendesse a mão em sinal de cumprimento.
— Auria. Que nome incrível. Qual seu título?
— Do que está falando?
— Título. Eu quero saber seu título. Como as pessoas a conhecem?
— Acho que Auria. Só Auria. Onde eu cresci costumam dar mais importância ao sobrenome das famílias do que nossos próprios atos — explicou. — Mas por que você se interessa tanto por um título?
O título é como as pessoas te conhecerão e respeitarão. Eu sou Ralph, da Espada de Madeira, pois é assim que eu vou ser lembrado pela história.
Ela deu uma risada, olhando para o chão e remexendo os pedregulhos com uma clara expressão de desamparo. Ficou parada por um momento e prestou mais atenção naquele indivíduo. Por algum motivo, Ralph transmitia uma aura diferente dos demais, uma certa serenidade pacífica. Colocou as mãos no bolso de sua jaqueta e depois coçou os cabelos emaranhados, bagunçando-os ainda mais.
Soltou um suspiro, e enfim deu meia volta antes de retomar seu percurso.
— Foi bom conhecê-lo, Ralph, da Espada de Madeira — disse ela de um jeito meio irônico, preparando-se para partir mais uma vez, mas sempre que pensava em partir percebia que sua mente continuava lá atrás. — E se quiser saber, sou uma veterana da academia. Quero ver quanto tempo você aguenta nesse lugar, porque já estou aqui há três anos.
Auria preparou-se para ir embora pela terceira vez, mas involuntariamente olhava para trás. Em seu íntimo sabia que aquele jovem tinha algo diferente, e provavelmente Ralph sentia o mesmo. Sentia vontade de rir só de vê-lo ali parado, uma chama brilhante no meio da escuridão.
— Vai ficar aí a noite inteira? — perguntou Auria.
— Já estou indo! — respondeu Ralph. — Obrigado pela ajuda.
— Certo, até mais.
Quando Auria tomou certa distância, ouviu o barulho das grades no portão. Voltou correndo para se deparar com Ralph que dessa vez tentava escalá-lo como se fosse uma espécie de réptil, e já estava bem alto, quase do outro lado.
— Qual é o seu problema, moleque?!
— Pensei que dessa vez dava pra passar, ainda estou curioso.
— Desce já aqui! Eles não permitem que ninguém tenha acesso à central depois de anoitecer, ou podem te mandar de volta com o nome manchado, sua família ficaria furiosa!
Ralph jogou-se em cima e assustou-a com o salto. Ele caiu no chão sem sofrer nenhuma colisão, com as duas pernas e os pés apoiados na terra como um ser quadrúpede. Apesar das circunstâncias, Auria apreciou o movimento.
— Belo salto — admitiu.
— Você ainda não viu nada. E aí? Quais são suas habilidades?
— Eu luto para sobreviver todos os dias, para não desistir, continuar de pé e seguindo meu caminho. Pelo menos ainda estou tentando, não é? Três anos já... Vi muitos amigos e amigas serem escalados para os melhores e piores batalhões, mas todos eles seguiram em frente, não se permitindo estagnar, como eu.
— Fique tranquila, logo a oportunidade aparecerá, e você saberá reconhecer! — Ralph falou com um sorriso. — Nós podemos ajudar um ao outro, o que me diz?
— Não acredito que você possa me ajudar. Eu não consigo nem resolver meus próprios problemas, muito menos os de outra pessoa.
— Eu entendo. Pode deixar que eu vou encontrar um jeito, nem que isso signifique colocar você antes de todo o resto.
Diferente dos demais rapazes da vila, era a primeira vez que Auria sentia que aquela não era uma maneira de chamar-lhe a atenção. Ralph não deveria estar apaixonado por ela, nunca fora das melhores em lidar com romances, procurava apenas uma boa amizade. O simples gesto de bondade a surpreendeu.
— Já é a quarta vez que estou tentando ir embora, e você não deixa — disse Auria, seguida de um sorriso confuso, daqueles meio tímidos e imprevisíveis, como alguém que está sempre disposto a trocar novas experiências.
— Isso é um bom sinal?
— Talvez você seja a coisa mais interessante que eu tenha no momento.
Ela riu e partiu definitivamente dessa vez, mas continuava com os pensamentos lá trás.
— Vai enfiar a cara no portão de novo? — Auria gritou de longe, caindo na risada.
— Por enquanto, não! — Ralph respondeu com a mesma entonação. — Mas se quiser saber, na verdade eu só fiz aquilo para você voltar!
Ela retribuiu um sorriso espontâneo, não sabendo como retribuir tamanha gentileza. Sentia-se tranquila, seu coração estava leve. Fora dar uma caminhada exatamente no lugar que deveria estar para livrar-se dos problemas e das preocupações de sua vida, e aquela conversa se revelara em excelente hora.
          Auria ainda não sabia, mas sentia que de alguma maneira estaria conectada a ele.



 

sexta-feira, 18 de março de 2016

Capítulo 1


“Nem sempre a vida segue como planejamos”, ouvia com frequência. "Quando você for adulto vai entender."
Crescer parecia ser uma tarefa bem difícil. Não tinha pretensões de encarar esta nova fase como o fardo que faziam parecer, e apesar de suas próprias aventuras se resumirem às histórias que ouvira dos outros durante a infância, caberia somente a ele torna-las uma experiência incrível.
O embalo havia sido forte o bastante para acordar um garoto que descansava a cabeça em uma das paredes do vagão. Os trilhos enferrujados seguiam seu caminho contínuo pelos quais a locomotiva de ferro era conduzida, era por volta das sete da manhã e todos repousavam em profundo silêncio. Enquanto os passageiros ali presentes aguardavam a chegada do trem ao seu destino, Ralph ainda fantasiava. A mente estava perdida em cenas que passavam depressa na janela, abriu o vidro, respirou fundo e fechou os olhos. Ainda não tinha certeza se teria consciência e maturidade o suficiente para assumir as responsabilidades que batiam à sua porta, mas estava disposto a tentar. Passou a mão sobre seu rosto e esfregou os olhos, cruzando os braços de modo inseguro. Fazia um bom tempo que estava sentado no mesmo lugar, mal podia conter o nervosismo em migrar para uma região desconhecida e continuar seus estudos. Era claro só de ver os olhos dele — um mel doce e suave, como as abelhas que estavam dispostas a oferecer muito de si próprias.
Ralph era um adolescente repleto de sonhos como qualquer outro de sua idade, mas nem sempre a vida lhe deu a oportunidade de realiza-los.
Pelo menos não até agora.
Ao seu lado, em um dos bancos, estava apoiada uma espada de madeira, praticamente como se fosse uma pessoa. Era sua única companheira desde que aquela longa viagem exaustiva começara.
— Finalmente, aqui estamos. Mal posso acreditar, parece que passou tão rápido — murmurou com a voz baixa, não podendo conter a ansiedade.
Certa vez seu velho pai lhe contou que nunca se sabe quando um amigo aparecerá em nossas vidas. Sua mãe dizia que não os escolhemos; devia ser como cair de paraquedas perto deles — e os amigos verdadeiros eram aqueles que acabamos trombando no caminho. Afinal, como definir um amigo? Eles surgem de repente, preenchendo um pedaço que falta em nós? Desde pequeno lhe fora dito que quando encontrasse as peças certas, saberia. Chegou à conclusão de que amigos são aqueles que compartilham e adicionam pedaços uns dos outros, logo, alguém no mundo ainda tinha seu quebra-cabeça incompleto, e ele seria sua peça única, caso os encontrasse.
Rumava para a região de Century, uma das oito grandes províncias do Reino de Sellure. Vivera grande parte de sua vida em um vilarejo pequeno de zona rural, num lugarzinho perdido e de nome confuso, completamente esquecido. Havia acabado de deixar a casa de seus pais adotivos — e digamos que pais adotivos um tanto quanto especiais.
Ralph era um garoto comum, durante toda a vida cultivara memórias felizes e acolhedoras. Não tinha um passado triste ou melancólico, não precisava usar suas dificuldades como desculpa para ser forte. Diferente de qualquer outro ser humano, ele havia tido uma educação inusitada e completamente excêntrica:  havia sido criado por geckos, uma espécie de homens-lagartos. Absorvendo traços dessas criaturas, costumava fazer muito uso do instinto para resolver seus problemas no dia a dia, vivia pelo simples fluxo da natureza, não se importava com mordomias e muito menos com o que achavam dele. Aos poucos  aprendeu a agir como os humanos faziam, afinal, também era um, pelo menos em aparência.
Ralph era pego constantemente pensando em seu lar. Era o tesouro mais precioso que carregava em suas viagens; gostava dos campos verdes e dos grandes moinhos, e mesmo aquela viagem de trem já lhe apresentara uma visão maior do mundo do que toda sua infância. Ele certamente não era único. Só foi despertado de seus devaneios quando o trem tornou a oscilar sobre os trilhos desgastados. Devia ser bem velho, há quanto tempo estaria ali? Provavelmente mais do que ele, que acabava de completar quinze anos. Era a idade em que os adolescentes deixavam suas famílias para começarem os estudos avançados, servir sua nação era a mais grandiosa distinção concebível, uma vez que a existência de um rei nada mais era do que uma lenda antiga inalcançável para grande parte da população. Os tão aguardados quinze anos! Jovens de todos os lugares eram convidados a deixarem seus lares, por vontade própria ou não. O problema para muitos era a ideia de que poderiam não voltar mais.
Estava tão ansioso, sonhara com aquele momento a vida inteira, poderia ser a chance de descobrir de uma vez por todas a resposta da grande pergunta que o passado era incapaz de responder e o presente estava prestes a descobrir: "O que o futuro me reserva?"
Quando um velho de uniforme borrado passou ao seu lado, Ralph fez um aceno desengonçado com a mão apontando para a janela.
— Olá, caro senhor, pode dizer se já estamos chegando?
O velho lançou apenas um olhar rápido para o garoto, mas manteve-se em silêncio e continuou com sua faxina, como se não tivesse a permissão de falar com os visitantes. Porém, vendo que ninguém os observava, chamou-o com um assovio baixo.
— Estaremos na estação dentro de meia hora. Aproveite a paisagem, Century é uma das províncias mais antigas e exóticas de nosso belo Reino de Sellure.
— Que boa notícia, mal posso esperar para me inscrever e começar a treinar. Esperei por isso o ano todo, ou melhor, acho que toda a vida! — disse Ralph, contente. — Estou muito feliz! Acho que dá pra notar, não é?
— Estou vendo — o velho confirmou. Aquele garoto sorri bastante, pensou consigo mesmo. — Você irá servir o exército dos humanos, então? Vejo com frequência rostos como o seu — tornou a falar com a voz entristecida, agora, como se tivesse pena. Via jovens entrarem e saírem daquele trem todos os dias, mas sabia que dificilmente voltaria a vê-los.
O velho voltou a varrer os corredores do vagão. Ralph apoiou-se na parte traseira de seu assento e virou-se para ele para estender a conversa.
— Mas o que há de errado? Lutar por nosso mundo é importante. Desde muito novo eu sonhava em começar a minha aventura, enfrentar os vilões, ser um guerreiro honrado! Estou com total disposição para começar. Quero ajudar as pessoas como puder. Quero mudar o mundo.
— E o que você faria se descobrisse que na verdade a vida não é tão legal quanto parece? — o faxineiro respondeu num tom baixo, imaginando se por um instante não teria cometido um erro em destruir as esperanças de alguém tão jovem que ainda sonha com um mundo melhor.
Para sua surpresa, Ralph sorriu e fez um cumprimento com a cabeça.
— Eu a farei ser legal comigo.
O velhinho também sorriu e por fim retomou seu trabalho.

i

O tempo se arrastava vagarosamente, não havia absolutamente nada para se fazer no trem. Ninguém conversava, e poucos pareciam dispostos a fazer novas amizades naquele ambiente tão entediante. As respirações desmotivadas e os suspiros pesarosos denunciavam em sua grande maioria uma marcha rumo a um mundo sem retorno. Ralph só se lembrava de ter visto pessoas tão tristes no funeral de alguém que nem se lembrava de quem era. Olhava fixamente cada um ali presente, direto nos olhos. Tentava entender o que se passava em suas mentes, e às vezes conseguia. Alguns desviavam, outros fingiam que não era com eles. Uma garota que não parava de roer as unhas chegou até mesmo a se incomodar.
— O que você está olhando?
— Por que você está tão assustada? — Ralph perguntou de maneira mansa, era possível notar só pela forma como mexia as mãos e desejava tocá-la, procurando ajudar, interagir.
— Cuida da sua vida, garoto.
Ralph voltou a sentar-se e conformou-se com o silêncio. Tentou inventar um jogo rápido para passar o tempo, contaria quantas criaturas exóticas conseguia ver da janela, mas logo a brincadeira acabou, pois não havia mais tantas como antigamente.
Continuou observando tudo atento. Viu um rapaz terminar de beber um líquido de cor azulada e jogar a garrafa plástica no chão. O velho faxineiro recolhia o lixo quando uma reclamação lhe foi direcionada, como se houvesse a necessidade de resmungar:
— Vai demorar muito para essa lata velha chegar? Já estou ficando de saco cheio em ficar enfurnado aqui. Que demora! — disse alguém.
— Estamos indo para a Vila das Pérolas, um dos principais centros de recrutamento de Sellure. Paciência é uma virtude nos treinos que você fará parte.
— Não precisa lembrar, velhote. Já foi péssimo ter de deixar minha família e meus pertences em Helvetica. Por hora só quero sair desse lugar, não aguento esse cheiro de gecko impregnado nas poltronas, estão sentindo? — argumentou, chamando a atenção de Ralph que despertou seus instintos ao ouvir alguém falar “gecko”.
— Os assentos estão perfeitamente limpos, mas irei certificar-me de livrar o cheiro depois que vocês saírem — o velho falou num tom ríspido, que por sorte passou despercebido pelo rapaz que nem notou a ambiguidade da frase. — E agradeça por não haver nenhum gecko hoje no trem. Eles vêm com mais frequência do que imagina.
A conversa logo cessou, mas agora outras pessoas também comentavam sobre aquele assunto que despertara o interesse mútuo.
— Você ouviu? — uma moça comentou baixinho. — Há geckos por aqui também!
O jovem no banco de trás se pronunciou:
— Tomara que esses répteis façam uma passagem rápida pelo porto e não fiquem para bagunçar tudo como sempre fazem.
— Será que estão indo para a guerra? — disse outro, virando a cara para a janela. — Espero que de lá não voltem.
Ralph respirou fundo, constrangido. Os geckos sempre tiveram uma rixa intensa com os humanos: falavam e comunicavam-se com a mesma língua, e mesmo assim, não conseguiam se entender. Viviam debaixo do mesmo céu e nuvens, embora muitos se contrariassem como se fossem mais merecedores do que outros. Muitas guerras ocorreram por simples desentendimentos, mas qual espécie neste vasto mundo nunca se envolveu em conflitos por questões ideológicas?
As árvores agora passavam com velocidade por entre olhos atentos na janela. Ralph imaginava o que sentiria ao chegar em sua nova casa. Queria escrever uma carta para seus velhos pais, mas não era tão bom com palavras escritas quanto gostaria. Estava lidando com tantas coisas diferentes e inusitadas que precisaria sentar e contar uma longa história do que passara, embora ainda não tivesse nada realmente empolgante. Adorava inventá-las, e apesar de não escrever tão bem, gostaria que um dia todos o conhecessem por suas aventuras.
Uma última cambaleada e  precisou equilibrar-se em uma das paredes para não cair de seu banco. Pegou a espada de madeira caída no chão e olhou para os lados. O trem havia finalmente atravessado a fronteira de Century, como se cruzasse uma linha tênue imaginária. Já era possível ver a estação bem próxima do oceano, descendo a colina para enfim retomar seu caminho e desaparecer no horizonte.
Logo entraria com o pé direito em seu novo lar. Faltava muito pouco. Uma nova fase em sua vida teria início e ele ainda não sabia se estava preparado para aquela etapa tão importante.
Concluiu que nunca estaria. Mas teria de encará-la do mesmo jeito.

ii

O apito soou, todos se levantaram ainda desordenados. Ralph não escondeu um suspiro. Bem, minha vida antiga acaba agora!, pensou. Seu sorriso chegava de orelha a orelha, não importava onde estava ou quem estivesse por perto. Todos foram descendo, Ralph pegou sua espada de madeira e levantou-se para sair do trem, mas as pessoas o empurravam e disparavam em sua frente. Como era um bom rapaz, decidiu esperar e dar prioridade aos outros que pareciam tão apressados. Foi o último a descer por conta do ocorrido.
O faxineiro o chamou quando viu que mais ninguém estava no local.
— Ei, garoto. Não está esquecendo nada?
Ralph olhou para os lados, pensando se de fato esquecera alguma coisa.
— Hm? Ah, desculpa! Que falta de atenção a minha.
Ralph voltou e deu um forte abraço nele.
— Obrigado, meu senhor, por não me deixar esquecer.
Era aquilo que estava costumado a fazer quando ia para a escola e cumprimentava sua mãe, quando terminava de almoçar e agradecia a comida, quando simplesmente tinha vontade. A imagem de sua mãe lagarto com a voz enrugada era clara em sua mente sempre que perguntava: “Não está esquecendo de nada?”, e Ralph jamais se esquecia de abraçá-la e agradecer por tudo. Mesmo que não houvesse motivos para agradecer.
O velho continuou a encará-lo com uma feição estática de surpresa. Não sabia ao certo porque Ralph fizera aquilo ou como devolver a bondade, mas por algum motivo ficou feliz. Era o primeiro abraço que recebia em muito tempo.
Ele tinha esse estranho poder — contagiava as pessoas ao seu redor com felicidade. Transmitia o bem estar para aqueles a sua volta, até mesmo as pessoas mais frustradas não conseguiam esconder um sorriso ao seu lado, mas não confunda essa bondade com ingenuidade. Ralph sabia desse poder que carregava involuntariamente, e de todos os seus mistérios, aquele era um dos maiores.
— Bem, hmm, eu ia dizer que estava esquecendo sua mochila.
— Nossa, que cabeça a minha — respondeu com a mão na testa, agradecendo pelo lembrete.
Ralph pegou sua pequena mochila e foi embora. O velho o encarava, refletia, perguntava-se até quando um jovem inocente como ele conseguiria virar-se sozinho no mundo. A academia se provaria intensa e excessivamente severa, quando entrasse no exército sua situação não tendia a melhorar, e a vida não seria nem um pouco mais amigável; ao menos, as palavras o confortavam.
Cresça e torne-se grande, meu jovem; mas nunca deixe de pensar como você pensa hoje. Com o coração, garoto, com o coração.
Ralph acenou para ele de um jeito meio desengonçado, e o velho compreendeu que aquele garoto estava pronto para encarar a vida e o mundo.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Arte Oficial #04 - Ralph e Auria


Quando Auria foi criada, ela não passava da mocinha indefesa que espera ser resgatada. Hoje a história mudou, e é Ralph quem frequentemente precisa contar com seu auxílio para proteger-se. A relação desses dois melhorou muito, lembro-me que em meus primeiros rascunhos eu fazia os dois morando juntos, quero dizer, por que raios dois jovens morariam na mesma casa?! E, lá no fundo, nenhum gostava realmente do outro. Era como se morassem em uma república para estudos e tivessem que se suportar.

Ah, vai saber, nunca entenderei algumas dessas ideias antigas minhas...

Esta imagem pode ser encontrada no menu "As Histórias Perdidas", aqui consta a versão com fundo transparente.


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